quinta-feira, 23 de julho de 2026

IPMA: Avaliação técnica e de usabilidade

Esta é a aplicação detalhada do questionário ao ecossistema digital do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), com base nas funcionalidades do seu portal web oficial e aplicações móveis.

 

1. Identificação e Tipologia

  • Nome: Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
  • Tipologia: Portal institucional da administração pública e plataforma técnico-científica de prestação de serviços públicos de meteorologia, climatologia, sismologia e oceanografia.

2. Idioma e Abrangência Territorial

  • Idioma principal: Português de Portugal (pt-PT), disponibilizando também grande parte dos conteúdos traduzidos para Inglês (EN).
  • Regiões Autónomas: Sim. O portal abrange e detalha de forma completa as previsões e avisos para os Arquipélagos dos Açores e da Madeira, possuindo delegações e páginas meteorológicas dedicadas a cada ilha.

3. Frequência de Atualização (Nowcasting)

  • Frequência: Praticamente em tempo real (atualizações a cada 5 a 10 minutos). Os dados de curto prazo dependem de radares meteorológicos, descargas elétricas e imagens de satélite (Meteosat/MSG), que renovam as imagens e deteções em intervalos curtíssimos de poucos minutos.

4. Modelos Numéricos de Previsão

  • Indicação Clara: Sim, a plataforma indica os modelos utilizados.
  • Modelos Utilizados: O IPMA recorre principalmente ao modelo global ECMWF (Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo) e ao modelo de alta resolução de área limitada AROME (do consórcio ACCORD). Ambos são processados estatisticamente com as estações locais para afinar as previsões automáticas.

5. Apresentação da Probabilidade de Precipitação

  • Formato: É apresentada predominantemente em percentagem (%) na previsão por localidades (ex: "Probabilidade de precipitação: 60%").
  • Quantidade: A quantidade estimada de precipitação (em mm) e a sua distribuição geográfica são disponibilizadas separadamente através das Cartas Meteorológicas de previsão numérica e mapas dinâmicos.

6. Normais Climatológicas

  • Disponibilidade: Sim. O IPMA disponibiliza as normais de referência de 30 anos para os períodos de 1971-2000, 1981-2010 e, mais recentemente, 1991-2020.
  • Comparação: O utilizador pode consultar estas normais através de fichas climatológicas ou tabelas gráficas na secção "O Clima" para as confrontar com os desvios e anomalias do tempo atual.

7. Consulta e Exportação de Dados Históricos

  • Consulta: Muito ampla. O IPMA mantém um histórico acessível através de boletins diários, mensais, anuais e relatórios de extremos climatológicos.
  • Exportação: É possível consultar e extrair dados através das chamadas "Séries Longas" (séries históricas abertas). Para integração de sistemas, o instituto disponibiliza também a IPMA API gratuita em formato JSON. O Portal do Clima associado permite fazer o download de dados simulados e observados.

8. Sistema de Alertas para Fenómenos Extremos

  • Funcionamento: Baseia-se no sistema Meteoalarm, estruturado através do sistema SAM (Sistema de Avisos Meteorológicos). [1]
  • Cores de Alerta: Os alertas são divididos por zonas geográficas (distritos ou ilhas) e classificados em quatro níveis de gravidade:
    • Verde: Sem risco.
    • Amarelo: Situação de risco para determinadas atividades.
    • Laranja: Situação de risco moderado a elevado.
    • Vermelho: Situação de risco extremo, com previsão de danos graves.

9. Notificações Push e Alertas em Tempo Real

  • No Site Web: Não existem notificações push diretas no navegador tradicional.
  • Nas Aplicações Móveis: Sim. A aplicação móvel oficial Meteo@IPMA (disponível para Android e iOS) foi atualizada para incluir a emissão de notificações push automatizadas de avisos meteorológicos diretamente para o telemóvel do utilizador.

