Em entrevista à Renascença, o investigador em
alterações climáticas Pedro Matos Soares pede melhor comunicação com os
cidadãos, sobretudo os mais vulneráveis, sobre as estruturas a que podem
recorrer, no caso de uma vaga de frio e de uma onda de calor.
Com a
"cúpula de calor" ou o "anticlone em forma de ómega"
mais em cima de Portugal, a mortalidade decorrente da onda de calor de Junho
teria sido semelhante à que varreu a Europa Ocidental. A afirmação é de Pedro
Matos Soares, investigador principal no Instituto Dom Luiz, especialista em
Alterações Climáticas e coordenador científico do último Roteiro Nacional de
Adaptação 2100.
Em
entrevista à Renascença, este professor na Faculdade de Ciências da
Universidade de Lisboa alerta que não basta dizer às pessoas que há um local
para se refugiarem do calor e remete-las para informação na internet.
Em
entrevista à Renascença e ao Público, a directora-geral da Saúde acredita que
não vai haver um aumento muito significativo da mortalidade da onda de calor
mais recente e sublinha que “Portugal está abaixo do nível de risco de excesso
de mortalidade, enquanto Espanha, França e Reino Unido estão ligeiramente
acima”. Não há uma certa contradição com a mensagem mais preocupada que está a
trazer?
Rita Sá
Machado também fez uma declaração que apontava para a necessidade de esperar
ainda alguns dias, porque os efeitos das ondas de calor, em termos de excesso
de mortalidade, demoram algumas semanas. O agravamento do estado de mobilidade
cardiovascular e respiratório, muitas vezes não é síncrono com a onda de calor.
A directora-geral
da Saúde referiu-se a esse aspecto e os números do excesso de óbitos ainda são
provisórios. Desejo que tenhamos excessos de mortalidade baixos, mas a
severidade da onda de calor na Europa Ocidental nos países que referiu foi
diferente.
A onda de
calor em Portugal foi intensa, provocou este excesso de mortalidade e de
hospitalizações, mas não foi tão severa como nos outros países. Voltando ao
relatório do Copernicus, e para os recordes de temperatura de Junho associado a
essa onda de calor, vemos que eles se manifestaram precisamente mais em
Espanha, em França e em Inglaterra.
Em Portugal,
tivemos a entrada da depressão a noroeste que nos trouxe algum ar marítimo e
que fez com que a severidade das temperaturas se atenuasse. E tivemos o
anticiclone dos Açores a impor-se sobre o nosso território, principalmente na
zona litoral, onde vive a maior parte dos portugueses.
Temos
temperaturas no interior muito díspares face às temperaturas do litoral, mas
temos muito mais gente a viver no litoral. Por isso, sempre que temos este
contraste de temperaturas muito grandes no interior e no litoral, há
temperaturas mais amenas, com origem nos fluxos atmosféricos impostos pelo
anticiclone dos Açores, com o vento de norte mais marítimo, que aligeira e
mitiga os impactos sobre a saúde pública, felizmente para os portugueses.
Quando
comunicamos esta informação, é muito importante dizer que isto deve-se a este
mecanismo. Se tivéssemos a cúpula de calor mais sobre o nosso território, se
este anticiclone estivesse um pouco mais para sudoeste, poderíamos ter tido exactamente
a mesma severidade da onda de calor de Junho que tiveram os países que nomeei,
com maiores excessos de mortalidade.
O que é que
os modelos nos dizem sobre a continuação das ondas de calor?
Na onda de
calor de Junho, tivemos um anticiclone – que não era o anticiclone dos Açores,
é preciso dizer isso claramente – como um bloqueio em forma de ómega, que
esteve ali estacionário bastante tempo na Europa Ocidental, trazendo-nos
aquecimento. O grande aquecimento da superfície, não só pela compressão do ar
descendente, foi também ele realimentado – porque não temos nebulosidade – pela
chamada "retroacção positiva", devido ao facto de os solos estarem
quentes.
Temos então
uma dissecação e o aquecimento muito mais intenso da superfície atmosférica.
