quarta-feira, 17 de novembro de 2010

3239. Preocupada com mudanças climáticas, Holanda investe em obras

Há 57 anos, uma enchente devastou a Holanda e matou 1 800 pessoas – número de vítimas semelhante ao de Nova Orleães com o furacão Katrina. O país nunca esqueceu a tragédia – vários diques não conseguiram conter as águas de uma tempestade associada à maré-alta – e todos falam dela como se tivesse acontecido há apenas alguns meses.
Talvez seja por isso que, apesar de as negociações para um tratado climático entre os países avançar muito lentamente, os holandeses tenham decidido não esperar por uma definição global. Optaram por se preparar e adaptar-se para as mudanças que inevitavelmente virão com o aumento médio da temperatura do planeta nas próximas décadas. A maior preocupação é com a subida do nível do mar: a Holanda tem 25% de seu território abaixo do nível do mar e outros 25% susceptíveis de alagamento.
A cidade de Roterdão, por exemplo, tem como meta cortar as suas emissões de gases de efeito estufa em 50% até 2025 e criou um programa para ficar “à prova do clima” até essa data. Paula Verhoeven, que trata das questões climáticas no município, relata que por muitos anos as pessoas não precisaram de se preocupar com o facto de estarem 5 ou 6 metros abaixo do nível do mar. “É importante que daqui a cem anos os moradores também consigam usar a cidade sem ter de pensar se choveu muito, se os túneis alagaram, se está muito quente ou seco”, explica.
Um dos planos é erguer no distrito de Stadshavens 13 mil casas “resilientes às mudanças climáticas” até 2040. Dessas, 1 200 serão feitas sobre a água. A área não tem a protecção de diques e era ocupada por actividades portuárias que agora se mudaram para o oeste.
Apesar de parecer loucura, não se trata de um projecto utópico. Num país com pouca terra disponível e que convive tanto com a água, transformar barcos em moradias permanentes é algo relativamente comum – hoje, existem 6 mil barcos-casa. Mais recentemente, porém, houve um boom de casas flutuantes. Segundo o arquitecto Koen Olthuis, um dos mais reconhecidos no sector, há 300 delas em diferentes partes da Holanda e muitas outras em projecto. São realidade também uma prisão, uma estufa, um conjunto de escritórios e restaurantes flutuantes.
A Câmara Municipal de Roterdão fez também como projecto-piloto um pavilhão flutuante perto de cartões-postais da cidade – a ponte Erasmus e o Hotel New York. São três semiesferas que podem abrigar exposições. Na cidade de Maasbommel há uma vila de casas flutuantes. Por questão de segurança, os donos só passam oito meses por ano no local. Elas custam 20% a mais que uma moradia comum, possuem jardins e possibilitam que os moradores nadem e pesquem com facilidade.
Outros países também aderiram à ideia das estruturas flutuantes: as Ilhas Maldivas querem construir um campo de golfe e, em Dubai, há projecto de fazer uma praia flutuante.
A Inglaterra, a Rússia e a Holanda construíram barreiras contra tempestades. Com as mudanças climáticas, estas barreiras serão fundamentais. Actualmente, a barreira em Hoek van Holland, que protege Roterdão, precisa ser usada em média a cada dez anos, quando o tempo está realmente ruim e o nível da água sobe mais de 3 metros. Porém, a expectativa é que, em 50 anos, a barreira passe a ser usada a cada cinco anos. Os números mostram que a obra compensa. Reforçar os diques existentes custaria 820 milhões de euros, enquanto o gasto com a barreira foi de 660 milhões de euros.
Afra Balazina - O Estado de S. Paulo
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Fonte: Estadão

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