A Europa Ocidental teve o primeiro vislumbre de um verão atípico em
maio de 2026, quando uma onda de calor produziu temperaturas excepcionais que
bateram recordes em vários países. Por mais notável que tenha sido, esta onda
de calor inicial revelou-se apenas o primeiro sinal.
Em meados de Agosto, os europeus enfrentavam a quinta onda de calor da
temporada, com a mais recente a elevar as temperaturas bem acima dos 40 graus
Celsius (104 graus Fahrenheit) numa vasta área. Durante estes períodos de clima
extremo, as altas temperaturas eram frequentemente implacáveis, persistindo
durante vários dias e, por vezes, semanas a fio, e permanecendo durante a
noite.
Para uma região habituada a verões relativamente amenos, o calor
transformou o quotidiano. Hospitalizações e mortes relacionadas com o calor dispararam.
As auto-estradas e os carris de comboio cederam, obrigando ao encerramento de
estradas e à interrupção de serviços. Grandes e destrutivos incêndios
florestais devastaram áreas onde antes eram raros. O calor também agravou a seca
severa que assola a região há meses, contribuindo para níveis recorde de baixa
nos rios e interrompendo o abastecimento de água e energia, as rotas de
transporte e a agricultura.
O calor bateu recordes a um ritmo frenético, muitas vezes por larga
margem. De acordo com o Met Office do Reino Unido, as temperaturas atingiram os
35,1°C em Londres no dia 26 de maio, superando o recorde anterior para maio em
2,3°C. Em Junho, Bordéus, em França, bateu o seu recorde de temperatura máxima
durante três dias consecutivos, atingindo os 42,5°C a 24 de Junho, informou a
Météo-France. A Eslováquia, por sua vez, estabeleceu novos recordes nacionais
para as temperaturas máximas diurnas e nocturnas em Agosto. As temperaturas
combinadas de Junho e Julho na Europa Ocidental foram as mais elevadas de
sempre, de acordo com o serviço europeu de monitorização climática Copernicus.
Na Europa, as temperaturas extremas colidiram com diversas
vulnerabilidades, incluindo o acesso limitado a ar condicionado, as altas
temperaturas nocturnas e a falta de espaços verdes em algumas cidades. Estas
circunstâncias desencadearam não só desconforto, mas também exaustão e insolação
em alguns casos. Os relatórios preliminares sugerem que o calor pode ter estado
associado a 10.000 mortes adicionais, incluindo milhares de pessoas no Reino Unido,
França, Alemanha e Bélgica.
"O ar condicionado é uma questão especialmente crítica na Europa
a curto prazo", disse Anamika Shreevastava, investigadora da Universidade
de Nova Iorque que estudou ilhas de calor urbanas como pós-doutorada no
Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA. Um dos seus objectivos era produzir mapas
térmicos com base em dados da NASA de missões como a ECOSTRESS, que os urbanistas
pudessem utilizar para tornar as cidades mais resilientes às ondas de calor.
Dados da Agência Internacional de Energia mostram que 23% das casas na
Europa têm ar condicionado, em comparação com 90% das casas nos Estados Unidos.
Esta diferença contribui para as taxas de mortalidade muito mais elevadas que
os investigadores documentaram nas cidades europeias durante as ondas de calor,
em comparação com cidades americanas semelhantes. "A longo prazo, as
cidades também podem plantar árvores, expandir parques, utilizar tinta reflectora
nos telhados e fazer a transição para materiais de construção com menor
probabilidade de reter calor", disse Shreevastava.
Uma análise da Organização Mundial de Saúde indica que o stress
térmico é a principal causa de mortes relacionadas com o clima no mundo,
agravando doenças pré-existentes, como as doenças cardiovasculares, diabetes,
perturbações mentais e asma. Os investigadores calcularam que ocorrem
anualmente aproximadamente 489.000 mortes relacionadas com o calor, sendo 45%
delas na Ásia e 36% na Europa.
"Para os idosos com problemas de saúde física, temperaturas tão
baixas como 26,7°C (80°F) podem representar um perigo significativo",
disse Deborah Carr, socióloga da Universidade de Boston especializada no estudo
do envelhecimento. "O calor nocturno é especialmente prejudicial para os
idosos cujas casas não têm ar condicionado."
Carr faz parte de uma equipa de investigação que utilizou dados
demográficos, juntamente com dados de temperatura e clima
arquivados pela NASA, para identificar quais as partes do mundo que
correm maior risco de exposição ao calor, tanto actual como futura. O sul da
Europa estava entre as áreas que enfrentam uma crescente exposição ao calor e
uma população envelhecida, constataram os investigadores.
Outra investigação, publicada na Lancet
Planetary Health em Agosto de 2026, reforça a importância da demografia na
avaliação dos riscos representados pelo calor. Este estudo, liderado pela
investigadora de Stanford, Qinqin Kong, mapeou onde o aumento do calor
provavelmente levará a condições intoleráveis nas próximas décadas para
jovens, adultos de meia-idade e idosos, concluindo que os limites de segurança
serão ultrapassados frequentemente e em grande escala, com os riscos a recaírem
desproporcionalmente sobre os idosos.
"O corpo humano só consegue tolerar uma gama limitada de calor
ambiente", disse Kong, vencedor de um prémio da NASA em Ciência e
Tecnologia da Terra e do Espaço. "Compreender onde, quando e em que medida
esses limites são ultrapassados é fundamental."
Com a previsão de níveis intoleráveis de calor a afectar mais
pessoas em regiões maiores e por períodos mais longos do que se pensava
anteriormente, Kong e os seus colegas esperam que as suas descobertas
contribuam para planos de acção direccionados para o calor, preparação para
emergências e planeamento do sistema de saúde.
Texto de Adam Voiland
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Fonte: NASA (Earth Observatory)