Os incêndios que deflagraram hoje
no concelho de Gondomar deixaram uma marina, vários barcos, carros, casas e
pessoas em perigo e o céu transformado numa nuvem gigante que ao fim da tarde
cobria tudo de cinzas. Foram tantas as frentes de fogo do incêndio que começou
ao início da manhã e se concentrou sobretudo nas freguesias de Foz do Sousa e
Covelo que, pelas 18:00, o comandante das operações de socorro, Elísio
Oliveira, ainda não conseguia contabilizá-las, tal como aos meios e homens
destacados para combater o fogo ou aos danos materiais e área ardida.
"Ficámos cercados de fumo e
fogo, tivemos de abandonar a casa. Trouxemos a roupa do corpo e o carro, mais
nada. Foi o pânico, nem é bom pensar no que passei. É para ficarmos traumatizados,
isto apaga de um lado e acende do outro", disse à Lusa Adelaide Grilo, uma
das pessoas da freguesia de Covelo que teve de abandonar a casa na rua do
Carvalhal. A mulher, de 53 anos, viu-se durante a manhã cercada pelas chamas e
a meio da tarde andava outra vez com o coração nas mãos e os nervos à flor da
pele porque o marido saiu do café da Associação Cultural de Leverinho para
acudir aos populares que, com as próprias mãos, tentavam impedir o fogo que
descia a encosta de chegar a uma casa ali ao lado.
Foi uma agonia também para a
proprietária da habitação, Arménia Ramos, de 61 anos, quando, pelas 17:00, um
vento mais forte acicatou as chamas encosta abaixo, em direcção à casa, situada
na rua do Carvalhal, mas também à associação e ao Pavilhão Gimnodesportivo
Municipal do Covelo, no lugar de Leverinho. "Onde é que está o bombeiro
que disse que o fogo não chegava a minha casa?", indignava-se a filha,
enquanto a restante família se dividia entre alertas e pedidos de ajuda aos
bombeiros do posto de comando instalado ali ao lado e o combate às chamas com a
ajuda de uma pequena mangueira e ramos de árvores.
Foi até ao limite o esforço, numa
meia hora de angústia, o céu coberto de fumo, o ar irrespirável, e só quando a
água começou a falhar e o fogo estava mesmo a chegar à casa é que chegaram os
bombeiros para controlar a situação. "Nesta vinha está plantado vinho de
qualidade, Loureiro, e está tudo a arder agora que estava pronto a colher. E
olhe o meu azar, estava em negócio para vender estes eucaliptos todos. Durante
muito tempo os meus dois sobrinhos foram os únicos a apagar, não andava ali um
único bombeiro", descreveu Arménia Ramos em declarações à Lusa.
"Para que te foste meter
ali", perguntava uns minutos depois Adelaide Grilo ao marido coberto de
cinzas, ainda uma pilha de nervos, antes daquilo tudo foi a casa e voltou
devido ao alerta de que o incêndio andava outra vez a rondar o Carvalhal. Cerca
de duas horas antes, do lado de lá da rua 29 de Julho, na lagoa da Lixa, Foz do
Sousa, ardia a floresta toda quase até à água. Do outro lado do monte
afligia-se toda a gente junto à marina da Lixa, que ficou envolva numa nuvem de
fumo e faúlhas enquanto as pessoas regavam barcos e carros ou os levavam para
longe enquanto era possível.
Ao mesmo tempo, num cenário
dantesco, as chamas desciam junto à rua de Reboredo até à estrada 29 de Julho,
bem próximo do comando operacional de Leverinho. Minutos depois era um perigo
passar por ali, com pedras a deslizarem sozinhas pela terra queimada até ao
asfalto. A meio da tarde, com o fogo a reacender-se na serra das Flores, o
concelho começou a ficar sem acessos, depois das chamas terem cortado a auto-estrada
e a estrada marginal, indicou aos jornalistas Fernando Paulo, vereador da
Câmara de Gondomar, junto ao posto de comando instalado em Leverinho, próximo
do Pavilhão de Covelo.
Pelas 18:00 as assistentes
sociais recebiam a indicação de que podiam abandonar o local porque já não
existiam casas em perigo, mas o céu continuou a ser cruzado por uma barulheira
infernal de helicópteros e aviões. O comandante operacional destacava,
entretanto, vários bombeiros já muito enfarruscados e cansados para
reconhecimento do terreno, e admitiu que o trabalho no concelho demoraria ainda
muitas horas.
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Fonte: Porto Canal
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