Filipe Duarte Santos, professor catedrático de física e ambiente, entende que a atitude das autoridades, ao não divulgarem os dados sobre o total de vítimas das cinco ondas de calor do ano passado, estimado em cerca de dois mil mortos, contraria o compromisso assumido perante a Organização Mundial de Saúde – que as obriga a exporem “uma verdade inconveniente” .
Correio da Manhã – Como caracteriza o ano que passou perante a tendência de aquecimento resultante das alterações climáticas?
Filipe Duarte Santos – Foi um ano bastante excepcional, em que se registaram cinco ondas de calor entre Maio e Setembro, numa situação anómala e que vai de encontro ao aumento gradual das temperaturas. A nível mundial, 2006 foi um ano bastante quente, sendo um dos seis mais quentes de sempre e todos eles verificaram-se nos últimos dez anos.
– Houve ainda o facto de Outubro e Novembro terem sido meses muito chuvosos...
– Verifica-se que, com as alterações climáticas, há uma maior ocorrência de fenómenos climáticos extremos. Nomeadamente, a precipitação concentra-se em períodos mais curtos, com o consequente risco de cheias.
– Observações dos dados meteorológicos dos últimos anos revelam Invernos mais secos?
– Dados fornecidos pelos institutos de Meteorologia e da Água permitem-nos concluir que, nas últimas quatro décadas, choveu menos entre Janeiro e Março. E a menor precipitação verifica-se em particular sobretudo neste último mês.
– Nevou em Janeiro de 2006 em Lisboa, o que não ocorria há cerca de meio século. Como é isto possível?
– Não se pode atribuir um valor muito importante, a nível estatístico, à neve que ocorreu em Janeiro. É um episódio raro que não nos revela uma tendência, ao contrário das ondas de calor no Verão que, pela sua frequência nos últimos anos, surgem como uma tendência para os próximos anos.
– Cientistas britânicos estimam em 60 por cento as possibilidades de 2007 ser o ano mais quente de sempre. Esta previsão é possível de realizar para o território português?
– Não. Essa é uma projecção, ou previsão, feita ao nível da temperatura de todo o Planeta e não é possível determinar para um pequeno espaço geográfico, como Portugal, se o tempo será ou não mais quente.
– Há, no entanto, essa tendência?
– Houve na última década um aquecimento global da ordem dos 0,2 graus. Em Portugal Continental, menos exposto à influência de redução da temperatura provocada pelo mar, esse agravamento foi da ordem dos 0,4 graus.
– A erosão da costa provocada pelo mar, como neste momento se observa na Costa de Caparica, é resultado das alterações climáticas?
– A nossa costa é muito vulnerável à erosão. Uma das principais razões para esse facto tem origem no Homem e resultada de, a partir do século XIX, terem sido construídas barragens nos rios que desaguam em Portugal. Com a construção de barragens deixaram de ser transportados sedimentos desses rios.
À falta de sedimentos acrescenta-se o aumento do nível do mar, resultante do degelo dos glaciares e da dilatação da água resultante do aumento da temperatura.
– Como é possível fazer projecções para daqui a cem anos?
– São construídos por via informática modelos climáticos que consistem em simulações do sistema climático. Com base em informações que são fornecidas ao computador este efectua representações desde o passado ao presente e com projecções para o futuro.
Portugal não dispõe de tecnologia que lhe permita ter um computador deste tipo. No Mundo inteiro existirão 12 centros com informação deste nível.
– Quais são as projecções desses modelos climáticos para o nosso país?
– É projectado até final do século um aumento da temperatura média entre os 2º e os 4º. Esta variação fica, contudo, dependente de como será feita a redução dos gases poluentes. Existirão Verões mais longos, com temperaturas mais intensas, com um consequente maior número de ondas de calor que levam à morte de pessoas.
– Foi noticiado que morreram no último Verão no nosso país perto de duas mil pessoas, vítimas das ondas de calor. O número parece-lhe credível?
– É provável que esteja próximo do que aconteceu perante a extensão do período com temperaturas elevadas.
– O que pensa de não haver ainda um valor oficial do total de óbitos?
– A palavra que me ocorre é que é uma situação deplorável. Espero que o número oficial, de resto solicitado pela Organização Mundial de Saúde, venha em breve a ser divulgado. É importante, de acordo com as obrigações internacionais do nosso país, que esse dado seja divulgado.
– A instalação de ar condicionado em hospitais deve ser uma prioridade no combate às mortes?
– Sim. É importante manter os doentes em enfermarias com condições favoráveis. É, no entanto, uma solução dispendiosa e cabe ao Governo definir prioridades.
