Casas ruíram na praia da Fuzeta, no concelho de Tavira. Na dos Três Irmãos e dos Caneiros, entre Lagoa e Portimão, os bares e restaurantes ficaram com a estacaria à vista. De Lagos a Sagres os areais foram substituídos por pedras. Pescadores da faina artesanal quase não conseguiram ir ao mar.Estes alguns dos efeitos de 21 dias seguidos, em Fevereiro, com vento e mar de Sueste – ou Levante, como é mais conhecido – a assolar o Algarve. Três semanas que coincidiram com as maiores marés do mês, dando ao fenómeno uma intensidade que, para muitos, foi “a maior de que há memória”.
João Alveirinho Dias é um dos maiores especialistas em erosão costeira. Professor associado na Faculdade de Ciências Mar e Ambiente da Universidade do Algarve, há anos que estuda o fenómeno na região. “Não é um fenómeno novo mas não é muito frequente que seja tão persistente”, admite. Quanto às causas, “pode suspeitar-se que seja uma consequência das alterações climáticas mas ainda não sabemos”, continua Alveirinho Dias. “Se daqui a três, quatro ou cinco anos se repetir pode dizer-se que é, senão foi um acontecimento isolado que se repete de 15 em 15 ou 20 em 20 anos”, explica. A verdade é que, reconhece o professor, “o mar está mais alto, o que se nota mesmo comparando com a década de 80” do século passado. “A subida anda à volta do 1,7 mm por ano, numa década é 1,7 cm, e por aí fora, e esta variação nota-se em acontecimentos de alta energia como o que aconteceu”, frisa.
O proprietário de um dos bares-restaurantes na Praia Três Irmãos, no Alvor, avisado pelo que tinha acontecido, há 18 anos, quando o mar de Sueste levou o estabelecimento do pai, precisamente na mesma praia, colocou estacas de setemetros de comprimento a sustentar a construção. Foi o que salvou a estrutura. “No areal em frente ao apoio tinha quatro fileiras de toldos e depois ainda estavam as motos de água”, descreve, ao lado das estacas à mostra e com o cuidado necessário para não molhar os pés com as ondas que agora lambem as madeiras.
A areia que as cobria foi com o mar, que agora ocupa o que anteriormente era praia. “O que o Sueste leva numa semana o Sudoeste demora dois ou três meses a repor”, diz, com o conhecimento de 45 anos de vida passados a ver as ondas do Alvor. Agora, à semelhança dos proprietários de outros apoios de praia da costa algarvia, quer uma solução. A maioria pretende uma protecção fixa, como um pontão que trave a corrente de Sudeste, mas admitem outras hipóteses.
“Um quebra-mar na zona nascente resolvia o problema”, diz o proprietário, “mas já seria bom se recolocassem a areia na praia”. Esta última solução tem sido a adoptada em casos semelhantes e, mais uma vez, a recolocação de areia deverá ser a medida a tomar. “Nos anos 60 e 70 era habitual optar-se por estruturas fixas”, recorda Alveirinho Dias, “actualmente, com a aceitação de que o litoral é dinâmico, adoptam-se intervenções que permitem que a natureza funcione”, acrescenta.
Na Praia do Martinhal, próximo de Sagres, as ondas levaram a areia mas deixaram lixo a substitui-la. “Há de tudo pela praia”, lamenta um dos apoios da praia, “há canas, plásticos, gaivotas e até tartarugas, tudo trazido pelo mar”. Agora é esperar que “a câmara venha limpar o areal com máquinas, porque é a única maneira”, defende. Tanto a autarquia de Vila do Bispo, a que pertence o Martinhal, como a de Portimão, que abrange a Praia dos Três Irmãos, já se disponibilizaram tanto para limpar as praias como para colaborar na recolocação de areia. No caso da Câmara de Portimão, até já foram feitos trabalhos de reabastecimento da praia.
