domingo, 24 de janeiro de 2010

2826. Deslizamento de terras na CREL poderá ter resultado de despejos ilegais

O deslizamento que na sexta-feira cortou, nos dois sentidos, a circulação na CREL, entre o Túnel de Carenque e o Nó de Belas, poderá ter resultado da acumulação ilegal de terras no local, situação que se verificou em 2004 e 2005. Noutra zona do concelho de Sintra, junto à cadeia da Carregueira, há igualmente suspeitas de despejos irregulares de terras, acto que está a ser investigado pela Polícia Judiciária.
Ontem, a via ainda estava obstruída com o pavimento a ameaçar ruir em alguns pontos."Eu avisei", disse ontem ao PÚBLICO o presidente da Junta de Freguesia de Belas, referindo-se à acumulação de terras, que afirma ser ilegal, no local que agora desabou para a CREL. "São terras que foram ali depositadas por centenas ou milhares de camiões e que vieram dos concelhos de Lisboa, da Amadora e das obras do Metro", refere ainda o autarca, lembrando que a zona em causa deixou de estar sob a alçada da junta a que preside e passou a ser da competência da Câmara Municipal da Amadora, inviabilizando desse modo qualquer tentativa para questionar "o depósito, sem critério, de terras" no local.
Com o deslizamento das terras cederam também, numa extensão próxima dos 200 metros, os vários postes e os cabos de muito alta tensão que passam na zona. Ontem, de acordo com declarações da porta-voz da EDP, não havia o risco de as enormes estruturas metálicas desabarem para o asfalto. No entanto, a estrada apresentava fissuras em diversas áreas e não permitia a utilização de toda a maquinaria necessária para proceder aos trabalhos.
A GNR, assim como a Brisa, desconheciam por quanto tempo irá estar a estrada impedida. Os trabalhos de remoção das terras e reparação do pavimento irão demorar uma semana, no mínimo.
Situações como a ocorrida na sexta-feira podem vir a repetir-se: o Casal da Mata, próximo da cadeia da Carregueira, pode ficar soterrado de um momento para o outro. Onde existia um vale, é agora uma grande elevação, quase uma serra, de terras que ali foram despejadas, aparentemente, sem critério e sem ter em conta as condições de segurança das pessoas que ali residem.
O presidente da autarquia de Sintra já foi questionado acerca do depósito de terras no local. A interpelação terá sido feita pela vereadora socialista Ana Gomes, a qual também já terá aludido à situação num blogue. Contactado pelo PÚBLICO, Ferrando Seara não quis tecer considerações sobre o assunto, afirmando apenas que "a minha Protecção Civil [serviços camarários] está a acompanhar essas e outras situações que possam surgir". O PÚBLICO não conseguiu falar com Ana Gomes, mas confirmou que a PJ, por intermédio de uma das brigadas que averiguam os casos de corrupção e outros delitos económicos e financeiros, tem em mãos um inquérito relativo às terras que têm sido despejadas junto ao Estabelecimento Prisional da Carregueira.
As contrapartidas financeiras, bem como eventuais fugas aos impostos, estão a ser analisadas pelos peritos policiais. Empreiteiros, serviços camarários e até alguns militares com alegados interesses no negócio têm vindo a ser investigados mas, até ao momento, ainda não se terá procedido à constituição de arguidos. Os montantes envolvidos neste tipo de negócio podem vir a ser, diz a mesma fonte, superiores aos que foram apurados noutros casos ilícitos, como é por exemplo o das sucatas que deram origem ao processo Face Oculta.
José Bento Amaro
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Fonte: PÚBLICO

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