– ‘Uma Verdade Inconveniente’ é um documentário do antigo vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, que prevê o avanço do mar sobre Nova Iorque ou Xangai, neste século, se nada for feito para combater a poluição. É uma posição extremista?
– Penso que não. Al Gore esteve rodeado, para a concretização desse trabalho, por destacados cientistas. A questão das emissões de dióxido de carbono que hoje são produzidas prolonga-se no tempo, porque têm uma duração de cerca de um século até que sejam dissolvidas, na sua maior parte, nos oceanos e as restantes consumidas pelas plantas.
– Há correntes científicas que desvalorizam o papel da poluição nas mudanças climáticas...
– O efeito de estufa é um dos fenómenos mais bem conhecidos na ciência. São gases como o metano, o dióxido de carbono e o vapor de água que elevam a temperatura da Terra e impedem que os oceanos congelem. Com a industrialização, o homem passou a emitir grandes quantidades desses gases para a superfície da Terra, um aumento acompanhado pelo crescimento gradual das temperaturas.
Estas modificações climáticas estão a derreter os glaciares e a elevar o nível médio dos oceanos.
– Hoje, as mudanças climatéricas são observáveis numa vida humana...
– Qualquer pessoa com cerca de 50 anos percebe que hoje os Verões são mais quentes que há três décadas. Ou nos adaptamos a um Mundo mais quente, posição defendida pelos Estados Unidos, ou então escolhemos a solução europeia de reduzir a poluição.
– Também dedica a sua actividade científica aos planetas exteriores ao sistema solar...
– O primeiro planeta extra-solar foi detectado em 1995 e até agora foram descobertos várias dezenas. São todos eles gasosos e por isso não têm possibilidade de ter vida.
– A redução dos efeitos negativos das alterações climáticas passa por acordos a nível mundial, com o objectivo de poluir menos. Quais são as metas alcançáveis?
– A Comissão Europeia irá propor este ano uma redução das emissões de gases poluentes da ordem dos 30 por cento, para cumprir até 2020. E a meta a atingir em 2050 é uma redução de 50 por cento.
– É suficiente?
– Não. Mas, acontece que, a nível internacional, a Europa surge isolada. Ou seja, o governo federal dos Estados Unidos, numa posição que não é partilhada por todos os estados do país, recusa tomar medidas que penalizem o consumo de combustíveis, de forma a que não seja prejudicado o seu crescimento económico.
Depois, há todos os outros países em desenvolvimento que possuem perspectivas de crescimento baseado no consumo de energias baratas, como o carvão, para melhorarem as suas condições de vida.
– De que forma é feita a redução do consumo de combustíveis fósseis?
– Pelo menor uso do automóvel, incentivo ao uso dos transportes públicos, uso de lâmpadas mais económicas, melhor isolamento dos prédios para não libertarem energia, aposta nas energias renováveis são algumas das soluções. A questão da energia, como a da água, é central neste século. É preciso as pessoas interiorizaram que estes recursos não existem infinitamente.
Filipe Duarte Santos – Foi um ano bastante excepcional, em que se registaram cinco ondas de calor entre Maio e Setembro, numa situação anómala e que vai de encontro ao aumento gradual das temperaturas. A nível mundial, 2006 foi um ano bastante quente, sendo um dos seis mais quentes de sempre e todos eles verificaram-se nos últimos dez anos.
– Houve ainda o facto de Outubro e Novembro terem sido meses muito chuvosos...
– Verifica-se que, com as alterações climáticas, há uma maior ocorrência de fenómenos climáticos extremos. Nomeadamente, a precipitação concentra-se em períodos mais curtos, com o consequente risco de cheias.
– Observações dos dados meteorológicos dos últimos anos revelam Invernos mais secos?
– Dados fornecidos pelos institutos de Meteorologia e da Água permitem-nos concluir que, nas últimas quatro décadas, choveu menos entre Janeiro e Março. E a menor precipitação verifica-se em particular sobretudo neste último mês.
– Nevou em Janeiro de 2006 em Lisboa, o que não ocorria há cerca de meio século. Como é isto possível?
– Não se pode atribuir um valor muito importante, a nível estatístico, à neve que ocorreu em Janeiro. É um episódio raro que não nos revela uma tendência, ao contrário das ondas de calor no Verão que, pela sua frequência nos últimos anos, surgem como uma tendência para os próximos anos.
– Cientistas britânicos estimam em 60 por cento as possibilidades de 2007 ser o ano mais quente de sempre. Esta previsão é possível de realizar para o território português?
– Não. Essa é uma projecção, ou previsão, feita ao nível da temperatura de todo o Planeta e não é possível determinar para um pequeno espaço geográfico, como Portugal, se o tempo será ou não mais quente.
