quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

2837. MADEIRA: Temporal devastador

Chuvas como muitos dizem nunca ter visto ou, pelo menos, já não viam há muitos anos, causaram, na madrugada e manhã de ontem, um cenário de devastação em vários pontos dos concelhos de Machico e de Santana. Segundo a Protecção Civil, estes acabaram mesmo por ser os mais afectados pelo temporal que se abateu sobre a Região.
Inúmeras derrocadas, uma das quais acabou mesmo por atingir uma residência no Porto da Cruz, inundações, estradas transformadas em “ribeiras” e viaturas arrastadas pelo entulho trazido pela água eram os retratos visíveis de uma noite de chuva intensa e ininterrupta. Os sítios da Ribeira Grande e Maroços constituíam um dos melhores exemplos. Na zona do “Velho Moinho”, troncos, pedras e lama invadiram a estrada, coadjuvados pela força da água dos ribeiros, acabando mesmo por causar danos em algumas viaturas, tal como relatavam vários populares. Como se isso não bastasse, vários deslizamentos de terras ainda vinham piorar o cenário, acabando, nalguns casos, também por causar danos ao nível dos terrenos agrícolas. Valia a imediata actuação das máquinas e dos funcionários da autarquia, que conjuntamente com os populares “deitavam mãos à obra”.
Mais acima, no Sítio dos Maroços, enormes amontoados de entulho arrastado pela água (e uma parte resultante das quebradas), tornavam praticamente impossível a circulação numa estrada que mais parecia uma ribeira. Por seu turno, completamente intransitável ficou a estrada de ligação entre os Maroços e a Ribeira de Machico.
Ainda no concelho de Machico, também algumas zonas do Santo da Serra sofreram com o mau tempo, com várias casas a sofrer inundações e diversos terrenos a ceder. Mais abaixo, no sítio dos Landeiros, a situação não era melhor. Os troncos e pedras arrastados pelo Ribeiro da Pia acabaram por causar o entupimento do mesmo, tendo sido projectada para a estrada uma grande quantidade de entulho que acabou por arrastar e cobrir uma viatura que ali se encontrava estacionada. Segundo nos revelou o proprietário do veículo, este facto ocorreu cerca das 03h35 da madrugada, altura em que diz ter sentido «um reboliço». Quando foi verificar, já a viatura havia sido arrastada cerca de 25 metros, acabando por ficar presa junto ao muro de suporte da via. O nosso interlocutor, que também viu uma parte dos terrenos da família ruírem, ainda não tinha contabilizado os estragos na viatura e afirmava que «se valer a pena arranjar, arranjo, se não...». A remoção do automóvel e a limpeza da estrada (com o apoio de uma máquina), ocorreu sensivelmente a meio da manhã.
Mais a norte, no Porto da Cruz, o cenário não era mais animador. De novo, vários deslizamentos de terras e estradas afectadas. Na baixa da vila, junto ao mar e na zona da escola, algumas ruas estavam repletas de água e lama. Nas imediações, encontrámos uma equipa da autarquia a proceder a trabalhos de limpeza, acompanhada por um vereador que ao JM admitia que a situação estava «um bocado complicada». «Estamos a tentar controlar a situação, no sentido de limpar algumas estradas e encaminhar as águas, porque há muita água nas estradas a correr», disse, acrescentando que «temos todos os meios no terreno para tentar minimizar a situação e assegurar o bem das pessoas, porque é isso que está em causa».
Derrocadas, inundações, quedas de árvores e postes era também a realidade que se vivia no concelho de Santana. Várias freguesias do município foram afectadas, algumas das quais ficando mesmo sem acesso, nomeadamente a da Ilha. Ontem ao fim da tarde, o presidente da Junta de Freguesia afirmava que ainda estavam a decorrer os trabalhos de desimpedimento das estradas, designadamente da ligação a partir da ribeira de São Jorge. Tal como referiu, a única forma de chegar à Ilha era através da estrada da Silveira.
Tal como no concelho de Machico, também no de Santana os bombeiros não tiveram descanso, tendo recebido inúmeras solicitações. Alguns exemplos foram as condicionantes em várias estradas e as inundações, uma delas na escola de São Roque do Faial, que chegou a ter cerca de meio metro de altura de água. Neste concelho, um dos locais que foi fortemente afectado foi o sítio do Lombo Galego, cuja estrada de acesso foi devastada por várias derrocadas. Ali, segundo as informações que eram avançadas na proximidade (tendo em conta que era praticamente impossível, e até desaconselhável a ida ao local), várias casas foram inundadas e pelo menos duas viaturas haviam sido soterradas pela água e pela lama. Aliás, os “rios” de água e lama que eram bem visíveis à distância faziam os populares temer que mais habitações viessem a ser afectadas, a continuar a forte chuva.
