BLOG DE INFORMAÇÃO SOBRE O ESTADO DO TEMPO E METEOROLOGIA. Todos os valores referentes a dados meteorológicos que são publicados neste blog carecem de homologação por parte das respectivas fontes. Reprodução autorizada mediante indicação da fonte original, desde que não se destine ao uso comercial ou se destine a actividades ilícitas. PARA PREVISÕES METEOROLÓGICAS OFICIAIS CONSULTE O SITE DO INSTITUTO PORTUGUÊS DO MAR E DA ATMOSFERA (https://www.ipma.pt/pt/index.html) Email: ludbrioa@hotmail.com
A Protecção Civil aumentou este
domingo o nível de perigo de incêndio até ao fim da próxima semana. De acordo
com a Autoridade Nacional de Protecção Civil o tempo seco e quente é propício à
existência de fogos rurais. A intensificação do vento também é uma das
preocupações das autoridades. Sete distritos encontram-se em alerta laranja. "Na
sequência da informação meteorológica disponibilizada pelo Instituto Português
do Mar e da Atmosfera (IPMA), a partir de hoje, 30 de Setembro, e até ao final
da próxima semana, assistiremos à continuação de tempo seco e quente, com
temperatura em valores acima da média para esta época do ano, intensificação do
vento de quadrante leste e agravamento evolutivo do risco de incêndio”.
De acordo com a Protecção Civil a
continuação do tempo quente, apesar da descida da temperatura, pode dar aso a
uma maior “disponibilidade do combustível florestal”, havendo uma grande
preocupação com a propagação rápida de chamas. Alexandre Penha, da Protecção
Civil, disse, em declarações à RTP 3, que existe uma grande preocupação com a
intensificação do vento seco do quadrante leste e com a falta de humidade nos
combustíveis, que podem ajudar a propagar incêndios com maior facilidade.
Devido ao tempo seco que se vai
fazer sentir na primeira quinzena de Outubro, os distritos do Porto, Braga,
Bragança, Viana do Castelo, Vila Real, Guarda e Viseu encontram-se com um
alerta especial laranja, enquanto o restante território do continente está com
alerta amarelo. Com o período crítico a ser prolongado até 15 de Outubro, a
Autoridade Nacional da Protecção Civil lembrou que têm de ser tomadas medidas
preventivas para mão haver propagação de incêndios. As autoridades pedem que
não se realizem queimadas ou fogueiras com finalidades de lazer, como é a confecção
de alimentos.
A Protecção Civil pediu também
que não seja realizado o lançamento de foguetes e que não se fume em locais de
floresta. A utilização de máquinas agrícolas durante o período de maior calor
também uma das medidas que as autoridades querem evitar. Na terça-feira, o
Governo informou que decidiu prolongar até 15 de Outubro o período crítico de
incêndios no âmbito do Sistema de Defesa da Floresta Contra Incêndios devido às
circunstâncias meteorológicas expectáveis para a primeira quinzena de Outubro.
Tarde com instabilidade nas regiões do interior, com aguaceiros e trovoadas dispersas associados a desenvolvimento de nebulosidade convectiva; neblina ou nebulosidade baixa na faixa litoral ocidental.
Tendência climática para o terceiro trimestre de 2018 * *
*
TEMPERATURAS MÁXIMAS DIÁRIAS
Regiões com maior
probabilidade de virem a registar um maior número de dias com temperaturas máximas diárias superiores aos valores máximos normais
deste trimestre.
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TEMPERATURAS MÍNIMAS
DIÁRIAS
Regiões com maior
probabilidade de virem a registar um maior número de dias com temperaturas mínimas diárias inferiores aos valores mínimos normais
deste trimestre.
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PRECIPITAÇÃO MÁXIMA
DIÁRIA
Regiões com maior
probabilidade de virem a registar um maior número de dias com precipitações máximas diárias superiores aos valores máximos diários
normais deste trimestre.
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================================ Prováveis regiões da Europa com valores INFERIORES
à média
O Governo decidiu prorrogar até
15 de Outubro o período crítico de incêndios, devido à previsão de temperaturas
"com valores acima do que é padrão" e à baixa probabilidade de
ocorrência de precipitação, anunciou esta terça-feira o Ministério da
Agricultura.
Segundo uma nota do Ministério,
seguiu já para publicação em Diário da República o despacho do secretário de
Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural onde se explica que se trata de
"um prolongamento tendo em consideração as circunstâncias meteorológicas
prováveis para a primeira quinzena de Outubro, de temperaturas com valores
acima do que é o padrão para a época, uma baixa probabilidade de ocorrência de
precipitação e porque o território nacional se encontra em níveis elevados de
valores de severidade meteorológica diária acumulada".
Face a esta situação, o executivo
prevê "uma manutenção do risco de incêndio rural em níveis elevados".
