Dois autarcas do
concelho de Leiria manifestaram à agência Lusa preocupação pela existência de
idosos impossibilitados de pedir socorro em caso de necessidade devido ao
atraso na reposição das comunicações fixas na sequência do mau tempo. “O que me
preocupa nesses casos é que algumas pessoas de idade que não têm telemóvel não
conseguem contactar o 112 [número de emergência]”, afirmou o presidente da
Junta de Freguesia de Souto da Carpalhosa, Sandro Ferreira, referindo haver
ainda muitos habitantes sem reposição do serviço de telefone fixo, praticamente
três meses depois de a depressão Kristin ter afectado esta freguesia.
Segundo Sandro
Ferreira, esta “é uma situação que, nos dias de hoje, não devia acontecer”. O
autarca adiantou que, ao nível da rede móvel, “de vez em quando” não há rede e
“está fraca em várias zonas da freguesia”. “Temos algumas zonas com Internet,
mas ainda temos várias zonas, várias casas e várias empresas sem Internet”,
salientou o presidente da Junta, esclarecendo que “é um misto” as queixas que
recebe.
Em maior número
estão os apoios à reconstrução das casas pela Comissão de Coordenação e
Desenvolvimento Regional do Centro, “os seguros que não dão resposta” e as
telecomunicações, especificou. Sandro Ferreira explicou que a junta tem uma
equipa que “vai visitar as pessoas”, assumindo que a “grande preocupação”
prende-se agora com a “parte psicológica” daquelas.
A presidente da
União de Freguesias de Colmeias e Memória, Patrícia Marcelino, comungou das
preocupações de Sandro Ferreira. “Não têm [possibilidade de ligar para o 112]
de forma alguma. Se acontecer alguma situação, elas veem-se sozinhas (…). Com
estas situações das pessoas idosas e sem alguém ao lado delas, sem terem uma
forma de comunicar, pode acontecer o pior”, alertou Patrícia Marcelino.
Explicando que a
união de freguesias faz o trabalho de ir ao encontro das pessoas em situação
mais vulnerável, a autarca reconheceu que não é um trabalho diário, para
sublinhar que seria diferente haver uma forma de comunicar. “Queremos o
bem-estar de toda a população da freguesia e não havendo comunicações
preocupa-nos, porque não conseguimos chegar a todo o lado”, assumiu.
Numa união de
freguesias com uma “população bastante envelhecida” e um território “muito
rural”, a autarca esclareceu haver “casas que estão bastante distantes”. Sobre
as comunicações na freguesia, Patrícia Marcelino resumiu que “estão
deficientes” e “ainda estão muito longe de chegar à normalidade”.
Na freguesia de
Bidoeira de Cima, também no concelho de Leiria, as queixas sucedem-se. Um
cidadão relatou que a mãe, de 89 anos, autónoma, esteve, desde 28 de Janeiro,
quando a depressão Kristin atingiu o território, sem telefone fixo e não tem
televisão. A família acabou por comprar um telemóvel para a idosa e cancelou o
serviço fixo. “A maior parte dos dias não tem rede [de telemóvel], umas vezes
tem, outras vezes não”, adiantou o familiar, ressalvando que a idosa, embora
viva sozinha, tem apoio perto de casa.
Pelo menos 19
pessoas morreram em Portugal desde 28 de Janeiro na sequência da passagem das
depressões Kristin, Leonardo e Marta, que fizeram também várias centenas de
feridos, desalojados e deslocados. Mais de metade das mortes foram registadas
em trabalhos de recuperação. Os temporais, que atingiram o território
continental durante cerca de três semanas, provocaram a destruição total ou
parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de
estruturas, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, com
prejuízos de milhares de milhões de euros. As regiões Centro, Lisboa e Vale do
Tejo e Alentejo foram as mais afectadas.
* * * * * * * *
* * *
Fonte:
Observador