domingo, 25 de março de 2007

930. Canadá dá uma bofetada em Kyoto

TORONTO (Terramérica) – Para surpresa da maioria dos canadenses e da comunidade internacional, o Canadá renega seus compromissos internacionais sob o Protocolo de Kyoto (1997), o que pode enfraquecer um acordo para o controle da alteração climática posterior a 2012. O primeiro-ministro canadense, Stephen Harper, eleito no início do ano passado, e sua ministra de Meio Ambiente, Rona Ambrose, deixaram de lado os compromissos do país de reduzir as suas emissões de gases causadores do efeito estufa por considerá-los impossíveis de serem cumpridos.
Além disso, também cancelaram um compromisso de 5 milhões de dólares para ajudar os países menos desenvolvidos a se adaptarem aos impactos da mudança climática e retiraram a participação e o financiamento do Canadá do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) estabelecido pelo Protocolo. “Isso é totalmente irresponsável. É uma bofetada nos habitantes de pequenos Estados insulares e do povo inuit, do norte”, disse Enele Sopoaga, delegado permanente de Tuvalu junto à Organização das Nações Unidas. O seu país sofre inundações devido à subida do nível do mar.
“Estou muito frustrado pelos discursos duplos das nações industrializadas. O Canadá critica outros países por suas políticas de direitos humanos e brinca com as vidas dos ilhéus e dos inuit”, disse Sopoaga ao Terramérica. Numa medida incomum, Achim Steiner, director-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, repreendeu o Canadá nos meios de comunicação. Apelando ao sector empresarial do país, disse que o afastamento de Kyoto prejudica economicamente o Canadá, que ficaria fora do sistema de comércio de emissões, que pode valer 100 mil milhões de dólares até 2016.
Ironicamente, o Canadá foi campeão do Protocolo de Kyoto, que estabelece reduções, até 2012, das emissões de gases que provocam o efeito estufa, responsáveis pela mudança climática. Por este acordo, 35 nações industrializadas (incluído o Canadá) estão obrigadas a reduzir em 5,2% suas emissões desses gases, em relação aos níveis de 1990, entre 2008 e 2012. Porém, as emissões canadenses aumentaram 30% desde 1990, principalmente devido ao auge dos sectores de petróleo e gás. Nesse mesmo período, as emissões dos Estados Unidos aumentaram 16%.
Na XII Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, realizada entre 1 e 17 de Novembro em Nairóbi, a ministra Ambrose culpou publicamente o governo anterior por sua falta de acção em matéria de mudança climática. Ambrose foi muito criticada por essa declaração. Sopoaga disse que isso enfraquece a base para a cooperação internacional e que não é correcto “um grupo de covardes” chegar ao poder e dizer que não manterá “os compromissos internacionais assumidos por um governo anterior”.
No Canadá, os cidadãos apoiam amplamente o Protocolo de Kyoto.Segundo pesquisa feita entre 10 e 16 de Novembro, pelo instituto Ipsos Reid, a mudança climática preocupa mais os canadenses do que o desemprego, a economia ou os cuidados com a saúde. Este tema “poderia fazer cair o governo, que não está ouvindo o povo”, disse ao Terramérica Johanna Whitmore, do não-governamental Instituto Pembina. A maioria dos canadenses não votou em Harper. O sistema multipartidário do Canadá permitiu que o Partido Conservador ganhasse com apenas 36% do voto popular. Assim, precisa da cooperação de, pelo menos, outro partido para permanecer no poder.
O Canadá está enriquecendo graças ao petróleo, o carvão e o gás, responsáveis por boa parte dos aumentos das emissões, e os governos, inclusive o actual, são reticentes em fazer algo que possa desacelerar o auge do sector energético. Como uma alternativa ao Protocolo de Kyoto, o “plano climático feito no Canadá”, anunciado no mês passado pelo governo de Harper, estabelece como objectivo a redução das emissões de gases estufa entre 45% e 65%, em relação a 2003, até 2050. “Semelhante meta a longo prazo permite ao actual governo adiar indefinidamente acções sobre mudança climática”, afirmou Whitmore.
Infelizmente, o Protocolo de Kyoto não prevê nenhuma sanção financeira para os infractores. Tudo o que acontece é que os países têm de compensar seu deficit mais uma sanção adicional de 1,3% no próximo compromisso de reduções para o período 2013/2018. De facto, o governo de Harper reduziu o financiamento de programas ambientais criados para diminuir as emissões desses gases pelo Canadá. “Por suas acções, o governo canadense demonstra não acreditar que a mudança climática seja um assunto real”, disse Whitmore.
O povo inuit, do extremo norte do Canadá, sabe que é um problema real. “Aqui vemos sinais a cada dia”, afirmou D. Smith, presidente da Conferência Circumpolar Inuit de Inuvik, pequeno povoado 200 quilómetros ao norte do Círculo Árctico. “O Inverno começa mais tarde e termina mais cedo, há mudanças no mar e o rio congela; temos mais neve, e isso afecta toda a fauna e a flora”, disse Smith ao Terramérica.
Os cientistas também documentaram muitos impactos da mudança climática. Nem Harper nem Ambrose visitaram o extremo norte para vê-los por si próprios, acrescentou. “Creio muito fortemente que os canadenses querem uma acção mais agressiva com relação a esse tema”, ressaltou Smith.
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Fonte:
EcoAgência

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