Em conferência de imprensa esta
terça-feira, a Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) avançou que o
risco de incêndio rural vai permanecer "muito elevado" nos próximos
dias. O alerta laranja (segundo mais grave de uma escala de cinco) mantém-se
até às 14h de quarta-feira, quando será feita uma nova análise e decidida qual
a tipologia de alerta para os próximos dias, disse o comandante nacional de
operações e socorro, Duarte Costa.
Nas últimas 72 horas registou-se
um aumento das ocorrências de fogo, assim como um aumento dos incêndios
"de maior complexidade", disse Duarte Costa. "Acentua-se a
tendência para o aumento da frequência de fenómenos extremos, e fora de época,
nomeadamente susceptíveis de originarem grandes incêndios rurais."
Durante o período crítico de
incêndios, nos espaços florestais ou agrícolas, é proibido fumar, fazer lume ou
fogueiras; fazer queimadas; lançar foguetes e balões de mecha acesa; fumigar ou
desinfestar apiários, salvo se os fumigadores estiverem equipados com
dispositivos de retenção de faúlhas; fazer circular tractores, máquinas e
veículos de transporte pesados que não possuam extintor, sistema de retenção de
fagulhas ou faíscas e tapa-chamas nos tubos de escape ou chaminés.
"Face às condições descritas,
considera-se necessário continuar a adoptar as medidas e acções especiais de
prevenção de incêndios florestais, que decorrem durante o período crítico, no
âmbito do Sistema de Defesa da Floresta contra Incêndios", refere a nota.
Uma floresta
diversificada é menos afectada por incêndios e também reage melhor a períodos
de seca, indica um estudo publicado na revista Nature. Investigadores liderados
pelo biólogo William Anderegg, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos,
concluíram que uma floresta com uma grande variedade de árvores e de
características diversas relacionadas com o fluxo da água sofre menos com os
períodos de seca.
Os resultados da pesquisa aprofundam investigações já feitas nesta matéria e,
diz-se no estudo, podem ser úteis para os gestores florestais e para quem tem
de reconstruir florestas após grandes incêndios. De acordo com Anderegg, a
diversidade na forma como a água é usada pela floresta é um factor predominante
sobre como essa floresta reage a períodos de seca.
As
características hidráulicas de uma árvore são a forma como essa árvore move a
água por todo o organismo, o que fará que tenha, por exemplo, níveis diferentes
de reagir e suportar uma seca até todo o sistema colapsar. O estudo agora
divulgado analisou não o indivíduo, mas todo o ecossistema. Anderegg e os
restantes investigadores, incluído responsáveis das universidades de Stanford,
Princeton e Califórnia, analisaram dados de 40 zonas florestais de todo o mundo
aos quais juntaram dados já analisados e informação recolhida por satélite,
todos coincidentes na ideia de que as secas não têm o mesmo efeito numa
floresta hidraulicamente diversa do que numa com árvores do mesmo tipo.
A diversidade,
explica Anderegg no artigo, leva a que se multipliquem os tipos de árvores, de
madeira mais ou menos tolerante à seca, de raízes a diferentes profundidades e
com diversas fontes de água. “Mais diversidade numa paisagem vai ajudar a
floresta a ser mais resistente ao fogo”, diz também Anderegg, acrescentando que
as mesmas condições climatéricas que levam às secas também estão na origem de
muitos incêndios.
Mais de três
décadas passadas após a assinatura do Protocolo de Montreal em 1987, começamos
a verificar sinais de uma aparente recuperação do ozono estratosférico. O
Protocolo de Montreal foi o primeiro tratado ambiental à escala global da
história e tem como objectivo acabar com a produção das substâncias que
destroem a Camada de Ozono.
Entre as
substâncias que destroem o ozono na estratosfera, encontram-se os
clorofluorocarbonetos (CFC). O desenvolvimento tecnológico permitiu a
substituição rápida destas substâncias por outras que não destruíssem o ozono
estratosférico: os hidrofluorocarbonetos (HFC).
A redução dos
CFC na estratosfera foi um sucesso. Contudo, os HFC são também gases com efeito
de estufa, com um potencial de aquecimento milhares de vezes superior ao do
dióxido de carbono, contribuindo também para o aquecimento global. Paradoxalmente,
estes gases são muito utilizados na indústria do arrefecimento e naturalmente a
sua procura será ainda maior num clima mais quente.
Neste contexto,
em Outubro de 2016 foi acordado em Kigali (Ruanda) a redução faseada da
produção destes gases: a Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal. O
cumprimento do Protocolo de Montreal foi colocado em causa recentemente após a
notícia de que algumas fábricas estariam a produzir CFC ilegalmente.
É por isso
imperativo continuar os programas de vigilância da Atmosfera, com vista a
acompanhar a evolução da Camada de Ozono bem como para detectar desvios ao
cumprimento do Protocolo de Montreal que comprometam a sua recuperação. Este
acompanhamento é feito principalmente com satélites especiais, cujos resultados
são regularmente comparados e validados com observações de superfície.