– Há, no entanto, essa tendência?
– Houve na última década um aquecimento global da ordem dos 0,2 graus. Em Portugal Continental, menos exposto à influência de redução da temperatura provocada pelo mar, esse agravamento foi da ordem dos 0,4 graus.
– A erosão da costa provocada pelo mar, como neste momento se observa na Costa de Caparica, é resultado das alterações climáticas?
– A nossa costa é muito vulnerável à erosão. Uma das principais razões para esse facto tem origem no Homem e resultada de, a partir do século XIX, terem sido construídas barragens nos rios que desaguam em Portugal. Com a construção de barragens deixaram de ser transportados sedimentos desses rios.
À falta de sedimentos acrescenta-se o aumento do nível do mar, resultante do degelo dos glaciares e da dilatação da água resultante do aumento da temperatura.
– Como é possível fazer projecções para daqui a cem anos?
– São construídos por via informática modelos climáticos que consistem em simulações do sistema climático. Com base em informações que são fornecidas ao computador este efectua representações desde o passado ao presente e com projecções para o futuro.
Portugal não dispõe de tecnologia que lhe permita ter um computador deste tipo. No Mundo inteiro existirão 12 centros com informação deste nível.
– Quais são as projecções desses modelos climáticos para o nosso país?
– É projectado até final do século um aumento da temperatura média entre os 2º e os 4º. Esta variação fica, contudo, dependente de como será feita a redução dos gases poluentes. Existirão Verões mais longos, com temperaturas mais intensas, com um consequente maior número de ondas de calor que levam à morte de pessoas.
– Foi noticiado que morreram no último Verão no nosso país perto de duas mil pessoas, vítimas das ondas de calor. O número parece-lhe credível?
– É provável que esteja próximo do que aconteceu perante a extensão do período com temperaturas elevadas.
– O que pensa de não haver ainda um valor oficial do total de óbitos?
– A palavra que me ocorre é que é uma situação deplorável. Espero que o número oficial, de resto solicitado pela Organização Mundial de Saúde, venha em breve a ser divulgado. É importante, de acordo com as obrigações internacionais do nosso país, que esse dado seja divulgado.
– A instalação de ar condicionado em hospitais deve ser uma prioridade no combate às mortes?
– Sim. É importante manter os doentes em enfermarias com condições favoráveis. É, no entanto, uma solução dispendiosa e cabe ao Governo definir prioridades.
– ‘Uma Verdade Inconveniente’ é um documentário do antigo vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, que prevê o avanço do mar sobre Nova Iorque ou Xangai, neste século, se nada for feito para combater a poluição. É uma posição extremista?
– Penso que não. Al Gore esteve rodeado, para a concretização desse trabalho, por destacados cientistas. A questão das emissões de dióxido de carbono que hoje são produzidas prolonga-se no tempo, porque têm uma duração de cerca de um século até que sejam dissolvidas, na sua maior parte, nos oceanos e as restantes consumidas pelas plantas.
– Há correntes científicas que desvalorizam o papel da poluição nas mudanças climáticas...
– O efeito de estufa é um dos fenómenos mais bem conhecidos na ciência. São gases como o metano, o dióxido de carbono e o vapor de água que elevam a temperatura da Terra e impedem que os oceanos congelem. Com a industrialização, o homem passou a emitir grandes quantidades desses gases para a superfície da Terra, um aumento acompanhado pelo crescimento gradual das temperaturas.
Estas modificações climáticas estão a derreter os glaciares e a elevar o nível médio dos oceanos.
– Hoje, as mudanças climatéricas são observáveis numa vida humana...
– Qualquer pessoa com cerca de 50 anos percebe que hoje os Verões são mais quentes que há três décadas. Ou nos adaptamos a um Mundo mais quente, posição defendida pelos Estados Unidos, ou então escolhemos a solução europeia de reduzir a poluição.
– Também dedica a sua actividade científica aos planetas exteriores ao sistema solar...
– O primeiro planeta extra-solar foi detectado em 1995 e até agora foram descobertos várias dezenas. São todos eles gasosos e por isso não têm possibilidade de ter vida.
– A redução dos efeitos negativos das alterações climáticas passa por acordos a nível mundial, com o objectivo de poluir menos. Quais são as metas alcançáveis?
– A Comissão Europeia irá propor este ano uma redução das emissões de gases poluentes da ordem dos 30 por cento, para cumprir até 2020. E a meta a atingir em 2050 é uma redução de 50 por cento.
– É suficiente?
