sábado, 22 de agosto de 2009

2546. Albufeira: sismo de terça-feira terá contribuído para o desabamento

A derrocada na praia Maria Luísa, ocorrida ontem de manhã em Albufeira, provocou a morte a cinco pessoas e ferimentos a três. O INEM deu por terminadas as buscas às 22h00. O sismo de 4,2 graus na escala de Richter registado às 7h55 da passada terça-feira a 110 quilómetros a sul de Faro, em pleno Oceano Atlântico, pode ter contribuído para o incidente que é o mais grave com arribas instáveis nos últimos dez anos.
É pelo menos essa a convicção de João Alveirinho Dias, professor de geologia na Universidade do Algarve. "As vibrações sísmicas devem ter contribuído para a cedência das arribas", acredita o docente, que faz parte do Centro de Investigação Marinha e Ambiental. Salienta, contudo, que é difícil determinar qual o grau de influência do tremor de terra no incidente de ontem.
O sismo de terça-feira foi sentido nas zonas de Faro, Olhão, Loulé e Tavira, no centro do Algarve, mas passou despercebido para a maioria das pessoas. Provavelmente, por ter ocorrido relativamente cedo, quando muitas pessoas ainda dormiam. Os bombeiros das cidades onde o abalo foi mais sentido não receberam qualquer pedido de ajuda nem registaram qualquer ferido. E o tremor não provocou, igualmente, quaisquer danos materiais.
Alveirinho Dias diz que provavelmente se a arriba tivesse cedido logo o balanço não teria sido tão trágico. "Como o sismo foi muito cedo, é provável que a derrocada não ferisse ninguém. Mas infelizmente aconteceu hoje, numa altura em que a sombra é muito chamativa", refere o universitário. E insiste: "O que aconteceu deve-se essencialmente à falta de informação e civismo das pessoas. Se há um aviso a dizer 'arriba perigosa' as pessoas devem tomar as suas precauções". O professor reforça que as bases das falésias "são sempre muito perigosas" e as pessoas nunca se devem colocar nestes locais, resistindo à atracção da sombra.
Ontem o ministro do Ambiente afirmou que a arriba que ruiu tinha sido observada há uma semana por técnicos do Administração Regional Hidrográfica (ARH) do Algarve, não tendo sido detectado "risco de acidente a curto prazo". "Neste caso, a arriba estava identificada como de risco potencial, mas não de haver um acidente a curto prazo", sustentou o ministro Nunes Correia. O responsável, que também tutela o Ordenamento do Território, sublinhou que "falta agora saber o que aconteceu na última semana para provocar a queda da arriba".
Segundo o governante, "pode ter havido vários factores, e apontou como causas prováveis a estudar a ocorrência de um sismo na terça-feira ou a forte ondulação que se registou nos últimos dias; quero tranquilizar os que passam férias no Algarve que a ARH está a vistoriar de novo situações de risco como já tinha feito no início da época balnear e na última sexta-feira", disse. Nunes Correia acrescentou que a ARH vai "fazer uma investigação rigorosa", assegurando que "não houve negligência".
O presidente do Instituto Nacional da Água (INAG), Orlando Borges, outra entidade com responsabilidades nesta área, não teve explicação para o sucedido. "Estes são processos de enorme complexidade e há muita imprevisibilidade neste tipo de fenómenos", referiu.
A associação ambientalista Almargem, comentando a derrocada na praia Maria Luísa, afirmou numa nota: "Um desfecho negro para uma situação que infelizmente há muito se esperava". Nesta zona, sublinham os ecologistas, situa-se "um dos troços mais betonizados do litoral algarvio". As arribas que rodeiam esta praia "são um claro exemplo da ocupação errada que há muito é (e continua a ser) nas arribas areníticas, um pouco por todo o litoral central do Algarve". A situação verifica-se com "particular incidência" nos concelhos de Albufeira, Lagoa, Portimão e Lagos.
Por outro lado, a presidente da Administração da Região Hidrográfica do Algarve (ARH) - a entidade com competência para monitorizar as arribas -, Valentina Calixto, referindo-se à tragédia da praia Maria Luísa, afirmou: "Não havia risco de iminente derrocada". Também o primeiro-ministro José Sócrates, depois de ter estado a falar com a presidente da ARH, afirmou ter informações de que "esta situação não tinha sido detectada como perigo iminente".
* * * * * * * * * * * * *
Fonte: PÚBLICO

Sem comentários: