segunda-feira, 5 de março de 2007

872. MUDANÇA CLIMÁTICA: É tema político ou não ?

Embora se tente não empregar o termo fracasso, não há outro para qualificar o segundo encontro sobre o Protocolo de Kyoto realizado em Nairobi. Kofi Annan, no momento de se despedir como secretário-geral da ONU, acreditou que uma "pavorosa falta de liderança" se evidenciou na capital do Quénia. Duas semanas de diálogo entre 190 países se desenrolaram bem, enquanto predominaram os pormenores mais ou menos académicos sobre os perigos e prejuízos ao meio ambiente, mas, naufragaram na hora de conseguir uma elevada contribuição das nações ricas para ajudarem a África a combater o problema, pois além de ser verdade que é uma das regiões que menos contamina, é uma das mais prejudicadas por causa das mudanças climáticas.
A questão é que sem a decisão dos governos, sobretudo daqueles que mais contaminam, torna-se impossível avançarmos no projecto de reduzir as emissões que prejudicam a atmosfera e que estão mudando o clima global e é claro, introduzem mudanças no desempenho dos seres humanos.
Neste encontro são inúmeros os estudos muito bem documentados que deviam ter mobilizado mesmo aqueles mais remissos no tema.
O conhecido pelo nome de Stern, chefiado por um assessor do governo britânico, indica que os impactos económicos provocados pelo aquecimento global, prejudicarão em 20% toda a economia do planeta, se não agirmos consequentemente.
Por exemplo, entidades ecologistas citam que no próprio país sede desta palestra, as mudanças já provocaram perdas de 10 milhões de cabeças de gado em cada estiagem, enquanto milhares de refugiados somalis atravessaram a fronteira por causa das enchentes.
Estes contrastes aparecem noutras áreas do mundo com consequências semelhantes, com propensão a aumentarem, apesar de sabermos que se fosse destinado apenas 1% do PIB mundial poderia se evitar.
Os dois pontos altos da incipiente luta para evitarmos retornar, são a Convenção do Clima em 1992, antecedente destacado para a posterior assinatura dum grupo de nações do Protocolo de Kyoto em 1997, em vigor desde 2005, e que estabelece o compromisso de reduzir a emissão de seis gases de efeito estufa em 5% em relação às emissões de 1990.
Acreditava-se que a convenção recentemente encerrada com pouco sucesso no Quénia conseguisse compromissos efectivos e planos a serem cumpridos, visando a desenvolver um pacto mais forte a partir de 2012 e fixar na consciência colectiva (sobretudo daqueles políticos que podem influenciar ou decidir dentro das economias) o critério de que não falta muito para que os autuais padrões energéticos não sejam mais rentáveis. Quer dizer, falando em termos de conveniência, e até financeira, é mais barato fazer face ao problema do que sofrer as consequências.
Também há grandes problemas que devem ser esclarecidos, como por exemplo, que as nações pobres não têm muitas possibilidades de realizarem trocas tecnológicas necessárias, e também não podem implementar novos sistemas na obtenção de energia limpa, ainda muito caras. Poluem menos, mas são obrigados a usarem mecanismos que as próprias nações poluidoras, como os Estados Unidos, nem sequer pensam em aplicar, apesar de prejudicarem os outros.
Precisamos de uniões e de equilíbrios. De decisão e de possibilidades, às vezes, impossíveis de serem atingidas.
E isto é muito grave porque já há fontes alimentares que começam a esgotar-se. Boris Worm, da Universidade Dalhousie, no Canadá, afirma que um terço das espécies marinhas já se esgotaram por causa da exploração excessiva que impede sua reprodução, segundo seus ciclos naturais e também por causa dos apetrechos empregados na captura.
Segundo o critério dele e de outros oceanólogos, se não forem aplicadas logo medidas correctivas, em apenas 50 anos sumirão os peixes e já se reparam em sintomas evidentes. O estudo que mostra tão sombrias perspectivas, foi realizado por importantes cientistas europeus e norte-americanos em parceria com experientes grupos, visando a analisar todas as áreas marinhas do mundo.
"Os políticos precisam seguir os conselhos dos cientistas e reforçar as vedações, observar minuciosamente a pesca e realizar investimentos na manutenção do que resta. Se não fizermos alguma coisa agora, em trinta anos ficaremos sem vida marinha e o peixe é um dos alimentos mais sadios na dieta humana e de muitos outros animais.
Os cientistas poderiam parecer exagerados numa dado momento, mas estão certos quando enfatizam a urgência de atendermos estes problemas que levam pouco a pouco às calamidades, como o aumento excessivo da temperatura que acarreta fenómenos potencialmente irreversíveis e mesmo catastróficos (a fusão da Groenlândia ou a modificação da corrente termolábil) explicam suas advertências.
A insistência em agirmos de jeito coordenado, e por decisão dos estados, é porque assuntos de larga envergadura não podem ficar à decisão dalguns nem dos interesses dum grupo qualquer.
Se a auto-exclusão de nações importantes provoca grandes prejuízos e "autoriza" outros a ignorarem os acordos, o fato de que os propósitos atingidos se atolem ou recuem, significa enormes e definitivos perigos.
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Fonte: Granma

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