Para o efeito, o
IPMA participa no esforço global de monitorização da Camada de Ozono
contribuindo com duas estações de superfície, equipadas com espectrofotómetros.
Neste sentido, estes espectrofotómetros participam com outros equipamentos do
mesmo tipo e de outras instituições em campanhas de intercomparação, com vista
a controlar as calibrações dos vários instrumentos.
O ozono é também
um gás climático e por isso a sua monitorização é relevante no contexto de um
Clima em mudança.
A conjugação entre as tempestades
tropicais HELENE e JOYCE influencia o desenvolvimento de linhas de
instabilidade que afectam o estado do tempo no Arquipélago dos Açores. O surgimento
de uma linha de instabilidade a sul do arquipélago, em deslocamento para
nordeste, irá condicionar o estado do tempo esta tarde no Grupo Oriental (ilhas
de São Miguel e Santa Maria); o desenvolvimento de nebulosidade convectiva dará
origem a períodos de chuva ou aguaceiros, por vezes e acompanhados de trovoadas
dispersas.
A tempestade tropical HELENE encontrava-se, às 22h00, a noroeste do Grupo Ocidental do Arquipélago dos Açores; a sua trajectória faz-se para nordeste, afastando-se claramente do Arquipélago dos Açores.
Final de tarde com instabilidade associada ao desenvolvimento de nebulosidade convectiva nas regiões do sueste do território de Portugal Continental (margem esquerda do rio Guadiana).
O IPMA informa que às 21:00UTC (hora dos
Açores), o centro do FURACÃO HELENE, localizava-se a 2435 km a SSW dos
Açores. O ciclone está a deslocar-se para NW a 19 km/h, devendo nos
próximos dias a sua trajectória alterar-se para NNE, pelo que existe a
possibilidade do arquipélago dos Açores sofrer a influência deste
ciclone a partir de sábado (15 de Setembro). Neste momento a previsão da
sua trajectória indica que será mais provável atingir as ilhas do grupo
Ocidental.
O ciclone era às 21:00UTC, classificado como furacão de categoria 2,
com vento médio de 165 km/h no entanto, é expectável que a sua
intensidade diminua devido ao seu deslocamento para águas mais frias e,
nas próximas 36 horas se torne tempestade tropical.
Mais de uma
centena de ambientalistas portugueses e espanhóis exigiram hoje que o novo
Governo espanhol encerre a central nuclear de Almaraz, no decorrer de uma
manifestação em Mérida, sudoeste de Espanha.
A manifestação,
convocada pelo Foro Extremeño Antinuclear, com o apoio do Movimento Ibérico
Antinuclear (MIA), reuniu cerca de uma centena de activistas, segundo números
da polícia, junto ao Teatro Romano de Mérida, que acolhia uma iniciativa
inserida nas comemorações do "Dia da Extremadura".
Pedro Soares,
deputado do Bloco de Esquerda e presidente da Comissão de Ambiente na
Assembleia da República marcou presença no protesto e disse à agência Lusa que
o novo quadro político que está em funções em Espanha, liderado por Pedro
Sánchez (PSOE - socialista), deve "avançar rapidamente" para o
encerramento daquela central nuclear.
Na
noite de 25 para 26 de Novembro de 1967 mais de 500 pessoas morreram numa
enxurrada que arrasou as zonas mais pobres da região de Lisboa e Vale do Tejo.
Foi o maior desastre natural em Portugal desde o terramoto de 1755. A ditadura
de Salazar quis silenciar a tragédia, que marcou o despertar político de toda
uma geração.
Texto
Joana Pereira Bastos*, fotos de Eduardo Gageiro Muitos
já dormiam quando a desgraça chegou. Guilhermina, 16 anos, apagara o candeeiro
a petróleo pouco tempo antes e adormecera na cama de ferro, com a mão sobre a
barriga que guardava o filho a poucos meses de nascer. Era quase meia-noite e
faltavam cinco horas para se levantar e caminhar mais de cinco quilómetros até
à fábrica da conserveira nacional, onde descascava marmelos a troco de 20
escudos por mês. Nunca chegou a ir trabalhar. Acordou com os gritos do pai e
com o barulho de uma torrente de lama a entrar de rompante na pequena barraca
de lusalite onde viviam. Em segundos, a água, barrenta e viscosa, chegou-lhe à
cintura. Depois ao pescoço.
Com a ajuda do
pai, subiu para o guarda-vestidos e ergueu-se até ao telhado, graças ao vizinho
que, em seu auxílio, partira algumas telhas para a deixar sair. Atrás dela foi
a irmã Graça, de 6 anos, e a mãe, que carregava no colo um bebé de seis meses,
o último dos oito filhos. Há horas que não parava de chover. Tanto que o
pequeno rio da Costa, o estreito braço do Trancão onde todos os dias iam buscar
água para se lavarem, transbordara subitamente, engolindo muitas das barracas
da zona. A casa onde moravam duas irmãs de Guilhermina era das que ficavam mais
próximas do rio. Guilhermina chamava por elas o mais alto que conseguia, mas os
apelos perdiam-se no meio de tantos outros.
