domingo, 9 de março de 2008

1613. Cientistas traçam pontos sem volta da Amazónia

Não é preciso empunhar motosserras ou derrubar árvores para colocar em risco o futuro da Amazónia. Mesmo que o desmatamento fosse interrompido hoje e toda a mata derrubada, replantada amanhã, o excesso de dióxido de carbono lançado na atmosfera pelo mundo industrial ainda ameaça transformar a floresta tropical numa savana.
O alerta foi dado pelo especialista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), numa palestra no Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington, organizada em parceria com a Agência Estado. Estudos conduzidos por Nobre e colegas brasileiros mostram que a Amazónia é forte, mas não invencível.
Com o agravamento do aquecimento global, caso a temperatura média do planeta suba mais do que 2,5°C, é possível que grande parte das florestas da Amazónia oriental seja reduzida a formações de savana, mais parecidas com o cerrado, por causa da redução de chuvas. "Acima de 3°C, o risco de todo o centro-leste da Amazónia tornar-se em savana é muito grande", avisa Nobre. Esse seria o chamado "tipping point", ou ponto sem volta, a partir do qual a transformação da floresta se tornaria irreversível.
Quando esse ponto será atingido é difícil prever. Vai depender da maneira como o mundo lidar com as emissões de gases do efeito estufa – especialmente o dióxido de carbono (CO2) – nos próximos anos. Caso nada seja feito para reverter o aumento das emissões, segundo Nobre, os modelos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) prevêem um aumento de 4°C a 7°C para a Amazónia até 2100 - ambos acima do limite de 3°C. É uma ameaça que escapa ao controle do Brasil, já que o país não tem como resolver o problema do aquecimento global sozinho.
Outro "tipping point" - esse sim, sob responsabilidade directa do País - é o desmatamento. Aconteça o que acontecer com o termómetro mundial, a redução de 40% da cobertura florestal no leste da Amazónia poderá deflagrar alterações climáticas severas na região, com redução de chuvas e aumento da temperatura local. O resultado, no fim, é o mesmo: savanização, acompanhada de enormes perdas de biodiversidade e serviços ambientais. Quando essa linha sem volta será cruzada também é difícil prever; assim como no caso das emissões de dióxido de carbono, a velocidade da mudança vai depender da postura do Brasil com relação ao desmatamento nos próximos anos.
Até agora, andamos metade do caminho: cerca de 20% da Amazónia oriental já foi desmatada, segundo Nobre. O pior é que ambos os processos - aquecimento e desmatamento - estão a ocorrer em simultaneamente. Nobre ainda não tem modelos integrados com os dois factores. Esse estudo está sendo feito agora. Mas não há dúvida de que o cenário nesse caso será ainda pior, com um processo empurrando o outro cada vez mais rapidamente em direcção ao abismo.
E, para piorar mais um pouco, há um terceiro "tipping point" que ainda não foi considerado: o fogo. Com o aumento da temperatura e a redução de chuvas, a floresta fica mais seca e mais vulnerável a incêndios, que enfraquecem ainda mais a sua capacidade de resistir às mudanças climáticas e ao desmatamento. "Os sistemas ecológicos estão adaptados a mudanças sazonais, para mais e para menos, mas não estão adaptados a mudanças rápidas numa só direcção, como estamos fazendo agora", afirma Nobre.
A parte oeste da Amazónia é mais resistente, segundo ele, por causa da maior abundância de chuvas, trazida por frentes oceânicas que se chocam com os Andes.
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Fonte: JC On-line

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