10. Interatividade dos Mapas Meteorológicos

  • Interatividade: Parcial. Os mapas de previsão geral diária e radar são interativos (permitem fazer zoom, avançar nas horas e selecionar localidades) utilizando tecnologias comuns como Leaflet.
  • Interpretação: Embora os mapas de avisos (SAM) sejam de fácil interpretação para o cidadão comum devido ao código de cores e ícones claros, os mapas das cartas meteorológicas numéricas puros requerem algum conhecimento técnico para ler linhas de pressão (isóbaras) ou frentes.

11. Requisitos de Acessibilidade Web (WCAG)

  • Conformidade: O site possui e exibe o Símbolo de Acessibilidade à Web.
  • Estado Atual: Segundo a própria declaração de acessibilidade da plataforma, o símbolo reflete um esforço contínuo de conformidade com a legislação nacional (Resolução do Conselho de Ministros n.º 119/2021) para cidadãos com necessidades especiais. Contudo, devido à densidade de tabelas científicas antigas e gráficos estáticos de dados, algumas secções mais antigas podem ainda apresentar barreiras à leitura por ecrã (screen readers).

12. Dados Meteorológicos para Setores Económicos

  • Agricultura: Disponibiliza dados através da sua secção de Agrometeorologia (plataforma agroclimática, índice de seca, percentagem de água no solo e índice de saúde da vegetação).
  • Mar: Apresenta secção dedicada para a Meteorologia Marítima, fornecendo o estado do mar, previsão para navegação costeira e alto mar, altura e período das ondas, temperatura da água e avisos à navegação.
  • Aviação: Possui uma área exclusiva dedicada à Meteorologia Aeronáutica de acesso reservado e público (com dados METAR, TAF, mensagens SIGMET e avisos de aeródromo cruciais para a segurança das operações de voo).

 

 

Aqui tem a Matriz de Avaliação Final do portal e ecossistema digital do IPMA, sintetizada com base nas 12 dimensões do questionário anterior. A matriz utiliza uma escala de 1 a 5 (onde 1 é Insuficiente e 5 é Excelente) e inclui uma ponderação sugerida para calcular a nota final com base no impacto real para o cidadão comum.

Matriz de Avaliação: Portal e Ecossistema Digital IPMA

ID

Dimensão Avaliada

Nota (1-5)

Peso

Pontuação

Justificação / Nota Técnica

1

Identificação e Tipologia

5

5%

0.25

Cumpre perfeitamente o papel de portal oficial de referência nacional.

2

Idioma e Abrangência

5

10%

0.50

Cobertura total do território (Continente e Ilhas) e bilingue (PT/EN).

3

Frequência de Atualização

5

10%

0.50

Dados de nowcasting (radar e satélite) atualizados a cada 5-10 minutos.

4

Modelos Numéricos

4

5%

0.20

Transparência no uso do ECMWF e AROME, embora falte contextualização para leigos.

5

Probabilidade de Precipitação

4

10%

0.40

Percentagem clara por localidade, mas os dados de quantidade requerem mapas técnicos.

6

Normais Climatológicas

5

5%

0.25

Excelente arquivo com séries históricas completas (1971-2000 até 1991-2020).

7

Exportação e Histórico

5

10%

0.50

Disponibilização de API JSON gratuita e dados abertos em formato reutilizável.

8

Sistema de Alertas

5

15%

0.75

Sistema SAM/Meteoalarm altamente robusto, georreferenciado e visual.

9

Notificações Push

3

10%

0.30

Funciona bem nas apps móveis, mas o site web peca por não enviar alertas push.

10

Interatividade dos Mapas

3

10%

0.30

Mapas de avisos fáceis; cartas sinópticas e numéricas são demasiado complexas.

11

Acessibilidade Web

3

5%

0.15

Possui selo de acessibilidade, mas páginas antigas falham em leitores de ecrã.

12

Setores Económicos

5

5%

0.25

Áreas completas e vitais para a Marinha, Aviação (METAR/TAF) e Agricultura.

-

Nota Final Ponderada

4.35

100%

4.35 / 5.0

Desempenho Muito Bom (Nível de Excelência Técnica)

Diagnóstico Rápido (SWOT)

·         Pontos Fortes: Rigor científico, gratuitidade da API, robustez do sistema de alertas e dados em tempo real.