Em declarações à RJM, o presidente da Câmara Municipal de Santana dava conta dos condicionamentos causados pelo mau tempo, desde as estradas cortadas em diversos sítios, à falta de água potável em alguns locais, pedindo aos munícipes «calma e alguma paciência». Por outro lado, tendo em conta a instabilidade dos taludes devido às fortes chuvas, o autarca apelava às pessoas para que aquelas que não necessitassem obrigatoriamente de sair de casa se mantivessem nas suas habitações com os filhos. Ao final do dia, muito ainda havia por fazer, havendo várias estradas que ainda se mantinham encerradas.
Devido ao mau tempo, a Secretaria Regional de Educação e Cultura decidiu suspender a actividade, durante o dia de ontem, de seis estabelecimentos de ensino da Região, nomeadamente a Escola Básica do Porto da Cruz (Machico), a Escola EB1/PE de Maroços (Machico), a Escola EB1/PE de São Roque do Faial (Santana), a Escola Básica e Secundária Bispo D. Manuel Ferreira Cabral (Santana), a Escola EB1/PE de Porto Moniz e a Escola EB1/PE do Palheiro Ferreiro (Funchal). Num comunicado enviado às redacções, a SREC justifica a decisão tomada com a manutenção da «segurança e bem-estar de alunos, professores e funcionários» dos estabelecimentos escolares em causa. A missiva refere ainda que também devido às condições meteorológicas adversas, «foram afectadas as instalações do Gabinete Coordenador de Educação Artística (GCEA) sediadas na Escola Secundária Dr. Ângelo Augusto da Silva (Escola da Levada)». A nota era concluída com a informação de que a Secretaria estava «a acompanhar o desenvolvimento da situação em coordenação com as Direcções de todos os estabelecimentos de ensino».
O Governo Regional, através da Secretaria Regional do Equipamento Social, encontra-se a acompanhar os efeitos do mau tempo que assolou todo o arquipélago. Numa acção concertada desde as primeiras horas com o Serviço Regional de Protecção Civil e Bombeiros a Secretaria Regional tutelada por Santos Costa disponibilizou no terreno todos os meios necessários – técnicos e equipamentos -, para responder às situações detectadas, evitar males maiores e repor a normalidade. Todavia, e como medida de precaução, foram encerrados vários troços de estrada: E.R. 101 (entre a Ponta Delgada e a Boaventura); E.R. 101 (entre a Boaventura e Arco de São Jorge); E.R. 219 (acesso à freguesia da Ilha), E.R. 213 (entre Faial e Santana), E.R. 102 (entre a Camacha e João Ferino); E.R. 102 (entre o Porto da Cruz e os Moinhos - Serrado / Moinho); E.R. 206 (Boqueirão - Gaula); E.R. 102 (entre a Portela e a Referta); E.R. 236 (nos Maroços - Machico); E.R. 238 (entre o Santo e a Fonte de St.º António); E.R. 205 (entre Vale Paraíso e Palheiro Ferreiro); E.R. 201 (Caminho dos Pretos); E.R. 230 (Campanário - entre o ramo de saída da VR e a E.R. 229); e a E.R. 203 (Carreiras). Neste momento, são principalmente estas infra-estruturas essenciais que se encontram a merecer a melhor atenção dos técnicos da “Estradas da Madeira” e da Direcção Regional de Infra-estruturas e Equipamentos e a mobilização de meios para que retomem o seu normal funcionamento.
Ontem foram cancelados seis voos no Aeroporto da Madeira, essencialmente devido à falta de visibilidade. À noite, a situação estava melhor e esperava-se que os voos se realizassem na sua totalidade.
Prevê-se uma melhoria gradual do estado do tempo até sexta-feira. De acordo com o Observatório de Meteorologia, as previsões apontam para hoje alguns aguaceiros em especial até ao final da manhã. Amanhã prevêem-se períodos de chuva ou aguaceiros fracos, e na sexta apenas céu muito nublado. De referir que de anteontem para ontem a precipitação foi de 82,9 milímetros.
A chuva contínua e os ventos fortes também se fizeram sentir no Porto Santo, mas, ainda assim, sem registo de estragos assinaláveis. A agitação marítima também se fez sentir.
Ricardo Caldeira
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Fonte (Texto e imagem): Jornal da Madeira

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