sábado, 15 de março de 2008

1626. MADEIRA: Governo não recua na retirada do gado

Um abaixo-assinado está a circular por alguns estabelecimentos comerciais, em vários pontos da ilha, a pedir o regresso do gado às serras madeirenses. O documento, segundo fontes contactadas pelo JM, tem como autores pessoas ligadas a criadores de gado de Santo António. No entanto, o advogado da Associação de Criadores de Gado de Santo António, contactado pelo JM, disse ter conhecimento da intenção de promover um abaixo assinado, mas frisa que não foi ele que o promoveu ou que o recomendou.
Raimundo Quintal, ex-vereador da Câmara Municipal do Funchal, não entende o porquê do abaixo-assinado, tantos anos depois da retirada do gado das serras. «Seria voltar atrás, com prejuízos graves para a Região e para os madeirenses» — defende o ecologista. Para Raimundo Quintal, a prova mais concreta do acerto da decisão é a regeneração que se vem assistindo nas nossas serras, «mesmo nas zonas onde não se vêm fazendo plantações».
«Com as alterações climáticas e com o aumento dos períodos de seca, tão importante quanto o pão para a boca, é termos zonas reflorestadas, é termos água» — salienta. O nosso interlocutor diz estar convencido de que a maioria da população madeirense já se apercebeu da importância da regeneração das florestas madeirenses, pelo que não vai cair no logro de aprovar o retorno do gado às serras.
Frisando que todas as pessoas têm o direito à opinião, Raimundo Quintal reitera que não se justifica gado na serra. Antes pelo contrário, advoga que é preciso retirar o gado bovino do Paul da Serra. E aponta para o caso do Fanal, onde a área vedada está a regenerar-se e a área ao descoberto tem dificuldades em fazê-lo. Para aquele especialista, a questão tem que se pôr entre ter gado na serra e ter, no futuro, água, as serras verdes e zonas de contenção a inundações e escorregamentos.
Raimundo Quintal lembra que a Associação dos Amigos do Parque Ecológico planta hoje 500 plantas, das quais 300 cedidas pela Direcção Regional das Florestas. As actividades terão lugar junto ao Pico do Arieiro e no Cabeço do Lenho.
Por seu turno, Rocha da Silva questiona acerca de quem tem interesse em elaborar tal abaixo-assinado e quem é que o mesmo vai servir. «Não sei porquê é que as pessoas vão, porventura, assinar tal documento e se já se aperceberam daquilo que estão a reivindicar». O director regional das Florestas diz ainda ser preciso que as pessoas párem para pensar «em quem é que vai colocar o gado na serra: os subscritores ou apenas alguns indivíduos?». «Será que têm consciência de que poderão apenas beneficiar algumas pessoas, que perderam, em sede de justiça, os seus recursos?».
O governante diz não entender o porquê desta situação, numa altura em que todos os madeirenses entenderam o porquê da retirada do gado e dos seus benefícios, «que estão à vista de todos, com a regeneração das nossas serras e com a salvaguarda dos nossos recursos aquíferos». «Depois, nos dias de hoje, não passa pela cabeça de alguém que as ovelhas possam ser um factor de desenvolvimento ou uma actividade rentável» — complementou.
Rocha da Silva diz que é tudo uma questão de bom-senso e que o abaixo-assinado é, no mínimo, caricato, «mesmo esquisito». Em termos de futuro, a única aposta só pode passar pela defesa dos nossos recursos naturais, por uma aposta na rearborização.
A erradicação de suínos, ovinos e caprinos soltos pelas serras, quer através da entrega voluntária, quer através das capturas, implicou a retirada de cerca de 50.000 animais, de uma área total de aproximadamente 51.400 hectares. Durante os anos de 1983 a 1987, procedeu-se à captura dos porcos que se encontravam soltos pelas serras. No entanto, devido à dificuldade em os capturar, grande parte desta captura foi feita com recurso ao abate, tendo deste modo sido capturados cerca de 5.000 porcos.
Em função de situações de incumprimento, entre 1983 a 2003 procedeu-se à captura média de 900 ovelhas e cabras/ano. Também aqui a captura revelou-se complicada, pelo que, muitas vezes, recorreu-se ao abate, tendo sido capturados cerca de 19.000 animais.
Entre 1994 e 2003, procedeu-se a acções de retirada voluntária de ovelhas e cabras, com o acordo dos seus proprietários, tendo estes sido indemnizados pela perda de rendimento potencial dos animais. As indemnizações foram suportadas pelo Orçamento Regional e contaram com apoios da UE. Em 2003 foi concluída a retirada voluntária de ovinos e caprinos, beneficiando 558 proprietários de animais e tendo sido retirados 26.338 animais, de aproximadamente 16.975 hectares, em 27 zonas na Madeira e Porto Santo. Esta medida indemnizou cada animal em 187 euros (37.500 escudos) e envolveu um total de 4.676.529,27 euros (937.560 contos).
Ao valor de 187,00 euros por animal, ainda se pode acrescer o valor médio de 63,00 euros, que é relativo ao benefício que cada proprietário pôde usufruir por ficar com a carcaça do animal, pois poderia vendê-la ou autoconsumi-la.
Miguel Angelo
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Fonte (Texto e imagem): Jornal da Madeira

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