·         Pontos Fracos: Interface com design antiquado em várias secções e mapas de previsão numérica difíceis de ler pelo cidadão comum.

 

 

Com base no diagnóstico efetuado na matriz de avaliação, o portal do IPMA apresenta uma excelente robustez técnica, mas ressente-se de uma interface datada e de alguma complexidade na comunicação com o cidadão comum. Seguem as recomendações prioritárias para modernizar a plataforma, divididas por eixos de ação:

1. Experiência do Utilizador (UX) e Design Interativo

·         Simplificar os mapas numéricos: Criar uma camada interativa simplificada sobre os mapas técnicos. O cidadão comum deve conseguir ver a evolução da chuva e do vento através de uma barra cronológica intuitiva (estilo Windy ou Meteoblue).

·         Modernizar o arquivo e tabelas: Substituir as tabelas densas e estáticas de dados climáticos por gráficos dinâmicos e interativos (usando bibliotecas como Highcharts ou D3.js).

·         Desenhar um portal responsivo: Eliminar as secções antigas que ainda obrigam ao uso de zoom em ecrãs de telemóveis, unificando a experiência mobile e desktop.

 

2. Comunicação e Alertas (Cidadania)

·         Ativar notificações push no browser: Implementar alertas diretamente no navegador web (com autorização do utilizador) para avisos meteorológicos de nível Laranja e Vermelho, sem depender exclusivamente da app móvel.

·         Contextualizar a probabilidade: Explicar de forma simples o que significa a "probabilidade de precipitação" na previsão por localidade e associar-lhe o volume estimado (ex: apresentar "60% de probabilidade / 2 a 5 mm").

·         Criar resumos em linguagem natural: Utilizar Inteligência Artificial ou automação para gerar pequenos resumos em texto na página inicial (ex: "Amanhã haverá uma descida acentuada da temperatura com vento forte no Norte e Centro").

 

3. Acessibilidade e Inclusão (WCAG)

·         Auditoria de acessibilidade: Atualizar o portal para cumprir integralmente as diretrizes WCAG 2.1 (Nível AA).

·         Otimizar para leitores de ecrã: Adicionar etiquetas alt (texto alternativo) em todos os gráficos, mapas de radar e imagens de satélite para cidadãos com deficiência visual.

·         Melhorar o contraste: Ajustar as paletas de cores de alguns mapas técnicos para garantir que são legíveis por utilizadores com daltonismo.

 

4. Setores Económicos e API

·         Criar um Dashboard do Agricultor: Unificar os dados de agrometeorologia (seca, água no solo, índice de evapotranspiração) num painel único, personalizável por região.

·         Centralizar a documentação da API: Criar um portal moderno para programadores (estilo Swagger/OpenAPI) para facilitar a integração dos dados abertos do IPMA em novas aplicações e startups nacionais.

As respostas de IA podem incluir erros.

 

Incêndios florestais deixam milhares de deslocados no sul da Europa

Incêndios florestais violentos, alimentados pelo vento e por temperaturas elevadas, devastavam diversas regiões do sul da Europa e levaram ao deslocamento de milhares de pessoas na França e na Espanha nesta quinta-feira (23). Este ano é o segundo pior em termos de área queimada por incêndios florestais na União Europeia neste período desde que os registros começaram, há 20 anos, de acordo com dados de satélite do sistema Effis analisados pela AFP. Pelo menos três bombeiros morreram nos últimos dias, dois na França e um na Itália.

No sul da França, os bombeiros combatem dois grandes incêndios. Um deles, em Le Porge, perto da cidade de Bordeaux (sudoeste), já havia queimado 3.400 hectares, segundo a última estimativa dos bombeiros. “A polícia bateu em todas as portas. O fogo estava a 500 metros de distância”, disse à AFP Patrick Martineau, um morador de Le Porge, de 69 anos. “Estamos com medo e é difícil de entender. É surreal. Quando compramos aqui, há seis anos, não pensamos no risco de incêndio”. De acordo com diversas fontes consultadas pela AFP, o incêndio provavelmente começou durante trabalhos de limpeza de vegetação em uma estrada florestal. Segundo as autoridades, cerca de 20.000 pessoas – incluindo turistas e centenas de moradores de cidades próximas à floresta – foram obrigadas a deixar a área.

