A paisagem agrícola mudou muito nos últimos 50 anos. A face mais visível dessa mudança é o abandono dos campos e uma agricultura intensiva. Mas este novo perfil trouxe consigo o problema da desertificação dos solos.
Eugénio Sequeira, ex-presidente da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), está preocupado com a degradação da terra. Há 38 anos que constata problemas e procura soluções técnicas para uma agricultura mais sustentável. Hoje não tem dúvidas: “Um agricultor que opte por plantar carvalhos [árvore mais resistente aos incêndios] em vez de eucalipto deve ser pago por isso. A longo prazo o carvalho vai ser mais rentável, mas só daqui a muito tempo”.
E dá ainda outro exemplo: “quem vai dizer a um agricultor que não pode plantar olival intensivo porque vai poluir o aquífero que passa por baixo da sua propriedade, mas não na do vizinho? Tudo isto tem de ser compensado”.
Mas as ajudas financeiras são cada vez mais reduzidas, salienta. A LPN tem, em Castro Verde, um projecto para mostrar aos agricultores da região como tirar mais proveito dos campos e melhorar a biodiversidade. A aposta é na sementeira directa (que não implica remexer os solos), na compostagem para acelerar o aumento do teor de matéria orgânica e em valas e charcas de infiltração para que a água da chuva abasteça os aquíferos e não se perca.
“A ajuda das medidas agro-ambientais tem vindo a diminuir. A dada altura chegou a abranger 60 por cento do território; agora esse número é de apenas 20 por cento”. Segundo Eugénio Sequeira, as coisas até têm funcionado porque “mostramos aos agricultores como se pode fazer. Ora, o Estado devia ter terra própria, propriedades-piloto, onde demonstrasse como se deve fazer”. Mas acima de tudo, o combate à desertificação implicaria medidas de ordenamento do território.
“As cidades estão a cobrir os melhores solos do país” num processo de impermeabilização dos terrenos, denuncia, lembrando que a RAN (Reserva Agrícola Nacional) e a REN (Reserva Ecológica Nacional) “deixam de funcionar nos perímetros urbanos”. “A agricultura não é só produzir cereal, cortiça; é produzir a qualidade de vida da qual dependemos, água de qualidade, é ser sumidouro de carbono, guardiã da biodiversidade e salvaguarda contra a seca”, disse Eugénio Sequeira.
No entanto, para Lúcio do Rosário, presidente do Programa de Acção Nacional de Combate à Desertificação (PANCD), a desertificação em Portugal limita-se a situações pontuais. "Não existem grandes chagas de degradação" em termos de desertificação, disse ontem à Lusa, explicando que as situações mais preocupantes se registam no Sul do país, nomeadamente Castro Marim/Alcoutim e Mértola.
O Dia Mundial de Luta contra a Desertificação e a Seca foi proclamado pela Assembleia-geral da ONU em 1994. Actualmente é um problema que afecta um terço da superfície da Terra e ameaça o bem-estar de mil milhões de pessoas. As alterações climáticas, práticas agrícolas mais intensivas e uma fraca gestão dos recursos hídricos agravaram a situação.
Para o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, o consumo mundial e os modos de produção actuais "não são sustentáveis" e isso terá como consequências, entre outras, "novas crises alimentares mundiais como a de 2008 e a continuação da desertificação, da degradação dos solos e dos períodos de seca".
Helena Geraldes
* * * * * * * * * * * * *Fonte: PÚBLICO
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