terça-feira, 6 de maio de 2008

1747. Associação Transmontana luta há 20 anos pela actividade pastoril

A Associação dos Pastores Transmontanos (APT), sedeada em Vila Real, luta há 20 anos pela melhoria das condições da actividade pastoril, marcada actualmente pela diminuição e envelhecimento dos pastores. Apesar de ter sido oficialmente criada há 20 anos, a actividade da APT começou em 1981, com a realização de uma assembleia que reuniu 110 pastores, em Mirandela, e onde foi aprovada a primeira carta com as grandes preocupações do sector.
Décadas depois, algumas das reivindicações feitas permanecem actuais. No entanto, verifica-se que o sector foi também afectado por uma grande redução do número de pessoas que se dedicam à actividade e pelo seu envelhecimento.
"De ano para ano vamos notando uma diminuição dos pastores que percorrem as nossas serras", afirmou à Agência Lusa Armando Carvalho, dirigente da Confederação Nacional de Agricultura e dirigente da APT, tendo estado ligado à associação desde o início da sua criação. O responsável considera que actualmente "até há uma maior concentração do efectivo, mas há também menos pastores e produtores".
Segundo dados do último Recenseamento Geral da Agricultura, feito em 1999, existiam na região transmontana 5363 explorações de ovinos, num total de 325.519 animais, e 3096 explorações de caprinos, com 73.522 animais.
A média de idades dos cerca de 600 associados da APT ronda os 60 a 65 anos, apesar de Armando Carvalho destacar o aparecimento de alguns, "poucos", jovens pastores. "É uma profissão muito exigente. Os pastores trabalham de segunda a domingo, quer faça sol, chuva ou esteja a nevar. Passam a sua vida à mercê da natureza e do clima. É uma profissão de risco", salienta o dirigente.
Armando Carvalho recorda que a primeira "Carta dos Pastores Transmontanos" foi escrita à lareira da casa de Agostinho Monteiro, o pastor que viria a ser o primeiro presidente da APT.
O dirigente sustenta que os pastores, quando se associaram, pretendiam "limpar" a sua imagem. Na altura, estas pessoas eram, segundo o responsável, associadas aos roubos, aos incêndios, e o que se pretendia era mostrar que era uma "profissão tão digna como qualquer outra". Na primeira carta, os pastores reivindicavam ser ouvidos na elaboração dos regulamentos municipais ou de freguesias sobre "polícia dos campos e apascentação de gados", já que, na altura, muitos foram proibidos de entrar nos terrenos de privados. Exigiam ainda mais apoios para combater as doenças que afectavam os rebanhos e medidas contra os lobos.
"Estes inimigos dos nossos rebanhos provocam prejuízos de centenas de contos", pode ler-se na carta, onde é também pedida como contrapartida o "pagamento total dos animais mortos pelas feras". Para além disso, os pastores queriam liberdade para possuir o número de cães que achassem necessário e vender directamente ao consumidor o leite, o queijo ou a carne. Na altura apenas o "marchante" o podia fazer.
Porque consideravam ser muito "atreitos" a doenças como reumatismo e bronquite, por causa do trabalho exposto "aos rigores do tempo", os transmontanos queriam "melhores pensões e reformas", "pagamentos em dia e sem atrasos", "reforma de velhice aos 55 anos" e "remédios mais baratos e de graça para os pastores reformados".
Com a entrada de Portugal na União Europeia, as regras sanitárias também se apertaram e hoje está proibida a construção de estábulos dentro dos aglomerados populacionais, tal como a passagem dos rebanhos pelo meio das localidades.
Em Vila Real, os pastores chegaram a manifestar-se porque um colega foi proibido de passar com o rebanho pela Avenida Carvalho Araújo, a principal artéria da cidade, que ele tinha que atravessar diariamente para levar os animais para o pasto.
Ao longo dos últimos anos foram muitas as lutas dos pastores, com manifestações em Bragança contra as posturas que obrigavam a retirar os animais das localidades, ou, mais recentemente em Chaves, por causa do encerramento da feira semanal. Armando Carvalho recorda que uma das principais lutas se deu em Mafomedes, uma aldeia da serra do Marão, que ficou cercada pela autoridades que queriam abater "2.500 cabeças de gado, infectado com brucelose, sem darem garantias de indemnização".
O dirigente diz que, ainda hoje, a brucelose é uma doença que afecta muitos rebanhos, um problema que nem mesmo o Plano de Erradicação lançado especificamente para Trás-os-Montes na década de 90, conseguiu resolver. Os pastores também não conseguiram a reforma aos 55 anos, agora só possível a partir dos 65 anos, e, para sobreviveram, contam com os subsídios comunitários, atribuídos em função do histórico e número de cabeças de gado.

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