Por isso é que tivemos anomalias de 10 a 15 graus na onda de calor em relação
ao normal no sudoeste de França.
Este tipo de
configurações e a frequência das ondas de calor já estão a aumentar. Os modelos
climáticos de alta resolução globais mostram há muito tempo claros aumentos de
frequência de ondas de calor e da severidade, que tem a ver com a persistência
deste tipo de configurações atmosféricas. Este sinal de aumento das ondas de
calor e de severidade diz respeito a praticamente toda a Europa, não sendo uma
questão localizada.
No relatório
especial sobre os impactos da diferença do aumento de 1,5 para 2 graus no calor
extremo no mundo, em vez de termos algumas centenas de milhões de pessoas
sujeitas a ondas de calor, passamos para 1 a 2 mil milhões de pessoas. É uma
coisa mesmo desproporcionada.
Os
resultados dos modelos climáticos são muito fiáveis na caracterização deste
aumento de temperatura regional e destes extremos de temperatura de uma forma
omnipresente sobre o território dos nossos continentes e também da Europa.
Coordenou
cientificamente o Roteiro Nacional para a Adaptação até ao final do século. No
cenário intermédio, a partir de 2071, nesse documento aponta-se para a
probabilidade de seis ondas de calor por ano. Ora, de acordo com o Instituto
Português do Mar e Atmosfera, já se registaram exactamente seis ondas de calor
este ano. Isso significa que já estamos a viver o clima projectado para daqui a
40 anos?
Não. Temos
de ver se essas ondas de calor estão no mesmo espaço, nas mesmas estações, se
diz respeito a Trás-os-Montes, ao Alentejo ou a Lisboa.
Nas projecções
climáticas, estamos a falar de médias de 30 anos e não as podemos comparar com
o número anual. Podemos ter muitas ondas de calor este ano, mas para o ano
podemos ter menos.
Sempre que
falamos de clima, não podemos avaliar uma mudança sem olhar para a
variabilidade. Por exemplo, nos últimos anos, tínhamos tido anos de seca, com
muitos défices de precipitação e, por exemplo, no último inverno, tivemos uma
precipitação muitíssimo anómala.
Não é por
termos tido alguns anos de seca ou um ano de precipitação muito intensa que
vamos dizer que, afinal, nem há seca ou o clima é muito húmido. O que passa ao
nível de um ano, não passa de um sinal.
Existem
várias definições de onda de calor. No Roteiro Nacional para a Adaptação, que
liderei cientificamente, a definição de onda de calor é a da Organização
Mundial de Meteorologia, que são pelo menos cinco ou mais dias em que a
temperatura máxima está acima do percentil 90. Penso que o IPMA não segue esta
definição. Quando falamos em seis ondas de calor, temos que as registar sempre
no mesmo sítio.
Mas então
não existiram seis ondas de calor como as descritas pelo IPMA?
O que digo é
que existem várias correntes nos saberes e diferentes definições de onda de
calor. Existem duas, que são as mais preponderantes, que retractam o fenómeno
de maneira ligeiramente diferente, mas todas elas apontam para um aumento da frequência
e da severidade das ondas de calor. Ou seja, não se contradizem. Têm nuances de
interpretação e de impactos sobre a sociedade. Não fiz ainda as contas ao
número de ondas de calor deste ano.
De acordo
com o IPMA – consultando o seu site – considera que ocorre uma onda de calor
quando num intervalo de pelo menos seis dias consecutivos, a temperatura máxima
diária é superior em 5°C ao valor médio das temperaturas máximas diárias, no respectivo
mês, para um determinado período de referência.
Lá está, é
uma definição diferente daquela que foi utilizada no Roteiro. Ainda bem que
fala sobre essa questão, porque quando falamos das projecções de ondas de
calor, estamos a referir-nos ao "verão estendido".
O IPMA detectou
a primeira onda de calor em Fevereiro deste ano.