Destruição. A enxurrada matou famílias
inteiras. Mas ninguém até hoje sabe dizer o número total de vítimas
Eduardo Gageiro
A
escuridão era total. A inundação cortara a electricidade aos candeeiros que
iluminavam as ruas da Urmeira (Loures), um dos muitos bairros de lata que, na
década de 1960, se multiplicaram em todos os subúrbios de Lisboa. Com a camisa
de noite coberta de lama e de sangue, Guilhermina abraçou-se à mãe no cimo da
frágil barraca que a qualquer momento ameaçava desabar. Num ápice, a mãe
escorregou até à ponta do telhado e deixou cair o bebé que segurava nos braços.
Desesperada, quis lançar-se à água para o salvar, mas Guilhermina agarrou-a. A
mulher, que a miséria tornara velha em nova, ali ficou, enlouquecida de dor, a
berrar pelos filhos. E Guilhermina a gritar pelos irmãos.
“Ouvia-se um
barulho que parecia de metralhadoras. Era o som das casas a partirem-se e a
desabar. E ouviam-se muitos gritos. ‘Acudam, acudam’. Depois os gritos passaram
a gemidos. E ficaram cada vez mais sumidos até não se ouvir mais nada”, recorda
Guilhermina, hoje com 66 anos.
Depois de muito
tempo de escuridão, uma lanterna deixou finalmente ver a desgraça que só os
estrondos e os gritos deixavam adivinhar. O longo foco de luz tinha um alcance
de quase 200 metros, distância que separava Guilhermina e os outros
desesperados que pediam ajuda aos impotentes bombeiros que não os conseguiam
salvar. Entre uns e outros, erguera-se uma torrente de dor e morte feita de
lama e destroços que tornava impossível o resgate.
“Já estava a
ficar muito fraca de tanto gritar quando vi, ao longe, o foco de luz, que
corria o bairro todo. Só aí é que conseguimos ver a altura da água e a
destruição. Os bombeiros gritavam para termos calma. Diziam: ‘Agarrem-se, nós
já vamos buscar-vos’. Mas não vinham. Não podiam acudir-nos por causa da tromba
de água. E nós começámos a perder as forças”.
José Marques,
então com 31 anos, estava do outro lado da luz. Era ele que segurava a
lanterna. “Víamos as casas e ouvíamos as pessoas a gritar. Víamos a luz das
velas ou dos candeeiros a petróleo lá dentro e as casinhas a ir com a água.
Pareciam barcos. A maior parte desapareceu com a corrente. Famílias inteiras a
irem pelo rio abaixo e eu sem poder ir lá salvá-los. Se fôssemos para dentro de
água tínhamos ido também. Não podíamos fazer nada. Era deixá-los ir”. O
bombeiro do quartel de Odivelas não conteve as lágrimas na altura. Nem as
sustém agora, 50 anos passados, ao recordar a noite trágica de 25 para 26 de Novembro
de 1967.
A chuva que
naquele sábado caíra ao longo de todo o dia na região de Lisboa e Vale do Tejo
transformou-se em dilúvio ao anoitecer. Entre as 19h e as 24h choveu cerca de
um quinto de toda a precipitação média anual. Em minutos, rios e ribeiras
galgaram os leitos, ruindo prédios, desabando casas, derrubando pontes, aluindo
enormes massas de terra e arrastando com impiedosa violência tudo o que havia
pela frente.
A enxurrada
matou famílias inteiras. Como a família Garrido — Adelino, de 43 anos, e
Amélia, de 36, e os cinco filhos de 2, 5, 7, 9 e 10 anos, que moravam na Quinta
da Quintinha, na Póvoa de Santo Adrião. Ou a família Madureira — José e Maria e
a filha Conceição, de 9 anos, em Ribeira de Lage, Oeiras. Ou Maria do Céu
Patrocínio, mãe solteira de Alice, de 4 anos, e Maria de Jesus, de 1, que com ela
morreram em casa, na Venda Nova (Amadora). Ou os três irmãos Bártolo — Carlos,
de 3 anos, Graça de 2, e a bebé Paula de 3 meses, na aldeia de Lopas, em
Sintra. E uma lista de centenas de outros nomes que até hoje ninguém sabe dizer
onde termina.
“Foi o desastre
natural de maior dimensão que tivemos em Portugal a seguir ao terramoto de
1755”, explica o geógrafo e investigador da Universidade do Minho Francisco
Costa.
A ditadura nunca
permitiu que se soubesse o número exacto de mortos. A censura entrou em acção
praticamente desde o primeiro momento para evitar que a comoção geral se
transformasse numa crítica política ao regime de Salazar. Logo a 27 de Novembro,
um telegrama da Direcção da Censura frisava que era “conveniente ir atenuando a
história”. “Urnas e coisas semelhantes não adianta nada e é chocante. É altura
de acabar com isso”. Dois dias depois, a ordem dada aos jornais era mais
concreta: “Os títulos (das notícias) não podem exceder a largura de meia página
e vão à censura” e não era permitido fazer referência “ao mau cheiro dos
cadáveres”.