O outro incêndio, que começou na terça-feira ao meio-dia em um campo e se espalha pelo departamento de Var (sul da França), devastou 2.500 hectares e mais de 300 pessoas foram evacuadas. Durante a tarde, o prefeito, Simon Fabre, anunciou que “o fogo reacendeu” e que entre 50 e 100 focos de incêndio foram reactivados.

Segundo o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, mais de 12.500 incêndios foram registrados desde o início do ano, e 44.000 hectares já foram queimados.  Na França, os incêndios florestais nunca consumiram tanta superfície nesta época do ano.

Espanha e Itália também enfrentam um de seus piores anos. As florestas queimam com mais facilidade porque a vegetação e os solos europeus sofrem há meses com uma seca agravada pelas ondas de calor excepcionais que atingiram o continente em Junho e Julho, causando maior evaporação da água. São justamente as mudanças climáticas, causadas principalmente pela queima contínua de petróleo, carvão e gás, que agravam a seca actual, concluíram os climatologistas do grupo World Weather Attribution em um estudo publicado nesta quinta-feira.

Na Itália, dezenas de incêndios florestais e de vegetação devastam a Sicília, anunciou o ministro do Interior, Matteo Piantedosi. Cem moradores, assim como 22 pacientes de uma clínica no centro da ilha, onde as temperaturas ultrapassaram os 40°C nos últimos dias, foram evacuados na quarta-feira, segundo os bombeiros. “Foram mobilizados 6.000 efectivos e 20 meios aéreos estão operando”, declarou, na noite de quarta-feira, o presidente da região, Renato Schifani, que detalhou que cerca de 50 incêndios, dos 344 reportados na quarta-feira, seguem activos. Um porta-voz da Agência de Protecção Civil da Itália disse à AFP que os incêndios estão sendo alimentados por “temperaturas muito altas e solo muito seco”. Mais de 160 incêndios também foram relatados nas últimas 24 horas na Calábria, região vizinha.

Na Espanha, o incêndio mais importante se encontrava aproximadamente 100 km ao norte de Madrid, na província de Guadalajara. Desde a quinta-feira passada, as chamas devastaram 32.000 hectares. Autoridades evacuaram nesta quinta-feira os 3.500 habitantes de Aldea del Fresno, localidade situada 60 km a oeste de Madrid. Dezoito unidades dos bombeiros trabalhavam no combate ao incêndio declarado perto de Aldea del Fresno, juntamente com soldados da Unidade Militar de Emergências (UME), informaram os serviços emergenciais, acrescentando que várias estradas permaneciam bloqueadas pelas chamas. Vários incêndios foram declarados na Espanha nos últimos dias. Impulsionados pela onda de calor que asfixia o país há dois dias, eles se propagam rapidamente, sobretudo nas áreas desérticas, onde a vegetação rasteira constitui um combustível ideal.

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Fonte: Swissinfo.ch

 

Dominado fogo no concelho de Alijó

O incêndio que deflagrou na quarta-feira no concelho de Alijó foi dominado hoje, às 06h20, estando os operacionais a fazer trabalhos de rescaldo em vários pontos do perímetro do fogo.

"O incêndio entrou em fase de resolução às 06:20. Os operacionais no terreno estão agora a proceder ao rescaldo de vários pontos quentes ao longo do perímetro do fogo e vigilância. A esta hora [06:40) estão no local 480 operacionais, com o apoio de 160 veículos", disse o comandante Sub-Regional de Emergência e Protecção Civil do Douro. De acordo com José Requeijo, dois bombeiros sofreram ferimentos ligeiros durante o combate ao incêndio. O comandante tinha dito anteriormente à Lusa que a circulação no Itinerário Complementar 5 (IC5) ficou normalizada às 00:00, depois de ter estado cortada nos dois sentidos, entre Pópulo e Alijó.