Quando temos
uma onda de calor em Fevereiro, pode ter impacto sobre os ecossistemas, mas
raramente tem impacto sobre a saúde pública. Uma onda de calor em Fevereiro é
muito menos severa para as pessoas do que uma onda de calor no fim da primavera
ou no verão.
Temos de
definir se estamos a falar de ondas de "verão estendido" – que
é o que eu defendo, porque o verão está em extensão, está a ser mais alargado –
ou se estamos a falar de ondas de calor de inverno, porque estas, do ponto de
vista da saúde pública, têm muito pouco ou nenhum impacto.
A legenda da
figura no Roteiro Nacional de Adaptação fala em ondas de calor por ano.
Não, são
ondas de calor por ano no "verão estendido". É uma grande diferença,
por isso, ainda bem que falou sobre isso. No "verão estendido",
estamos a falar de ondas de calor entre Março e Novembro.
Outra
questão relevante na adaptação às alterações climática são os chamados abrigos
ou refúgios climáticos. Mas, por exemplo em Lisboa, quando as temperaturas
subiram, fecharam os parques e zonas mais frescas.
Fecharam-se
os parques por causa do risco de incêndio. Infelizmente, no sul da Europa, no
Mediterrâneo, temos um grande problema. Quando temos ondas de calor, défice de
precipitação, e a vegetação muito seca, temos um perigo meteorológico de
incêndio muito grande.
Estamos a
gerir duas coisas, porventura, de uma maneira ainda pouco estruturada. Numa
onda de calor, os parques e os jardins são zonas em que as pessoas podem ter
temperaturas um pouco mais baixas. Mas diria que não são muito mais baixas. É
preciso também, às vezes, desmistificarmos um pouco essa questão.
As
temperaturas dos nossos parques são um pouco mais baixas numa onda de calor e
se tivermos uma noite tropical, com 30 graus na malha urbana, podemos ter dois
ou três graus a menos se formos para um jardim. Mas não é muito mais, não é
isso que resolve o problema, não vamos deixar ter uma noite tropical num
parque. O problema é que isso está caracterizado de uma forma muito
insuficiente.
O que me
parece é que a população mais vulnerável, que são os mais idosos, normalmente
não têm a literacia digital e o acesso a essa informação para se poderem
proteger
Estamos a
agir mal no domínio dos refúgios climáticos?
Somos reactivos.
Todas as iniciativas que possam salvaguardar a nossa população são de louvar.
No caso de Lisboa, foram abertos dois pavilhões e algumas estações de metro
durante a noite, para os sem-abrigo se refugiarem. Houve um conjunto de
diligências da Direcção-Geral da Saúde, e das estruturas municipais e
freguesias para que pudessem albergar pessoas, e havia um portal, até, com essa
informação.
O que me
parece é que a população mais vulnerável, que são os mais idosos, normalmente
não têm a literacia digital e o acesso a essa informação para se poderem
proteger.
Preparar o
inverno no verão?
É durante o
inverno que, por exemplo sobre as ondas de calor, devemos ter iniciativas
claras de localização dos refúgios climáticos, para as pessoas perceberem o que
é. E comunicar para a população vulnerável, como os sem-abrigo, toda essa
informação estruturante no município, durante todo ano, porque as pessoas
também morrem de frio. Dizer que as pessoas devem ir para um local e que a
informação está na internet, não resolve os problemas.
Temos de ter
uma estrutura municipal que comunique com o cidadão comum e com muita
incidência sobre as pessoas mais vulneráveis, sobre as estruturas municipais a
que as pessoas podem recorrer, no caso de uma vaga de frio e numa uma onda de
calor.
Muitos dos
nossos idosos não vão à internet, têm uma literacia digital baixa. Há que
tentar chegar às pessoas mais vulneráveis de uma maneira mais consequente e não
em cima das incidências dos extremos. Tem de ser uma rede estruturada de
refúgios climáticos, que as pessoas saibam que existem, sempre que existe um
problema de temperatura extrema, a que possam recorrer para se protegerem e
saberem quais são os horários de funcionamento, bibliotecas, etc.
José Pedro
Frazão
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Fonte:
Renascença