A contagem dos
mortos foi suspensa poucos dias após a tragédia. Os últimos números oficiais,
publicados nos jornais no início de Dezembro, davam conta de 462 vítimas
mortais. Depois disso, muitos corpos continuaram a aparecer. Nas conservatórias
dos concelhos mais afectados, como Loures e Odivelas, há dezenas de atestados
de óbito de pessoas mortas na enxurrada que só foram encontradas muito tempo
depois da última contagem. Algumas até em Janeiro. E muitas outras terão ido
parar ao Tejo e nunca chegaram a aparecer.
“Há vários
estudiosos que apontam para 700 mortos. Outros dizem que foram mais de 500.
Será um número entre esses dois valores. Infelizmente, não é possível saber”,
lamenta o geógrafo.
Não foi a chuva, foi a miséria – Naquela noite,
grande parte de Lisboa ficou inundada. A água irrompeu pelo Cinema Éden, nos
Restauradores, obrigando os 150 espectadores que assistiam ao filme na plateia
a refugiarem-se no balcão. Tiveram de esperar até à uma da manhã para serem
socorridos pelos bombeiros, que chegaram à sala em barcos de borracha. Na
Baixa, na Avenida da Liberdade, na Praça de Espanha, em Campolide, na Avenida
de Ceuta e em muitos outros locais só se passava de barco. Apesar da violência
do dilúvio, só houve registo de três mortos nos bairros residenciais da cidade.
E nenhum na zona abastada do Estoril, onde se atingiu o valor máximo de
precipitação.
Foi nos bairros
de lata à volta de Lisboa, como a Urmeira (Loures) ou a Quinta do Silvado
(Odivelas), erguidos clandestinamente pelos que fugiam à miséria do campo, que
a desgraça mais se abateu. E nas zonas pobres dos concelhos a norte da capital,
como Vila Franca de Xira, Alenquer ou Arruda dos Vinhos. Sem saneamento básico
nem canalizações, construíam-se barracas ou pequenas casas de adobe o mais
perto possível de rios e ribeiras, de que as populações dependiam diariamente
para ter água. Um dia, mais tarde ou mais cedo, o pior haveria de acontecer.
Era uma tragédia anunciada.
Apesar da
censura, o “Comércio do Funchal”, lido sobretudo pela juventude mais
politizada, apontou directamente o dedo às causas sociais da catástrofe, que o
regime forçara a atribuir exclusivamente à fatalidade natural. “Nós não
diríamos: foram as cheias, foi a chuva. Talvez seja mais justo afirmar: foi a
miséria, miséria que a nossa sociedade não neutralizou, que provocou a maioria
das mortes. Até na morte é triste ser-se miserável. Sobretudo quando se morre
por o ser”.
Como muitos dos
que moravam nos subúrbios de Lisboa, ou em grande parte do país, Manuel Júlio
dos Santos nascera assim. Com a pobreza colada à vida como o apelido se cola ao
nome. Tinha 10 anos e já trabalhava numa carpintaria, a apanhar do chão aparas
de madeira a troco de dois tostões por dia, para ajudar a mãe a criar a irmã, quatro
anos mais nova. Os três viviam na Ponte de Frielas (Loures), uma das zonas mais
atingidas pelas inundações, numa casa baixa e escura de uma única janela, tão
pequena que não cabiam duas camas. O rapaz tinha de dormir colado ao teto, num
sótão apertado onde não se podia pôr de pé. Foi esse sótão, improvisadamente
construído, que os salvou naquela noite.
Pobreza. Foi nos bairros de lata
erguidos clandestinamente à volta de Lisboa pelos que fugiam à miséria do campo
que a desgraça mais se abateu
Eduardo Gageiro
Emília,
a irmã de seis anos, dormia em baixo, na cama da mãe. Já se haviam deitado há
muito quando, por milagre ou fortuna do acaso, a menina acordou para ir à casa
de banho. Quando pôs os pés no chão, a água chegava-lhe aos joelhos. Só tiveram
tempo de se levantar e correr para junto de Manuel. Mal subiram, uma onda
espessa de mais de dois metros de lama entrou pela casa, derrubando as escadas
do sótão. Foi lá que se refugiaram os três, com a água a rasar-lhes os pés, a
ouvir o desespero da vizinha da frente, uma idosa acamada que não pôde fugir.
“Foi uma coisa
de segundos. Foi como se tivesse rebentado uma piscina e a água saiu toda.
Vinha água, lama, bocados de madeira que batiam contra os muros. Ouvíamos
animais a gritar e carros a serem arrastados e a bater nas paredes. E ouvíamos
os gritos horríveis da Dona Bárbara a morrer afogada”, recorda Manuel, hoje com
59 anos.
