O alarme voltou ao Baixo Mondego, onde, desde os trágicos acontecimentos de 2001, continua a pairar uma inequívoca sensação de vulnerabilidade. O mau tempo dos últimos dias suscitou novas apreensões quanto à possibilidade da ocorrência de outras tragédias semelhantes às de então.
A fragilidade dos diques, que já obrigou o Instituto da Água a abrir concurso público tendo em vista a sua consolidação, faz realmente temer o pior. Neste momento, segundo os peritos, não aguentarão uma passagem de água superior a 800 metros cúbicos por segundo – o que, de modo algum, garante a indispensável preservação de vidas e bens, designadamente a jusante de Coimbra.
Já não há dúvidas: a Barragem da Aguieira deu uma falsa sensação de segurança às populações. Ajudou, é certo, a resolver alguns problemas, mas não faz milagres: apenas controla os caudais dos rios Mondego, Dão e Alva. Faltam, como tem sido frequentemente denunciado, outras obras complementares, entre elas a construção de uma segunda barragem, a montante daquela. Escasseia, ainda, uma manutenção atenta e empenhada das infra-estruturas existentes.
A auto-estrada para a Figueira da Foz, logo à saída de Montemor-o-Velho, apresenta diversas lombas, que estão sempre a aumentar. Ora, se assim é, o que dizer, realmente, dos diques, que foram, como se sabe, implantados sobre areias, logo, também sobre lamas? Nos últimos anos tem-se assistido, por outro lado, a um aumento significativo de residentes na área hidrográfica – o que jamais deveria ter acontecido. O leito de inundação do rio pertence ao rio. Quer dizer: as cheias são fenómenos naturais que têm de ser aceites como tal.
Ninguém conseguiu, até hoje, dominar completamente os rios. No vale do Tejo, instalou-se muita gente que acabou por adaptar-se ao vaivém das águas em zonas em que as inundações são mais frequentes do que no Mondego. As populações habituaram-se a dialogar ali com as cheias, aprenderam o que fazer em situações de perigo. Simplesmente, por cá, enraizou-se a ideia de que todos os riscos tinham sido eliminados, esquecendo que os rios apenas podem ser regularizados durante algum tempo – depois, vão depositando areias, inclusivamente nas próprias albufeiras das barragens, acabando assim, também elas, por perder capacidade de retenção da água.
A cheia do Mondego em 2001 foi uma cheia rara, convenhamos, que só poderá ser comparada à de 1962, mas deveria ter suscitado, ainda assim, alguma reflexão a quem de direito. Importa, de facto, atendendo, até, às alterações climáticas que se têm vindo a registar, senão repensar todo o projecto de regularização do caudal torrencial do rio, acudir, pelo menos, aos "rombos" detectados no projecto. O presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho defende a criação de uma entidade de gestão para o Mondego que inclua todas as valências. Será que uma experiência desse tipo não tem interesse?...
Soares Rebelo
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Fonte: As Beiras On Line
A fragilidade dos diques, que já obrigou o Instituto da Água a abrir concurso público tendo em vista a sua consolidação, faz realmente temer o pior. Neste momento, segundo os peritos, não aguentarão uma passagem de água superior a 800 metros cúbicos por segundo – o que, de modo algum, garante a indispensável preservação de vidas e bens, designadamente a jusante de Coimbra.
Já não há dúvidas: a Barragem da Aguieira deu uma falsa sensação de segurança às populações. Ajudou, é certo, a resolver alguns problemas, mas não faz milagres: apenas controla os caudais dos rios Mondego, Dão e Alva. Faltam, como tem sido frequentemente denunciado, outras obras complementares, entre elas a construção de uma segunda barragem, a montante daquela. Escasseia, ainda, uma manutenção atenta e empenhada das infra-estruturas existentes.
A auto-estrada para a Figueira da Foz, logo à saída de Montemor-o-Velho, apresenta diversas lombas, que estão sempre a aumentar. Ora, se assim é, o que dizer, realmente, dos diques, que foram, como se sabe, implantados sobre areias, logo, também sobre lamas? Nos últimos anos tem-se assistido, por outro lado, a um aumento significativo de residentes na área hidrográfica – o que jamais deveria ter acontecido. O leito de inundação do rio pertence ao rio. Quer dizer: as cheias são fenómenos naturais que têm de ser aceites como tal.
Ninguém conseguiu, até hoje, dominar completamente os rios. No vale do Tejo, instalou-se muita gente que acabou por adaptar-se ao vaivém das águas em zonas em que as inundações são mais frequentes do que no Mondego. As populações habituaram-se a dialogar ali com as cheias, aprenderam o que fazer em situações de perigo. Simplesmente, por cá, enraizou-se a ideia de que todos os riscos tinham sido eliminados, esquecendo que os rios apenas podem ser regularizados durante algum tempo – depois, vão depositando areias, inclusivamente nas próprias albufeiras das barragens, acabando assim, também elas, por perder capacidade de retenção da água.
A cheia do Mondego em 2001 foi uma cheia rara, convenhamos, que só poderá ser comparada à de 1962, mas deveria ter suscitado, ainda assim, alguma reflexão a quem de direito. Importa, de facto, atendendo, até, às alterações climáticas que se têm vindo a registar, senão repensar todo o projecto de regularização do caudal torrencial do rio, acudir, pelo menos, aos "rombos" detectados no projecto. O presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho defende a criação de uma entidade de gestão para o Mondego que inclua todas as valências. Será que uma experiência desse tipo não tem interesse?...
Soares Rebelo
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Fonte: As Beiras On Line
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