Habituados a viver com este problema estão os pescadores. Em particular os da faina artesanal. Durante as três semanas de Levante resignaram-se a ficar em terra, porque a corrente não os deixava sair as barras. E com os prejuízos inerentes. “Não há nada a fazer, não se pode sair a barra”, lamenta um pescador de 42 anos de idade e mais de 20 de pesca. No porto da Baleeira, em Sagres, ao lado do ‘Graças a Deus’, o barco de 5,80m de comprimento, prepara tudo para o primeiro dia de pesca em semanas. “Aproveitei estes dias para pintar o fundo”, explica, “nestas semanas não ganhei dinheiro nenhum”.
Habituados a viver com este problema estão os pescadores. Em particular os da faina artesanal. Durante as três semanas de Levante resignaram-se a ficar em terra, porque a corrente não os deixava sair as barras. E com os prejuízos inerentes. “Não há nada a fazer, não se pode sair a barra”, lamenta um pescador de 42 anos de idade e mais de 20 de pesca. No porto da Baleeira, em Sagres, ao lado do ‘Graças a Deus’, o barco de 5,80m de comprimento, prepara tudo para o primeiro dia de pesca em semanas. “Aproveitei estes dias para pintar o fundo”, explica, “nestas semanas não ganhei dinheiro nenhum”.
Outro pescador, no porto de pesca do Alvor, viveu a mesma experiência. Com 82 anos de idade e a pescar “desde antes dos 10”, assegura que nunca viu “um ano tão desgraçado como este”. Pelo Levante mas também pela falta de peixe nas águas. “Já duas vezes que vou e nem tão-pouco ganho para a gasolina”, conta sobre os últimos dias em que foi à pesca, “desgraçaram isto tudo, ficou o mar todo queimado”. Queixas dirigidas para os barcos da pesca industrial, que apanham grandes quantidades de pescado e não deixam de trabalhar seja pela direcção ou força das correntes, seja pelo vento. Mas esse já é um outro problema que nada tem a ver com a natureza.
Os estragos provocados pelo Levante no Algarve são provocados por ser mais comum a costa sul de Portugal ser assolada por correntes do Sudoeste. “Quando o mar vem do Sudeste, vem em perpendicular em relação à costa e por isso faz mais danos”, explica Alveirinho Dias. O professor refere mesmo que “a energia das ondas de Sudoeste, oriundas do oceano, até é, normalmente, mais forte, os grandes temporais vêm daí”. Mas por serem mais comuns não causam tantos estragos.
Por oposição às correntes do Sudeste, que levam a areia, as do Sudoeste repõem. A esperança para os proprietários dos apoios de praia é que, além das máquinas das autarquias, também a natureza cumpra o seu papel habitual e devolva aquilo que agora levou. “Há anos que é assim, agora é preciso esperar”, diz, confiante, Mário Dias.
No entanto, e de acordo com as últimas previsões, para esta semana é esperado que o Algarve seja atingido novamente por mar de Sudeste. Facto que a confirmar-se poderá deixar as praias ainda mais despidas. “Ninguém estava à espera disto”, assegura um senhor que trabalha no apoio de praia do Martinhal, “já tinha acontecido noutras ocasiões mas nunca com esta força”. O extenso areal da praia ficou reduzido a menos de metade e em algumas zonas só há mesmo pedras. “A areia foi toda para o mar, agora é possível andar mais de 20 metros para dentro de água e sempre com pé”, refere. Mas este não é o único problema na praia.
Com moradias a serem construídas mesmo ao lado da praia, regularmente são vistas pessoas a ir buscar areia às dunas, “provavelmente para usar na construção das casas”, adivinha Mário Dias. “O problema foi que o Sueste, desta vez, coincidiu com as marés grandes da Lua Cheia e da Lua Nova”, sentencia um proprietário de apoio da Praia dos Três Irmãos, no Alvor.
Preocupado com o que pode acontecer ao estabelecimento, que ficou com a estacaria toda descoberta, o proprietário agora teme a semana que se avizinha. “As previsões apontam para que venha uma nova maré de Levante”, explica, “e mais uma vez vai coincidir com a Lua Nova”. A Câmara já colocou areia por debaixo do apoio de praia, para lhe dar mais sustentabilidade, e o proprietário espera que os trabalhos continuem para enfrentar a nova maré.
João Mira Godinho / J.S. / C.P
Fotografia de Sandra S. Santos
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Fonte: Jornal CORREIO DA MANHÃ
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