Se Emília não
tivesse acordado segundos antes, a menina e a mãe não teriam sequer tido tempo
de se levantar. Como os 14 homens que morreram na taberna ao fundo da rua.
Foram encontrados no dia seguinte, com os corpos feitos estátuas de lama, na exacta
posição em que se encontravam no momento em que o Trancão transbordou: sentados
a jogar às cartas nas mesas de madeira onde passavam as noites a beber.
Manuel, Emília e
a mãe esperaram toda a noite que a água baixasse para conseguirem saltar do
sótão. “Quando saímos era o horror. Havia galinhas, vacas e porcos mortos que
tinham sido trazidos pela água. Lembro-me de um autocarro de pernas para o ar,
todo cheio de lama e ainda com as pessoas lá dentro. Havia carroças, troncos de
árvores caídas, pessoas mortas, carros virados ao contrário. E muitas pessoas
sem nada, algumas inclusivamente nuas”, descreve.
Durante três
dias ninguém apareceu para ajudar quem tudo perdera. Nada restava das hortas
que antes cresciam junto às casas. Nem dos animais que criavam para comer.
Naquela zona todos se tinham habituado a enganar o estômago com caldos
engrossados a farinha e fatias de pão duro cobertas de bolor. Mas depois da
tragédia a fome apertou ainda mais. “Ao início, não tivemos auxílio nenhum.
Havia umas quintas aqui para cima que não tinham sofrido nada e íamos lá roubar
laranjas. Só assim conseguimos comer alguma coisa”, recorda.
O despertar político – A inoperância do regime
perante a tragédia e o abandono das populações deixaram chocados os mais de
seis mil estudantes universitários que se envolveram numa enorme campanha de
auxílio às vítimas das cheias, organizada conjuntamente pela Juventude
Universitária Católica (JUC) e pela Associação de Estudantes do Instituto
Superior Técnico. Quando, no dia 29, se puseram a caminho das zonas mais
atingidas, os jovens estavam longe de imaginar que, três dias após a
catástrofe, estava quase tudo por fazer. Ainda havia corpos caídos nas ruas e
nas casas, árvores, animais e gente soterrados no chão.
Organizados
em brigadas, estudantes universitários de Lisboa, Porto e Coimbra, e muitos
ainda do Liceu, distribuíram diariamente mais de mil sacos de comida à
população, vacinaram milhares de pessoas contra a febre tifóide e ajudaram a
lavar a roupa, a esfregar o chão e a limpar as casas. Em muitas estavam ainda
gravadas nas paredes e no teto marcas das mãos de homens, mulheres e crianças
que, em desespero, haviam tentado alcançar o telhado para se salvar.
Perda.
Manuel, a criança que se vê na fotografia publicada na “Life Magazine”,
refugiou-se no sótão durante toda a noite, com a mãe e a irmã, à espera que a
água baixasse. “Quando saímos era o horror”
foto Terence
Spencer/The LIFE Picture Collection/Getty Images
Para
a grande maioria dos estudantes, quase todos vindos das elites, o socorro às
vítimas das cheias foi um embate brutal com a realidade. Foi aí, ao caminhar
sobre um caos de lama, destroços, escombros e cadáveres, que conheceram um país
feito de lata que nunca antes tinham imaginado ser o deles. “Foi a primeira vez
que saíram da sua redoma e se aperceberam das condições em que uma grande parte
da população vivia. Para muitos, foi um choque, que acelerou a sua politização.
Foi um momento muito importante no seu despertar político”, explica Miguel
Cardina, investigador da Universidade de Coimbra.
Para alguns
estudiosos da história portuguesa contemporânea, “as inundações de 1967 tiveram
mesmo um papel tão importante na consciencialização política do movimento
estudantil em Portugal como Maio de 1968 teve depois no movimento estudantil
mundial”, diz a historiadora Irene Pimentel, que, à época, então finalista do
liceu, também participou na campanha de solidariedade. “Foi o momento-chave que
marcou o divórcio pleno dos estudantes com o regime”.
A ditadura fez
de tudo para os afastar das acções de socorro à população. No Vale do
Carregado, a GNR chegou mesmo a investir sobre os estudantes e, no Rossio, um
grupo de jovens de capa e batina que se encontrava a fazer um peditório a favor
das vítimas foi detido pela polícia por distúrbios à ordem pública.
A censura tinha
ordens para cortar muitas das notícias que davam conta da solidariedade dos
alunos. A conferência de imprensa que os estudantes organizaram para denunciar
a “impreparação e desorganização dos organismos sociais e sanitários do
Governo” e a existência de “condições de vida miseráveis em várias localidades
do país” foi silenciada. “Compareceram jornais portugueses e alguns
correspondentes estrangeiros. Os jornais portugueses não publicaram nada, mas
no estrangeiro saíram notícias. Em resultado disso, toda a direcção da
Associação de Estudantes foi convocada para ir prestar declarações à PIDE”, conta
Armindo Fernandes, então vice-presidente da Associação de Estudantes do
Técnico.
