Logo que espreita o Inverno, adensam-se as populações de patos nos estuários, lagoas, paules e rios portugueses. Oriundos de diversos locais do Norte da Europa, estes anatídeos percorrem todos os anos milhares de quilómetros para encontrar condições ambientais mais favoráveis. Fogem dos lagos e rios gelados, à escassez de alimento das zonas mais setentrionais do velho Continente. Este movimento pendular, conhecido vulgarmente como migração de Inverno, é cíclico e é feito há milhares de anos.
A deslocação que fazemos diariamente entre a casa e o local de trabalho não é mais do que um movimento pendular suportado por uma tecnologia e numa infra-estrutura rodoviária ou ferroviária. Os motivos são conhecidos assegurar condições de qualidade de vida pessoal através do trabalho e melhorar o desempenho económico de empresas e estruturas estatais de suporte à sociedade. Se algo falha, o movimento não ocorre e o processo pára. Simples!
Razão pela qual não se entende que após as cheias de 2003 da Ribeira dos Fornos, que impediram a livre utilização da mais importante estrada (sem portagem) que liga o Norte e o Sul do país (IC2), não tenham motivado a adopção de medidas excepcionais para evitar a reincidência deste impacto. Sobretudo quando todos sabemos que o ordenamento urbano na pequena bacia hidrográfica desta ribeira é desadequado e impermeabilizou os solos, quando as intervenções realizadas no leito e margens da ribeira são hidraulicamente questionáveis e ecologicamente inaceitáveis e tendo o IC2 um desenvolvimento perpendicular à ribeira, suportado num aterro e com passagens hidráulicas não preparadas para caudais extremos, funcionando, neste contexto, como uma barragem à livre circulação das águas.
Mas a ocorrência das chuvadas da madrugada de dia 25 de Outubro não afectou apenas estruturas rodoviárias. Bloqueou a circulação de comboios e parou cidades e, ao analisarmos os dados da pluviosidade, encontramos sempre um referencial diferente de uma qualquer média do dia, da semana, do mês ou do ano. As justificações em que tropeçamos invocam a excepcionalidade do facto. Exactamente as mesmas que rebentaram os diques do Mondego, as ondas de calor e as enxurradas imprevistas. É o aumento destas excepcionalidades climáticas que os cientistas identificaram como um possível efeito das alterações climáticas.
Os patos, antes de iniciarem a grande migração, acumulam gorduras que funcionam como combustível, durante os longos quilómetros de voo. Se não o fizessem, morreriam. Em Portugal, as ondas de calor mataram pessoas. Os incêndios mataram pessoas. As enxurradas e cheias mataram pessoas. Normalmente, as mais idosas, as mais debilitadas, as mais pobres, ou mesmo as que se envolvem no salvamento de outras pessoas e bens. Até quando vão ser necessárias mais excepções climáticas para mudar de atitude?
a.martins1@yahoo.com
* * * * * * * * * * * * * * * * * *
Fonte: Jornal de Notícias
Sem comentários:
Enviar um comentário