Como
escapou Portugal à onda de calor que está a deixar de rastos os países mais
próximos? Uma depressão vinda do mar empurrou a massa de ar quente para outras
paragens, explicou ao PÚBLICO Jorge Ponte, chefe da Divisão de Previsão
Meteorológica e Vigilância do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Paris
teve nesta quarta-feira a temperatura mais alta desde que há registos, 40,9
graus, com 90% dos franceses expostos a calor extremo. No Reino Unido, foi
batido o recorde do dia mais quente em Junho, com 35,8 graus no Sul de
Inglaterra. Em Espanha, segunda e terça-feira foram os dias mais quentes desde
que se fazem registos, com uma temperatura sete graus acima do valor normal,
com a situação mais grave no Norte do país.
“Neste
momento temos uma depressão em altitude, a oeste de Portugal continental, que
está a injectar ar de origem marítima em Portugal, portanto, ar mais ameno”,
explicou ao PÚBLICO Jorge Ponte, chefe da Divisão de Previsão Meteorológica e
Vigilância do IPMA.
“Ao mesmo tempo que uma crista anticiclónica se posiciona no continente
europeu, na região do interior da Península Ibérica, de França e da Europa
Central, está a haver o transporte de uma massa de ar muito quente com origem
no Norte de África”, acrescentou. “Portugal ficou aqui um pouco à margem,
porque apanhámos com a circulação mais próxima da depressão e, portanto,
estamos com a influência de uma massa de ar mais de origem marítima”, conclui
Jorge Ponte.
“A acção conjunta da depressão a oeste de
Portugal e a crise anticiclónica que está na Europa transportou a massa de ar
quente mais na direcção da Europa Central.”
É por isso que Portugal pode respirar, enquanto pelo menos 95 milhões de
europeus estão a abafar nesta quarta-feira sob temperaturas de acima de 35
graus, segundo cálculos divulgados pela agência noticiosa AFP.
Calor
perturba economia – A temperatura está a bater recordes e a afectar o
funcionamento da economia e das instituições. Além de escolas fechadas, a
produção de energia nuclear teve uma redução, nesta quarta-feira, de 4,1
gigawatts, ou seja, 7% da procura verificada a meio do dia, segundo dados da
eléctrica francesa EDF, citados pela Reuters.
Isto
porque os reactores precisam de água para arrefecer, e a água dos rios está
também muito quente, demasiado quente para as centrais nucleares trabalharem em
segurança. França é um grande exportador de energia, pelo que estas reduções
têm reflexos imediatos no preço da electricidade. “As alterações climáticas estão
a mostrar que, para os preços, o calor extremo pode ser tão disruptivo como o
tempo frio no Inverno”, disse à Reuters o analista Alessandro Armenia, da
consultora Kpler.
O
calor extremo matou centenas de milhares de aves de capoeira em França, em
regiões onde o calor foi mais intenso, como a Bretanha e o Paus de la Loire.
Isto está a acontecer tanto nas criações de aves ao ar livre, como dentro dos
aviários, salientou à Reuters Yann Nedelec, dirigente do grupo que representa
os criadores de aves naquele país, Anvol. França é o terceiro maior produtor de
aves de capoeira na União Europeia, depois da Polónia e de Espanha.
“Agora
fomos surpreendidos, mas devemos esperar uma dinâmica semelhante no Verão,
porque as alterações climáticas são inegáveis”, acrescentou Alessandro Armenia.
A
Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicou, nesta quarta-feira, que é
provável que esta onda de calor na Europa se mantenha durante mais duas
semanas.
As condições de calor extremo acentuam os problemas da saúde das pessoas mais
frágeis: segundo o jornal catalão La Vanguardia, morreram já 108
pessoas nos últimos quatro dias em Espanha, a maior parte delas com mais de 65
anos. Terça-feira foi o dia mais mortífero, com 66 óbitos.
Pedro
e o Lobo em Portugal - Portugal ficou resguardado desta onda de calor por causa
da depressão vinda do mar. Mas, na semana passada, todos os portugueses com
telemóvel ou Internet foram bombardeados com notícias a dizer que vinham aí temperaturas
extraordinárias, de 45 graus ou mais ainda… Foi uma espécie de conto de Pedro
e o Lobo, em que o menino estava sempre a gritar que vinha lá um lobo e
não era verdade, e quando veio mesmo o lobo ninguém acreditou?
“Sim,
esse tipo de notícias é contraproducente. Mas o IPMA está de consciência
tranquila, não fomos nós que difundimos essas notícias, foram outros
comentadores na televisão, algumas páginas de meteorologia, no Facebook, que
não têm a mesma responsabilidade que nós temos”, esclareceu Jorge Ponte.
A
questão é que havia alguns modelos que, de facto, mostravam a possibilidade de
temperaturas muito elevadas em Portugal continental nesta semana.
“Identificámos isto no IPMA. A questão é que também havia outros cenários a dar
precisamente o oposto”, salienta o cientista.
“Uma
vez que havia muita incerteza na previsão a uma semana, o IPMA não podia
aparecer a dizer que vinha lá uma onda de calor em que se atingiriam 45 ou 50
graus, os valores noticiados, porque ainda estava muito longe de ser uma
certeza”, explicou Jorge Ponte. A incerteza tinha a ver com a posição da
depressão que vem do Atlântico. “Se ficasse mais afastada da Península Ibérica,
Portugal ficaria sob a influência desta massa de ar quente” que está a pôr a
Europa a suar.
O
ar frio húmido marítimo aproximou-se mais de Portugal do que se previa na
semana passada e como que empurrou o ar quente para outras paragens.
“É preciso perceber como é que os modelos meteorológicos funcionam e, para
analisar a longo prazo, com uma semana de antecedência, é preciso analisar um
conjunto de cenários possíveis que a atmosfera pode tomar, até haver mais
certeza, para evitar precisamente essa questão de Pedro e o Lobo”,
salientou Jorge Ponte.
Mais
duas semanas? – A tendência para a Europa, em princípio, é que esta massa de ar
quente se vá deslocando gradualmente para leste, e afecte mais os países da
Europa Central, como a Alemanha, Polónia, Áustria e ainda o Reino Unido,
explicou o meteorologista. A OMM, que fala na possibilidade de mais duas
semanas deste calor intenso, destaca também a região dos Balcãs.
Em
Portugal, esperam-se trovoadas durante a noite de quarta para quinta-feira,
sobretudo no Minho e Douro Litoral, potencialmente acompanhadas de granizo.
“Embora as trovoadas sejam um parâmetro difícil de prever, porque às vezes
surgem praticamente do nada, é difícil prever exactamente onde e quando
ocorrem”, ressalvou Jorge Ponte. Há possibilidade de chuva um pouco por todo o
território até sexta-feira.
Mas, para a semana, é esperada uma subida de temperatura — na verdade, a partir
deste fim-de-semana. “Gradualmente, não é logo muito calor, o fim-de-semana
ainda vai ter temperaturas relativamente normais para a época do ano. Mas é
expectável que as temperaturas venham a subir.”
Clara
Barata
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Fonte
(texto e imagem): PÚBLICO