Com medo das
repercussões no exterior, a polícia política apertou o controlo sobre as
agências noticiosas estrangeiras que acusava de estarem a publicar peças
tendenciosas sobre a forma como o Governo estava a lidar com a catástrofe. “Os
correspondentes estrangeiros foram chamados para interrogatório e alguns foram
mesmo expulsos do país”, conta Irene Pimentel.
Ainda assim, a
notícia da tragédia chegou a toda a Europa, gerando um movimento de
solidariedade internacional. Chegaram donativos da rainha de Inglaterra, do
príncipe Rainier do Mónaco e até do general De Gaulle, que fez chegar uma
“dádiva pessoal” de 30 mil francos.
“Foi um grande
escândalo no exterior. As inundações pioraram a imagem de um país que já era
mal visto porque tinha uma guerra colonial que não terminava. E, além de tudo
mais, era um país que não cuidava dos seus próprios cidadãos”, lembra a
historiadora.
A “aldeia mártir” – As imagens de bairros
inteiros convertidos em cemitérios de lama correram o mundo pela lente de
fotógrafos de prestigiadas revistas internacionais como a “Life Magazine” ou a
“Paris Match”. O caso de Quintas, a pequena povoação de Castanheira do Ribatejo
(Vila Franca de Xira) que naquela noite perdeu quase 100 dos seus 156
habitantes, foi dos que causaram maior comoção.
A morte chegou à
“aldeia mártir” às 01h50 da madrugada. Era o que marcava o relógio parado no
pulso da menina encontrada no dia seguinte completamente nua a boiar no rio. Faltavam
poucos dias para Teresa fazer 15 anos. Estava a dormir em casa dos avós quando
o Rio Grande da Pipa se fez largo e revolto como o mar, engolindo quase toda a
aldeia. Salvaram-se os que viviam na encosta. Na parte mais baixa não restou
quase ninguém.
Perda.
Guilhermina e o filho junto à casa prefabricada que a família recebeu dois anos
após a tragédia
Eduardo Gageiro
O
corpo de Teresa foi dos primeiros a serem encontrados. Um a um, os cadáveres
retirados das casas ou resgatados da água foram sendo alinhados, todos muito
juntos, no largo da aldeia para serem lavados da lama. Família inteiras
deitadas lado a lado em cima dos escombros, no meio de caniços e raízes de
árvores arrancadas ao chão.
Luísa, irmã mais
nova de Teresa, tinha 13 anos. A enxurrada levou-lhe a irmã, os avós e mais 27
tios e primos. Numa aldeia pequena, quase todos eram aparentados. Naquela
manhã, entre o silêncio dos mortos e o choro dos vivos, Luísa tornou-se mulher
adulta. Vestiu-se de preto da cabeça aos pés, tapou o cabelo com um lenço e foi
forçada a assumir o governo da casa dos pais, que sucumbiram à dor.
“A minha mãe
ficou completamente sem saber fazer nada. Passava as noites inteiras a chorar e
de dia só queria estar no cemitério. Eu tive de crescer e ser mulher à força”,
recorda Luísa Fajardo, hoje com 63 anos. Na altura não se falava em depressão,
muito menos em ajuda psicológica. Feitos os enterros e findos os trabalhos de
limpeza, os poucos habitantes que sobreviveram às cheias ficaram entregues a si
próprios, sozinhos numa terra enlutada pelo infortúnio.
“O negro
permaneceu na aldeia muitos anos. Oito ou dez, pelo menos, tanto nos homens
como nas mulheres. Conforme o tempo passava, maior era a saudade. Nós a querer
fazer a nossa vida, a casar, a ter filhos, a ter netos, a querer compartilhar
isso e a não ter com quem. Ninguém conseguiu ultrapassar, nem mesmo ao fim de
50 anos”.
O pequeno largo
da aldeia que antes era o centro do convívio da comunidade tornou-se o retrato
do seu desalento. Toda a parte baixa do Lugar das Quintas foi considerada zona
inundável e foram proibidas novas construções. As pequenas casas térreas onde
tantos morreram na cama estão hoje ao abandono ou foram transformadas em
oficinas e arrecadações.
“Aqui, onde
agora funciona uma oficinazita que está aberta aos fins de semana, morava a
irmã da minha mulher, mais um filhote de nove anos e o marido. Ficaram os três
lá dentro. Ao lado, moravam os tios da minha mulher. Ficaram lá os dois. Aqui
em frente havia uma viúva mais uma filha de 17 anos. Também ficaram lá as duas.
A seguir outra viúva, que morreu também. Nesta terrinha pequena, morreram 93.
Ficámos muito poucos”, conta Joaquim Rodrigues, hoje com 88 anos, apontando,
uma a uma, com a voz embargada, as casinhas do largo.