Por volta das 23:00 de quarta-feira, quando o incêndio tinha duas frentes activas, o comandante sub-regional de Emergência e Protecção Civil do Douro, Miguel Fonseca, disse à Lusa que duas aldeias do concelho de Alijó, Freixo e Ribalonga, estiveram na linha do fogo o que obrigou a acções de defesa do perímetro, além do combate directo às chamas. Foram também preparadas acções de confinamento para a população, em articulação com a GNR, que não foram necessárias, acrescentou.

O alerta para o fogo foi dado pelas 13:35 de quarta-feira na localidade de Agrelas, concelho de Alijó.

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Fonte: RTP Notícias

 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Como Portugal escapou ao "anticiclone ómega" e ao aumento das mortes na onda de calor

Em entrevista à Renascença, o investigador em alterações climáticas Pedro Matos Soares pede melhor comunicação com os cidadãos, sobretudo os mais vulneráveis, sobre as estruturas a que podem recorrer, no caso de uma vaga de frio e de uma onda de calor.

Com a "cúpula de calor" ou o "anticlone em forma de ómega" mais em cima de Portugal, a mortalidade decorrente da onda de calor de Junho teria sido semelhante à que varreu a Europa Ocidental. A afirmação é de Pedro Matos Soares, investigador principal no Instituto Dom Luiz, especialista em Alterações Climáticas e coordenador científico do último Roteiro Nacional de Adaptação 2100.

Em entrevista à Renascença, este professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa alerta que não basta dizer às pessoas que há um local para se refugiarem do calor e remete-las para informação na internet.

Em entrevista à Renascença e ao Público, a directora-geral da Saúde acredita que não vai haver um aumento muito significativo da mortalidade da onda de calor mais recente e sublinha que “Portugal está abaixo do nível de risco de excesso de mortalidade, enquanto Espanha, França e Reino Unido estão ligeiramente acima”. Não há uma certa contradição com a mensagem mais preocupada que está a trazer?

Rita Sá Machado também fez uma declaração que apontava para a necessidade de esperar ainda alguns dias, porque os efeitos das ondas de calor, em termos de excesso de mortalidade, demoram algumas semanas. O agravamento do estado de mobilidade cardiovascular e respiratório, muitas vezes não é síncrono com a onda de calor.

A directora-geral da Saúde referiu-se a esse aspecto e os números do excesso de óbitos ainda são provisórios. Desejo que tenhamos excessos de mortalidade baixos, mas a severidade da onda de calor na Europa Ocidental nos países que referiu foi diferente.

A onda de calor em Portugal foi intensa, provocou este excesso de mortalidade e de hospitalizações, mas não foi tão severa como nos outros países. Voltando ao relatório do Copernicus, e para os recordes de temperatura de Junho associado a essa onda de calor, vemos que eles se manifestaram precisamente mais em Espanha, em França e em Inglaterra.

Em Portugal, tivemos a entrada da depressão a noroeste que nos trouxe algum ar marítimo e que fez com que a severidade das temperaturas se atenuasse. E tivemos o anticiclone dos Açores a impor-se sobre o nosso território, principalmente na zona litoral, onde vive a maior parte dos portugueses.

Temos temperaturas no interior muito díspares face às temperaturas do litoral, mas temos muito mais gente a viver no litoral. Por isso, sempre que temos este contraste de temperaturas muito grandes no interior e no litoral, há temperaturas mais amenas, com origem nos fluxos atmosféricos impostos pelo anticiclone dos Açores, com o vento de norte mais marítimo, que aligeira e mitiga os impactos sobre a saúde pública, felizmente para os portugueses.

Quando comunicamos esta informação, é muito importante dizer que isto deve-se a este mecanismo. Se tivéssemos a cúpula de calor mais sobre o nosso território, se este anticiclone estivesse um pouco mais para sudoeste, poderíamos ter tido exactamente a mesma severidade da onda de calor de Junho que tiveram os países que nomeei, com maiores excessos de mortalidade.

O que é que os modelos nos dizem sobre a continuação das ondas de calor?

