sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

2707. AQUECIMENTO GLOBAL: os efeitos no Árctico

Os especialistas prevêem um aumento na temperatura do Árctico de até 9 ºC durante o século XXI e o Pólo Norte pode ficar totalmente sem gelo no verão em apenas dois decénios. Um aquecimento entre 3ºC e 5ºC já desencadearia mudanças bruscas nos ecossistemas da zona.
Estas são algumas das conclusões da equipa internacional que participou da primeira expedição ao Árctico no chamado projecto Arctic Tipping Points (ATP, pontos de mudança no Árctico, em inglês), que constatou que uma massa de água quente proveniente do Atlântico invade grande parte do sector europeu do Oceano Glacial Árctico. O aquecimento das águas árcticas está a provocar o derretimento rápido do gelo, assim como o deslocamento das espécies próprias da região para o norte.
Um dos objectivos principais da expedição, da qual participou o Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha (CSIC, na sigla em espanhol), foi determinar a partir de que nível de aquecimento podem ocorrer mudanças bruscas no Árctico, uma área geográfica situada em torno do Pólo Norte da Terra.
Ao regressar da expedição, os pesquisadores do CSIC calcularam que um nível de aquecimento de entre 3ºC e 5ºC, em comparação com as temperaturas de 1990, já produzem bruscas mudanças no Árctico.
A zona onde mais sobe o termómetro – O Árctico é a região do planeta onde a temperatura está a aumentar mais rapidamente, com uma taxa de aquecimento três vezes maior que a do resto do planeta. A previsão é de um aumento de até 9ºC durante o século XXI.
Segundo o pesquisador Carlos Duarte, chefe da equipe do CSIC no projecto, "os prognósticos que falavam de uma rápida fusão do gelo foram ultrapassados pelas observações". Durante os anos de 2007 e 2008, houve uma perda brusca de gelo no Oceano Glacial Árctico, que resultou numa diminuição de mais ou menos para metade da superfície congelada que restava normalmente no final do verão.
"A espectacular aceleração da perda de gelo no Árctico nos últimos anos sugere que a mudança climática entrou numa nova fase nesta região, com possíveis consequências globais", segundo o especialista. "Os modelos actuais sugerem que o Oceano Glacial Árctico poderia ficar totalmente sem gelo no verão em dois decénios, ou talvez antes", acrescentou o especialista.
A expedição, realizada a bordo da embarcação norueguesa "Jan Mayen", foi a actividade inaugural do projecto ATP, financiado pela União Europeia (UE) e com a colaboração da Fundação BBVA. O projecto, do qual participaram pesquisadores noruegueses, dinamarqueses, russos, polacos, portugueses, franceses, britânicos, suecos e espanhóis, também pretende determinar o alcance da pressão humana nestas consequências, através da proliferação de actividades económicas no Árctico, como o turismo, a pesca, a exploração petrolífera e o transporte marítimo.
Mudanças com impacto inesperado – O coordenador do projecto ATP, Paul Wassman, da Universidade de Tromso (Noruega), adverte que "as mudanças que observamos terão efeitos sem precedentes no ecossistema Árctico. É urgente estabelecer onde e quando se alcançarão os valores que desencadearão mudanças abruptas".
Quando Wassman fala de mudanças bruscas, está-se a referir à existência de pontos limiares de pressão a partir dos quais perturbações menores podem alterar de forma qualitativa o estado ou o desenvolvimento de um sistema. O projecto ATP identificará os componentes do ecossistema árctico que provavelmente experimentarão mudanças bruscas como resultado do aquecimento do clima.
Os pesquisadores do CSIC já detectaram que a mortalidade dos organismos mais característicos do Árctico cresce rapidamente com o aumento da temperatura. A equipa internacional detectou que o pequeno crustáceo Calanus glacialis, elemento central da cadeia alimentar do Árctico, teria desaparecido de áreas nas quais antes era abundante.
O pesquisador Miquel Alcaraz afirma que "o deslocamento para o norte das águas atlânticas quentes deslocou as espécies árcticas". A ausência do Calanus lacialis confirma os prognósticos dos pesquisadores e aponta para uma grande mudança na cadeia alimentar na região.
Durante a expedição, mais de mil litros de água do Oceano Glacial Árctico foram transportados para as instalações do Centro Universitário das Ilhas Svalbard, em Longyearbyen (Noruega), onde os pesquisadores do projecto ATP fizeram experiências para estabelecer o ponto limite de aquecimento a partir do qual são detectadas mudanças bruscas em comunidades de plâncton. A pesquisadora do CSIC Susana Agustí explica que "a biomassa e a produção fotossintética do plâncton colapsam com o aumento da temperatura, além que a sua taxa de respiração, e, portanto, a produção biológica de dióxido de carbono (CO2) do plâncton árctico aumenta rapidamente com o aumento da temperatura".
O CO2 é um dos principais gases responsáveis pelo agravamento do aquecimento da atmosfera e do planeta. "As regiões polares do planeta não são mais a última fronteira, mas são as trincheiras da luta contra a mudança climática", concluíram.
Omar Segura
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