Joaquim
lembra-se todos os dias do que aconteceu. E todos os dias os olhos se lhe
enchem de lágrimas. Vivia com a mulher e o filho de 11 anos naquele mesmo largo,
numa dessas frágeis casas de adobe, com um único quarto. O rapaz já dormia no
sofá da sala quando, pela meia-noite, o casal se foi deitar. A mulher, ou
“camarada” como sempre lhe chamou, olhou pela janela. Chovia muito. “Ainda bem
que estamos todos abrigados”, comentou. Pouco depois, a água irrompeu pela
porta. “Ai, nossa senhora, o que é isto?”, gritou a mulher. Foram as últimas
palavras que lhe ouviu.
“A minha mulher
levantou-se rápido para ir buscar o candeeiro a petróleo e nunca mais a vi.
Agarrei o moço, consegui pôr uma mão na greta que faltava para tapar a porta e
lá conseguimos sair os dois. Nesse momento, a água já estava mais alta do que a
porta e ajudou-nos a subir para o telhado. Tirei três ou quatro telhas para ver
se ia buscá-la, mas a água já ia até ao sótão. Pensei: ‘O que é que lá vou
fazer? Ela já está morta’. Era tanta lama e tanta lenha, tanto lixo e tanta
coisa que ela não teve hipótese”.
Joaquim e o
filho ficaram agarrados a um barrote do telhado até amanhecer, enregelados e
molhados até aos ossos numa noite fria e escura de Novembro. Passado algum
tempo, os últimos gritos calaram-se. “Ficou até um sossego. O que é que
interessava estar a gritar? Já não havia solução”.
Nessa altura, a
40 quilómetros de distância, Guilhermina também esperava em cima do telhado.
Também ali os gritos tinham dado lugar a gemidos e tinham ficado cada vez mais
sumidos até não se ouvir mais nada. A rapariga de 16 anos, grávida de seis
meses, já tinha perdido as forças quando a água baixou e, já de manhã, os bombeiros
puderam finalmente ir resgatá-la. Levaram-na inanimada para o Hospital de Santa
Maria, em Lisboa. Foi lá que soube que as irmãs e o sobrinho tinham morrido.
fotos arquivo
nacional da torre do tombo, jornal “o século” (provas de corte)
Censura.
Fotografias de “O Século Ilustrado” que a ditadura não deixou publicar. O
“lápis azul” actuou desde o primeiro momento para evitar que a comoção geral se
transformasse numa crítica ao regime
fotos arquivo nacional da torre do tombo, jornal “o século” (provas de
corte)
Dias
depois, um milagre aconteceu. Um jornal publicou a fotografia de um bebé que
tinha sido resgatado pelos bombeiros na noite da tragédia e que, considerado
órfão, tinha sido entregue à Misericórdia para adopção. A família de
Guilhermina não queria acreditar no que via. Era o bebé que a mãe deixara cair
à água, no meio da escuridão. Sem que até hoje ninguém consiga perceber como, o
bebé deve ter caído sobre uma placa de lusalite ou outro pedaço de escombro das
barracas e conseguiu sobreviver.
Acompanhados de
vários vizinhos que serviram de testemunhas, os pais de Guilhermina foram à
Misericórdia buscar o bebé. Mas não os queriam deixar levá-lo. Não porque
duvidassem de que era deles, mas porque já havia casais “de doutores e
engenheiros” dispostos a ficar com ele e a dar-lhe uma vida que a família, que
já era pobre e ainda perdera tudo, nunca lhe poderia proporcionar.
A mãe de
Guilhermina bateu o pé e conseguiu trazer o menino. Já tinha perdido duas
filhas, não o perderia também a ele. Sem teto, roupas ou mobília, a família
ficou a viver com vizinhos durante dois anos, enquanto aguardava que lhes fosse
dada uma casa, no novo bairro da Urmeira, construído de raiz para os
desalojados das cheias.
Mas nem o
milagre os resgatou da escuridão daquela noite. A mãe continuou a “gritar de
noite e de dia” pela morte das filhas. O pai, que já bebia, afogou-se cada vez
mais no álcool. E o filho de Guilhermina nasceu em Abril com problemas
neurológicos que os médicos atribuíram ao trauma vivido na gravidez, de que ela
nunca recuperou.
Guilhermina
dispôs-se a trabalhar de noite e de dia para sair do bairro. Não aguentava as
recordações. A mudança, no entanto, não lhe aliviou a memória. Ainda hoje não
dorme com a chuva e tem pavor da água. Na praia não se aproxima do mar e
recusa-se a pôr os pés num barco. A tragédia vem-lhe constantemente à cabeça,
como se nunca tivesse saído do cimo daquele telhado. “Eu também era para morrer
naquele dia. Não teve de ser, mas é uma sobrevivência de luta”.
Não morreu nas
cheias, mas naquela noite escura a vida deixou de ter luz.
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