Na onda de calor de Junho, tivemos um anticiclone – que não era o anticiclone dos Açores, é preciso dizer isso claramente – como um bloqueio em forma de ómega, que esteve ali estacionário bastante tempo na Europa Ocidental, trazendo-nos aquecimento. O grande aquecimento da superfície, não só pela compressão do ar descendente, foi também ele realimentado – porque não temos nebulosidade – pela chamada "retroacção positiva", devido ao facto de os solos estarem quentes.

Temos então uma dissecação e o aquecimento muito mais intenso da superfície atmosférica. Por isso é que tivemos anomalias de 10 a 15 graus na onda de calor em relação ao normal no sudoeste de França.

Este tipo de configurações e a frequência das ondas de calor já estão a aumentar. Os modelos climáticos de alta resolução globais mostram há muito tempo claros aumentos de frequência de ondas de calor e da severidade, que tem a ver com a persistência deste tipo de configurações atmosféricas. Este sinal de aumento das ondas de calor e de severidade diz respeito a praticamente toda a Europa, não sendo uma questão localizada.

No relatório especial sobre os impactos da diferença do aumento de 1,5 para 2 graus no calor extremo no mundo, em vez de termos algumas centenas de milhões de pessoas sujeitas a ondas de calor, passamos para 1 a 2 mil milhões de pessoas. É uma coisa mesmo desproporcionada.

Os resultados dos modelos climáticos são muito fiáveis na caracterização deste aumento de temperatura regional e destes extremos de temperatura de uma forma omnipresente sobre o território dos nossos continentes e também da Europa.

Coordenou cientificamente o Roteiro Nacional para a Adaptação até ao final do século. No cenário intermédio, a partir de 2071, nesse documento aponta-se para a probabilidade de seis ondas de calor por ano. Ora, de acordo com o Instituto Português do Mar e Atmosfera, já se registaram exactamente seis ondas de calor este ano. Isso significa que já estamos a viver o clima projectado para daqui a 40 anos?

Não. Temos de ver se essas ondas de calor estão no mesmo espaço, nas mesmas estações, se diz respeito a Trás-os-Montes, ao Alentejo ou a Lisboa.

Nas projecções climáticas, estamos a falar de médias de 30 anos e não as podemos comparar com o número anual. Podemos ter muitas ondas de calor este ano, mas para o ano podemos ter menos.

Sempre que falamos de clima, não podemos avaliar uma mudança sem olhar para a variabilidade. Por exemplo, nos últimos anos, tínhamos tido anos de seca, com muitos défices de precipitação e, por exemplo, no último inverno, tivemos uma precipitação muitíssimo anómala.

Não é por termos tido alguns anos de seca ou um ano de precipitação muito intensa que vamos dizer que, afinal, nem há seca ou o clima é muito húmido. O que passa ao nível de um ano, não passa de um sinal.

Existem várias definições de onda de calor. No Roteiro Nacional para a Adaptação, que liderei cientificamente, a definição de onda de calor é a da Organização Mundial de Meteorologia, que são pelo menos cinco ou mais dias em que a temperatura máxima está acima do percentil 90. Penso que o IPMA não segue esta definição. Quando falamos em seis ondas de calor, temos que as registar sempre no mesmo sítio.

Mas então não existiram seis ondas de calor como as descritas pelo IPMA?

O que digo é que existem várias correntes nos saberes e diferentes definições de onda de calor. Existem duas, que são as mais preponderantes, que retractam o fenómeno de maneira ligeiramente diferente, mas todas elas apontam para um aumento da frequência e da severidade das ondas de calor. Ou seja, não se contradizem. Têm nuances de interpretação e de impactos sobre a sociedade. Não fiz ainda as contas ao número de ondas de calor deste ano.

De acordo com o IPMA – consultando o seu site – considera que ocorre uma onda de calor quando num intervalo de pelo menos seis dias consecutivos, a temperatura máxima diária é superior em 5°C ao valor médio das temperaturas máximas diárias, no respectivo mês, para um determinado período de referência.

Lá está, é uma definição diferente daquela que foi utilizada no Roteiro. Ainda bem que fala sobre essa questão, porque quando falamos das projecções de ondas de calor, estamos a referir-nos ao "verão estendido".

