quarta-feira, 30 de setembro de 2009

2601. Chuvas e enchentes trazem alerta de mudanças climáticas

De São Paulo a Istambul, passando por Senegal, Santa Catarina no Brasil e a Escócia, o início do mês de Setembro foi marcado por chuvas torrenciais, enchentes e outros fenómenos climáticos extremos – para cientistas entrevistados pela BBC Brasil, um lembrete sobre a urgência da necessidade de se adaptar às mudanças climáticas. "Certamente, as projecções feitas por modelos de computador sofisticados indicam um aumento na probabilidade de ondas de calor e na intensidade das chuvas, bem como um aumento no número de áreas que sofrem com secas", disse à BBC Brasil o professor Richard P. Allan, do Centro de Ciência para Sistemas Ambientais da Universidade de Reading, na Grã-Bretanha.
Em 2007, o relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês) já alertava que um aumento na "frequência (ou proporção do total da incidência de chuvas relativa à chuvas torrenciais) de 'eventos de forte precipitação'" era "muito provável", ou seja, mais de 90% provável. Perante a relativa segurança dos cientistas de que as temperaturas vão subir nos próximos anos, a recomendação do IPCC – reiterada por cientistas ouvidos pela BBC – é de se preparar para uma ocorrência cada vez maior deste tipo de eventos.
Para uma cidade como São Paulo, construída em torno do Rio Tietê, a adaptação é ainda mais urgente. "É preciso pensar no sistema de drenagem e na infra-estrutura da cidade, porque mais e mais eventos extremos devem acontecer. Pelo menos é essa a tendência que se pode ver hoje", afirmou à BBC Brasil o professor Bill McGuire, da University College London.
Para o meteorologista britânico Simon Brown, colega de McGuire no Centro Hadley, unidade do Met Office, o Departamento de Meteorologia britânico, investimentos em adaptação são questão de bom senso. "Se há uma vulnerabilidade natural para eventos naturais extremos relacionados com o tempo, e esses eventos extremos, diante do aquecimento global, vão se tornar mais frequentes, qualquer pessoa sensata se prepararia para isso", afirmou Brown.
O especialista lembrou que cidades como Amesterdão, que fica abaixo do nível do mar e será muito afectada por outro provável efeito das mudanças climáticas, o avanço dos oceanos, já vem reforçando o seu complexo sistema de diques. Londres também se prepara, e já tem um plano que prevê reforços futuros na chamada "barreira do Tamisa", um sistema de comportas capaz de controlar o nível da água do rio para evitar enchentes na capital britânica.
O financiamento para adaptação ao aquecimento global nos países mais pobres do mundo é um dos assuntos mais polémicos em pauta para o encontro das Nações Unidas sobre o clima, que acontece em Dezembro, em Copenhaga. Em Julho, o representante máximo da ONU para o assunto, Yvo de Boer, afirmou que 10 mil milhões de dólares por ano seriam "um bom começo" para que as negociações avancem.
A previsão é de que países pobres como Bangladesh e pequenas nações insulares, com escassos recursos para se preparar para o futuro, sejam os maiores afectados pelo aquecimento global. Embora as catastróficas chuvas na Turquia – que deixaram mais de 30 mortos – tenham sido as piores em 80 anos, segundo especialistas, não é possível associá-las directamente às mudanças climáticas.
"É sugestivo, mas não podemos fazer associações directas entre eventos individuais e o aquecimento global, mas a ciência é bastante clara: quanto mais quente o ar ficar, mais humidade ele é capaz de transportar, o que facilita a ocorrência de chuvas torrenciais", afirmou Brown à BBC Brasil.

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Fonte: O Globo

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