O relatório Stern instiga à acção. Advoga que a melhor política é agir, na medida em que uma acção presente tem custos inferiores a qualquer acção futura.
Arrependei-vos que o fim está próximo. Eis uma prédica que esperaríamos ouvir da boca de um padre ou de um catastrofista, nunca de um economista que se quer sóbrio. Esta foi, porém, a mensagem de Sir Nicholas Stern, autor do estudo encomendado pelo governo britânico sobre as alterações climáticas. O tom até pode ser comedido, mas a conclusão – agir agora antes que seja tarde de mais – não o é.
Muitos economistas, empresários e políticos, receando os custos de eventuais e possivelmente desnecessárias iniciativas, optaram por esperar, ver e, se necessário, adaptar-se. O relatório Stern visa exactamente o contrário, isto é, instiga à acção. Advoga que a melhor política é agir, na medida em que uma acção presente tem custos inferiores a qualquer acção futura. Mas até que ponto o relatório convence? O suficiente, direi eu.
As consequências do ‘laissez faire’ são, pois, o ponto de partida. Desde a revolução industrial que o volume de gases com efeito de estufa lançados para a atmosfera cresceu o equivalente a 280 partes por milhão (ppm) de dióxido de carbono para 430ppm. A manter-se a actual tendência, esse volume poderá muito bem triplicar até ao final do século. Os gases com efeito de estufa retêm o calor, razão porque a vida é abundante na Terra e porque se registou um aumento da temperatura do ar de 0,7ºC desde 1900.
Ora, se as previsões dos cientistas se concretizarem e as temperaturas subirem 5ºC, os efeitos serão, no mínimo, adversos: da rentabilidade das colheitas à subida significativa dos níveis do mar, que afectará os países em desenvolvimento e as cidades costeiras, entre as quais Londres, Xangai e Nova Iorque; passando pela redução drástica da água potável, que lesará mais de mil milhões de pessoas; pela extinção em massa de diferentes espécies; pelo aumento considerável do número de tempestades e por grandes mudanças no sistema climático.
Mas teria um estudo “proto-Stern”, realizado há 12.000 anos, evitado o drama que ditou o fim da era glaciar? Provavelmente não. O calor pode ser – e foi-o nesse caso – extremamente benéfico. O mesmo não se pode dizer, contudo, de um aquecimento extremamente rápido. Daí que a inacção no combate às alterações climáticas possa vir a custar à economia mundial até 20% do PIB - um custo apenas comparável “ao de duas guerras mundiais ou da Grande Depressão de 1929”, segundo o relatório citado.
Pior, neste caso, “seria muito difícil, senão impossível, inverter a tendência actual”. Com a agravante de o ónus recair sobre os mais pobres. O senso comum dá-nos a resposta: agir enquanto os custos são comportáveis. Mas a questão que verdadeiramente se levanta é saber quanto custarão as acções recomendadas.
O estudo é encorajador, pois estima que basta 1% do PIB mundial, isto é, escassos meses de crescimento económico. Todavia, até neste ponto as dúvidas subsistem. A certeza é só uma: quanto mais adiarmos, maiores serão os perigos e os custos de prevenção. Que deve ser feito?
Parte da resposta é: adaptarmo-nos. Parte porque sabemos que as temperaturas vão subir, dadas as concentrações de gases com efeito de estufa já existentes na atmosfera. Minorar o problema é igualmente fundamental. Felizmente, muitas das tecnologias necessárias para reduzir as emissões por unidade de produção já existem. Mas um aspecto que ressalta neste estudo é não haver uma solução dominante, antes uma combinação de tecnologias. Entre estas destacam-se o aumento da eficiência, a captura e armazenamento de carbono, a energia nuclear, o uso de biocombustíveis e o consumo doméstico de energia. A isto, parece-me, acresce a florestação.
E como se podem implementar estas mudanças? Reavaliando o regime de comércio das licenças de emissão de gases, investindo em novas tecnologias e reforçando a regulamentação da eficiência energética. Perante isto, outra questão se coloca: como irá a Humanidade reagir ao “maior fracasso de sempre do mercado”? E até que ponto será capaz de manter uma cooperação duradoura e em larga escala? Será de crer que todos os países do mundo - e respectivos pontos de vista e interesses - se vão unir nesta causa?
Até agora, a resposta tem sido “não”. Quem sabe o relatório Stern fará a diferença, ao apelar à prevenção contra as alterações climáticas. Ou quem sabe cairá, como tantos outros, no esquecimento.