O IPMA detectou a primeira onda de calor em Fevereiro deste ano.

Quando temos uma onda de calor em Fevereiro, pode ter impacto sobre os ecossistemas, mas raramente tem impacto sobre a saúde pública. Uma onda de calor em Fevereiro é muito menos severa para as pessoas do que uma onda de calor no fim da primavera ou no verão.

Temos de definir se estamos a falar de ondas de "verão estendido" que é o que eu defendo, porque o verão está em extensão, está a ser mais alargado ou se estamos a falar de ondas de calor de inverno, porque estas, do ponto de vista da saúde pública, têm muito pouco ou nenhum impacto.

A legenda da figura no Roteiro Nacional de Adaptação fala em ondas de calor por ano.

Não, são ondas de calor por ano no "verão estendido". É uma grande diferença, por isso, ainda bem que falou sobre isso. No "verão estendido", estamos a falar de ondas de calor entre Março e Novembro.

Outra questão relevante na adaptação às alterações climática são os chamados abrigos ou refúgios climáticos. Mas, por exemplo em Lisboa, quando as temperaturas subiram, fecharam os parques e zonas mais frescas.

Fecharam-se os parques por causa do risco de incêndio. Infelizmente, no sul da Europa, no Mediterrâneo, temos um grande problema. Quando temos ondas de calor, défice de precipitação, e a vegetação muito seca, temos um perigo meteorológico de incêndio muito grande.

Estamos a gerir duas coisas, porventura, de uma maneira ainda pouco estruturada. Numa onda de calor, os parques e os jardins são zonas em que as pessoas podem ter temperaturas um pouco mais baixas. Mas diria que não são muito mais baixas. É preciso também, às vezes, desmistificarmos um pouco essa questão.

As temperaturas dos nossos parques são um pouco mais baixas numa onda de calor e se tivermos uma noite tropical, com 30 graus na malha urbana, podemos ter dois ou três graus a menos se formos para um jardim. Mas não é muito mais, não é isso que resolve o problema, não vamos deixar ter uma noite tropical num parque. O problema é que isso está caracterizado de uma forma muito insuficiente.

O que me parece é que a população mais vulnerável, que são os mais idosos, normalmente não têm a literacia digital e o acesso a essa informação para se poderem proteger

Estamos a agir mal no domínio dos refúgios climáticos?

Somos reactivos. Todas as iniciativas que possam salvaguardar a nossa população são de louvar. No caso de Lisboa, foram abertos dois pavilhões e algumas estações de metro durante a noite, para os sem-abrigo se refugiarem. Houve um conjunto de diligências da Direcção-Geral da Saúde, e das estruturas municipais e freguesias para que pudessem albergar pessoas, e havia um portal, até, com essa informação.

O que me parece é que a população mais vulnerável, que são os mais idosos, normalmente não têm a literacia digital e o acesso a essa informação para se poderem proteger.

Preparar o inverno no verão?

É durante o inverno que, por exemplo sobre as ondas de calor, devemos ter iniciativas claras de localização dos refúgios climáticos, para as pessoas perceberem o que é. E comunicar para a população vulnerável, como os sem-abrigo, toda essa informação estruturante no município, durante todo ano, porque as pessoas também morrem de frio. Dizer que as pessoas devem ir para um local e que a informação está na internet, não resolve os problemas.

Temos de ter uma estrutura municipal que comunique com o cidadão comum e com muita incidência sobre as pessoas mais vulneráveis, sobre as estruturas municipais a que as pessoas podem recorrer, no caso de uma vaga de frio e numa uma onda de calor.

Muitos dos nossos idosos não vão à internet, têm uma literacia digital baixa. Há que tentar chegar às pessoas mais vulneráveis de uma maneira mais consequente e não em cima das incidências dos extremos. Tem de ser uma rede estruturada de refúgios climáticos, que as pessoas saibam que existem, sempre que existe um problema de temperatura extrema, a que possam recorrer para se protegerem e saberem quais são os horários de funcionamento, bibliotecas, etc.

José Pedro Frazão

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Fonte: Renascença