– Não. Mas, acontece que, a nível internacional, a Europa surge isolada. Ou seja, o governo federal dos Estados Unidos, numa posição que não é partilhada por todos os estados do país, recusa tomar medidas que penalizem o consumo de combustíveis, de forma a que não seja prejudicado o seu crescimento económico.
Depois, há todos os outros países em desenvolvimento que possuem perspectivas de crescimento baseado no consumo de energias baratas, como o carvão, para melhorarem as suas condições de vida.
– De que forma é feita a redução do consumo de combustíveis fósseis?
– Pelo menor uso do automóvel, incentivo ao uso dos transportes públicos, uso de lâmpadas mais económicas, melhor isolamento dos prédios para não libertarem energia, aposta nas energias renováveis são algumas das soluções. A questão da energia, como a da água, é central neste século. É preciso as pessoas interiorizaram que estes recursos não existem infinitamente.
* * *
"FUTURO COMPLICADO NO MEDITERRÂNEO"
"FUTURO COMPLICADO NO MEDITERRÂNEO"
As alterações climáticas que resultam num aumento das temperaturas produzem vantagens para certos países, referiu o investigador Filipe Duarte Santos. “No Canadá, com o degelo e o recuo da tundra, surgem novas áreas para exploração agrícola, o mesmo sucedendo na Escandinávia e também na Sibéria”, disse.
Diferente será a situação para os países da bacia do Mediterrâneo. “Para nós, tudo será mais complicado com o agravar do calor no Verão, a maior acção erosiva da costa provocada pelo mar e períodos de seca mais extensos”, acrescentou. “O aquecimento produz já hoje resultados.
Na Inglaterra, começam a ser plantadas com êxito vinhas e, na Alemanha, os vinhos produzidos registam uma melhoria da qualidade”, disse. Os ganhos obtidos parecem, no entanto, para a comunidade científica, não compensarem os danos, perante o avanço do mar que, até final do século, caso não haja uma redução das emissões de gases poluentes, coloca em perigo Nova Iorque, Amesterdão, Xangai e Calcutá.
Há 75 milhões de anos não havia calotes polares mas o mar estava 60 metros acima do seu nível actual.
FUTURO - É possível fazer projecções com rigor científico construindo, em computador, modelos climáticos que permitam simulações da evolução do sistema climático. No entanto, Portugal não dispõe de tecnologia que permita ter um computador capaz de fazer esses estudos. No Mundo inteiro haverá uma dúzia de centros de investigação com essa capacidade.
PERFIL - Filipe Duarte Santos nasceu em Lisboa, há 64 anos. É professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e rege disciplinas nas áreas de Física, Ambiente e Alterações Globais. Professor convidado de universidades dos EUA e da Europa, é coordenador do projecto ‘SIAM – Mudanças Climáticas em Portugal. Cenários, Impactos e Medidas de Adaptação’. É gestor para a área do Desenvolvimento Sustentável e membro efectivo da Academia das Ciências de Lisboa.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Fonte: Jornal Correio da Manhã
Diferente será a situação para os países da bacia do Mediterrâneo. “Para nós, tudo será mais complicado com o agravar do calor no Verão, a maior acção erosiva da costa provocada pelo mar e períodos de seca mais extensos”, acrescentou. “O aquecimento produz já hoje resultados.
Na Inglaterra, começam a ser plantadas com êxito vinhas e, na Alemanha, os vinhos produzidos registam uma melhoria da qualidade”, disse. Os ganhos obtidos parecem, no entanto, para a comunidade científica, não compensarem os danos, perante o avanço do mar que, até final do século, caso não haja uma redução das emissões de gases poluentes, coloca em perigo Nova Iorque, Amesterdão, Xangai e Calcutá.
Há 75 milhões de anos não havia calotes polares mas o mar estava 60 metros acima do seu nível actual.
FUTURO - É possível fazer projecções com rigor científico construindo, em computador, modelos climáticos que permitam simulações da evolução do sistema climático. No entanto, Portugal não dispõe de tecnologia que permita ter um computador capaz de fazer esses estudos. No Mundo inteiro haverá uma dúzia de centros de investigação com essa capacidade.
PERFIL - Filipe Duarte Santos nasceu em Lisboa, há 64 anos. É professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e rege disciplinas nas áreas de Física, Ambiente e Alterações Globais. Professor convidado de universidades dos EUA e da Europa, é coordenador do projecto ‘SIAM – Mudanças Climáticas em Portugal. Cenários, Impactos e Medidas de Adaptação’. É gestor para a área do Desenvolvimento Sustentável e membro efectivo da Academia das Ciências de Lisboa.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Fonte: Jornal Correio da Manhã
Sem comentários:
Enviar um comentário