Martin Wolf, Editor associado do “Financial Times”
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Fonte: Diário Económico
Arrependei-vos que o fim está próximo. Eis uma prédica que esperaríamos ouvir da boca de um padre ou de um catastrofista, nunca de um economista que se quer sóbrio. Esta foi, porém, a mensagem de Sir Nicholas Stern, autor do estudo encomendado pelo governo britânico sobre as alterações climáticas. O tom até pode ser comedido, mas a conclusão – agir agora antes que seja tarde de mais – não o é.
Muitos economistas, empresários e políticos, receando os custos de eventuais e possivelmente desnecessárias iniciativas, optaram por esperar, ver e, se necessário, adaptar-se. O relatório Stern visa exactamente o contrário, isto é, instiga à acção. Advoga que a melhor política é agir, na medida em que uma acção presente tem custos inferiores a qualquer acção futura. Mas até que ponto o relatório convence? O suficiente, direi eu.
As consequências do ‘laissez faire’ são, pois, o ponto de partida. Desde a revolução industrial que o volume de gases com efeito de estufa lançados para a atmosfera cresceu o equivalente a 280 partes por milhão (ppm) de dióxido de carbono para 430ppm. A manter-se a actual tendência, esse volume poderá muito bem triplicar até ao final do século. Os gases com efeito de estufa retêm o calor, razão porque a vida é abundante na Terra e porque se registou um aumento da temperatura do ar de 0,7ºC desde 1900.
Ora, se as previsões dos cientistas se concretizarem e as temperaturas subirem 5ºC, os efeitos serão, no mínimo, adversos: da rentabilidade das colheitas à subida significativa dos níveis do mar, que afectará os países em desenvolvimento e as cidades costeiras, entre as quais Londres, Xangai e Nova Iorque; passando pela redução drástica da água potável, que lesará mais de mil milhões de pessoas; pela extinção em massa de diferentes espécies; pelo aumento considerável do número de tempestades e por grandes mudanças no sistema climático.
Mas teria um estudo “proto-Stern”, realizado há 12.000 anos, evitado o drama que ditou o fim da era glaciar? Provavelmente não. O calor pode ser – e foi-o nesse caso – extremamente benéfico. O mesmo não se pode dizer, contudo, de um aquecimento extremamente rápido. Daí que a inacção no combate às alterações climáticas possa vir a custar à economia mundial até 20% do PIB - um custo apenas comparável “ao de duas guerras mundiais ou da Grande Depressão de 1929”, segundo o relatório citado.
Pior, neste caso, “seria muito difícil, senão impossível, inverter a tendência actual”. Com a agravante de o ónus recair sobre os mais pobres. O senso comum dá-nos a resposta: agir enquanto os custos são comportáveis. Mas a questão que verdadeiramente se levanta é saber quanto custarão as acções recomendadas.
O estudo é encorajador, pois estima que basta 1% do PIB mundial, isto é, escassos meses de crescimento económico. Todavia, até neste ponto as dúvidas subsistem. A certeza é só uma: quanto mais adiarmos, maiores serão os perigos e os custos de prevenção. Que deve ser feito?
Parte da resposta é: adaptarmo-nos. Parte porque sabemos que as temperaturas vão subir, dadas as concentrações de gases com efeito de estufa já existentes na atmosfera. Minorar o problema é igualmente fundamental. Felizmente, muitas das tecnologias necessárias para reduzir as emissões por unidade de produção já existem. Mas um aspecto que ressalta neste estudo é não haver uma solução dominante, antes uma combinação de tecnologias. Entre estas destacam-se o aumento da eficiência, a captura e armazenamento de carbono, a energia nuclear, o uso de biocombustíveis e o consumo doméstico de energia. A isto, parece-me, acresce a florestação.
E como se podem implementar estas mudanças? Reavaliando o regime de comércio das licenças de emissão de gases, investindo em novas tecnologias e reforçando a regulamentação da eficiência energética. Perante isto, outra questão se coloca: como irá a Humanidade reagir ao “maior fracasso de sempre do mercado”? E até que ponto será capaz de manter uma cooperação duradoura e em larga escala? Será de crer que todos os países do mundo - e respectivos pontos de vista e interesses - se vão unir nesta causa?
Até agora, a resposta tem sido “não”. Quem sabe o relatório Stern fará a diferença, ao apelar à prevenção contra as alterações climáticas. Ou quem sabe cairá, como tantos outros, no esquecimento.
Martin Wolf, Editor associado do “Financial Times”
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Fonte: Diário Económico
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