quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

2141. Já não há avieiros no Tejo...

Ribatejo é lezíria, são toiros e cavalos, campinos e touradas. São campos de cultivo e vinhedos e também foi morada de outra gente, vinda de longe, à procura de bom porto e de sustento. Terra de migrações internas, para os trabalhos sazonais na agricultura, recebeu também os avieiros, a quem o escritor Alves Redol chamou “ciganos do Tejo”. Vindos de Vieira de Leiria em sazonalidade, aqui se fixaram. Fomos à procura deste povo pescador nas aldeias da Palhota, na margem direita do Tejo e na margem esquerda na aldeia de Escaroupim...
No Inverno, quando o mar de Vieira de Leiria se mostrava pouco generoso, famílias inteiras deslocavam-se em campanha até ao Tejo que, na sua riqueza, lhes oferecia sável, enguia, fataça, robalo. Foram ficando por ali à borda-d’água, nos barcos, improvisadas casas de três divisões, dispostas em cima de estacas, para evitar as inundações do Tejo, nos inverno mais chuvosos.
Na sua terra – Vieira de Leiria o oceano apenas lhes fornecia a sardinha durante o Verão, o Tejo proporcionava-lhes pesca ao longo de todo o ano e, até porque deslocar toda a descendência nem sempre era acessível à economia familiar, aos poucos foram prolongando as campanhas de Inverno.
Contam os descendentes que, há pouco mais de cinquenta anos, começaram a fixar-se ao longo das margens do Tejo. Casa Branca, Palhota, Escaroupim, Caneiras, Conchoso, Patacão, Lezirão, Muge, Valada, Carregado, Vila Franca, eis alguns dos locais onde os avieiros se foram instalando. A fixação definitiva trouxe-lhes a vontade e a necessidade de uma habitação permanente e segura. Barracas de lona ou coberturas de caniço sobre estacas serviam para as temporadas da faina mas mostravam-se insuficientes quando estas se prolongavam.
No início, bem à forma da lezíria, instalaram-se em palhotas, construídas com o material que os valados lhes ofereciam. Quando as condições económicas o começaram a permitir, com características bem diferentes das casas ribatejanas, nascem as aldeias de construção palafítica, típicas da praia de Vieira de Leiria mas também adaptáveis às cheias do Tejo e à necessidade que o pescador sente de estar perto do barco, seu instrumento de trabalho.
Hoje, já não os encontramos na beira-rio, pescando nem seus filhos e netos. Do Cartaxo deslocámo-nos pelo Reguengo da Valada e passada a linha do Norte, tomámos a recta conhecida pelas provas automobilísticas de outros tempos, o célebre quilómetro da Valada. Reguengo da Valada é uma enorme aldeia que localizada na lezíria, na margem direita do Tejo, dele é resguardada por um longo muro, tipo dique, que minimiza o efeito das cheias que quando o rio “galga as margens” a deixa sempre isolada. Dali toma-se a estrada em terra batida para uma pequena aldeia de avieiros - a Palhota.
Avistada aldeia e as suas típicas casinhas não encontrámos nenhum avieiro, nem viva alma. Fomos à sua procura numa daquelas aldeias por onde não se passa mas onde se vai. É ali, à beira Tejo, onde termina a estrada vinda do Reguengo, um lugarejo aparentemente igual a tantos outros, diferindo nas casas. Nas ruas ninguém, ao longe passeiam-se dois cães, uns cavalos numa cerca, olham-nos admirados e ouve-se o guarda-rios a ave tão característica dos salgueiros e caniços. O Tejo pouca água leva, e estamos em Novembro, a chuva teima em não cair, no ancoradouro de madeira vêm-se barcos mas muito mais em terra, alguns já em fim de vida.
Entre as casas sobressaem quatro ainda em madeira, assentes em colunas de cimento, na sua construção palafítica. Sob os chorões, árvore tão característica da borda-d’água, bancos e mesas servem os amantes dos piqueniques ou aqueles que apenas gostam de estar sentados a contemplar ou a ler. A aldeia é utilizada, dizem-nos no Reguengo, pelos seus proprietários aos fins-de-semana, por lazer, ou para ir à pesca, para o petisco, já que o Tejo e a pesca não dão sustento a ninguém.
Então e os Avieiros, perguntamos “empregaram-se nas fábricas e noutros empregos e muitos, os filhos mais novos já cá nascidos emigraram” dizem os moradores de Reguengo. Restava-nos ir ao outro lado do Tejo a Escaroupim e se houvesse barqueiro era só atravessar o rio. Resta-nos o caminho pelo Porto de Muge usar a velha ponte ferroviária, ao lado do ramal de Vendas Novas, hoje aberta ao tráfego rodoviário, para chegar a Muge e daí a Escaroupim. Aqui a aldeia é grande, muito grande mais de 200 fogos e finalmente as casas dos avieiros, meia dúzia delas, de madeira e uma a servir de museu, uma iniciativa da Câmara de Salvaterra de Magos e uma filha e neto de avieiros.
"Todos os nossos antepassados vieram de Vieira de Leiria”, justifica uma senhora de 67 anos e seu filho de 45 anos “meu pai veio com vinte dias de idade de Vieira de Leiria para aqui, juntamente com o meu avô. Hoje já ninguém vive da pesca, no tempo da lampreia, ou do sável ainda compensa. Na aldeia já mora muita gente que não é avieira. Esta casa onde nos encontramos e que eu tenho a chave e a mostro, estava sem moradores e a Câmara de Salvaterra teve a feliz ideia de comprar a casa, que hoje é um museu e que nos permite mostrar a tanto visitante o que era a casa do avieiro. Aqui são os quartos, a sala, e aqui a cozinha. Esta é narça para a apanha da enguia e do camarão e temos as redes, os sabugares, para apanha do sável. Antigamente éramos uma família, muito grande e temos um rancho folclórico e mantemos grandes amizades com o povo da Vieira de Leiria, concelho de Marinha Grande, onde temos todas as nossas origens. Perdemos durante muitos anos os contactos porque a vida era tão difícil e pobrezinha que não dava para ir visitar a família que deixámos”.
Nesta terra de fim de estrada, o sentido da vida mudou. Os outrora pescadores já não pescam para alimentar a prole mas quase apenas para ajudar à economia familiar. A agricultura e não só substituiu-se ao rio no sustento dos homens. Empregos como a construção civil ou a hotelaria, por terras próximas, a emigração para outros países mostram-se mais fiáveis do que continuar a pescar no Tejo. “Olhe o meu filho está desempregado” diz-nos e “o escoamento do produto tornou-se difícil. Fataça, barbo, enguia e algum camarão, são as espécies que vão vindo à rede ao longo do ano mas, sobretudo a primeira, já perdeu todo o valor comercial há uns tempos, todas as semanas vinha aí um intermediário que comprava toda a fataça para fazer farinha de peixe. Agora já não há ninguém a comprar”, contam-nos, “se houvesse alguém a fazê-lo, ainda a gente andava aí a pescar, hoje ninguém quer isto a não ser para um petisco de fim-de-semana”. Só no tempo da enguia o rio retoma algum alento, longe, apesar de tudo, dos tempos áureos dos avieiros.
Já não há avieiros no Tejo e hoje o livro «AVIEIROS» com que o escritor neo-realista Alves Redol imortalizou a comunidade, tendo mesmo vivendo na Palhota; o romance dedicado aos “Ciganos do Rio”, como lhes chamou poderia não passar de uma ficção.
A.F.
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