quinta-feira, 18 de junho de 2009

2466. Com Obama, cépticos do clima perdem espaço

Em Fevereiro deste ano, o colunista conservador George F. Will, do jornal "Washington Post" e da revista semanal "Newsweek", escreveu um artigo em que enumerava uma série de estatísticas passadas e presentes para criticar o que baptizou de "ecopessimistas", os que sempre vêem um futuro sombrio quando se trata de ambiente. "Uma premissa não declarada deles é que as condições ambientais são, ou eram até recentemente, as melhores possíveis", disse.
WGeorge F. Will citava como exemplo uma onda de estudos e reportagens de publicações sérias nos anos 1970 que davam conta de que o mundo corria grande risco de entrar numa nova Era do Gelo, pelo ritmo da queda da temperatura no planeta na altura; se não são os mesmos, concluía o colunista, os que hoje falam dos perigos de aquecimento global têm atitude igualmente alarmista.
Polémicas não são exactamente novidade para o jornalista veterano, que ganhou o Prémio Pulitzer pelos seus comentários em 1977 e foi o escolhido por Barack Obama para ser o anfitrião de um jantar do então presidente-eleito com colunistas conservadores, em Janeiro último. Mas Will não esperava a avalanche de cartas, e-mails e telefonemas provocada por sua coluna.
Foram milhares, que levaram o ombudsman do "Post" a escrever uma coluna a respeito e a apontar pelo menos um erro factual, que Will contestou em colunas seguintes. Erros à parte, afirmava o ombudsman, "há um tom perturbador de 'se não concorda comigo, você é um idiota' no debate sobre o aquecimento global".
Will voltaria ao tema noutras três colunas, e a briga renderia uma reportagem no "New York Times", segundo a qual "ambos os lados exageram". Como exemplos eram citados o ex-vice-presidente Al Gore, no lado dos pessimistas, que defendem que a actividade humana vem aumentando a temperatura do planeta e que é preciso intervenção imediata para reverter esse processo, e Will, no canto dos cépticos, que postulam que a temperatura do planeta varia, ponto, independentemente dos humanos.
O equilíbrio no debate público sugerido pelo texto não se traduz na realidade. Com a eleição de Obama, que baseou a sua plataforma ambiental na luta contra o aquecimento global, os chamados "cépticos climáticos" estão em baixa. Essa retracção começou com o sucesso do filme de Gore, "Uma Verdade Inconveniente", de 2006, que ganhou dois Óscares e facturou 30 milhões de dólares nos Estados Unidos.
Em geral ligada à direita do espectro político e a indústrias campeãs de popularidade negativa como a do petróleo, essa corrente minoritária segue a maré baixa em que estão hoje os republicanos – em Novembro, além de perder a presidência, o partido virou minoria em ambas as Casas do Legislativo e nos governos estaduais. Mas isso não quer dizer que o movimento esteja dormente. No mês de Abril, o centro de pensamento conservador Cato Institute, de Washington, foi palco de uma noite de autógrafos e debate com uma das facetas moderadas do grupo, os autores do livro "Climate of Extremes" (Clima de Extremos).
Nele, Patrick J. Michaels, climatologista do instituto, e Robert C. Balling Jr., do programa de climatologia da Escola de Geografia da Universidade Estadual do Arizona, defendem que há todo um grupo novo de cientistas que discutem com seriedade o aquecimento global, mas que são contrários ao que chamam de "visão apocalíptica da mudança climática". "Não que você vá saber de algo a esse respeito", escrevem. "Consulte o seu jornal diário ou telejornal nocturno: previsões fatalistas é quase tudo o que você vai ler ou ouvir."
De facto, com a escolha da estrela Steven Chu para a pasta de Energia, Obama ajudou a monopolizar o noticiário para os pessimistas. Ganhador do Nobel de Física de 1997, Chu é um defensor do modelo chamado "cap-and-trade", que limita ("cap") a emissão de gases-estufa por empresas ao mesmo tempo que permite a comercialização ("trade") entre elas das chamadas "cotas de poluição", caso reduzam mais do que sua meta.
A ideia arrepia o ultraconservador Heartland Institute, um dos principais defensores da não-regulação do sector e, de maneira geral, do livre mercado sem qualquer interferência do governo. "Algumas pessoas nos Estados Unidos vêem o comando e o controle de indivíduos como o ápice da política", diz Dan Miller, vice-presidente executivo desse instituto baseado em Chicago. "Nós achamos que isso é terrível."
Instado pela Folha, ele remete uma amostra dos e-mails e cartas que recebe dos que discordam da sua posição. A maior parte é impublicável. "As paixões que cercam a questão do aquecimento global têm se intensificado nos últimos anos porque a posição dos cépticos substituiu o argumento dos alarmistas como ponto de vista dominante entre os cientistas", exagera Miller – na verdade, é o oposto o que ocorre.
Mas os cépticos preparam novo contra-ataque. No começo de Junho, reuniram 200 cientistas e políticos em Washington para uma conferência que discutiu o custo financeiro de novas medidas propostas por Obama, via Orçamento de 2010 e leis ordinárias, para sobretaxar empresas emissoras de gases causadores do efeito estufa. Entre os oradores, estrelas do movimento como Richard Lindzen, do MIT, Willie Soon, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, Roy Spencer, da NASA, e o geólogo Harrison "Jack" Schmitt. Ex-senador republicano, ele é um dos dois astronautas ainda vivos da Apollo-17, a última missão tripulada na Lua.
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