terça-feira, 26 de junho de 2007

1089. Ecologistas denunciam transvase Tejo-Guadiana

As organizações não governamentais (ONG) espanholas Ecologistas em Acção, Greenpeace, SEO/BirdLife e WWF/Adena denunciam o Plano Especial do Alto Guadiana (PEAG), que o Governo espanhol programou para levar água do rio Tejo para a bacia do Alto Guadiana. Ainda de acordo com aquelas organizações ambientalistas espanholas que deram o alerta, sublinha-se igualmente a possibilidade de estar a ser "concebida uma política" que conduzirá à desertificação de uma área rica em zonas húmidas, considerada de grande importância internacional e que afectará não só algumas regiões espanholas, mas também Portugal.
Aquelas organizações não governamentais garantem que o Plano Especial do Alto Guadiana não vai corrigir o desastre ecológico de sobreexploração e de falta de gestão hídrica, que permitiu ao longo dos últimos anos a abertura de 60.000 poços ilegais que sobreexploram as 106 zonas húmidas do Alto Guadiana, conforme é sustentado nas razões que justificam o transvase do Tejo para o Guadiana. O que está em causa é uma zona muito rica em reservas de água subterrâneas e que sempre teve um papel essencial no ciclo hidrológico e na conservação da biodiversidade da região, tal como no armazenamento de recursos hídricos e na recarga de aquíferos, acentuam aquelas organizações ambientalistas.
Por outro lado, o elevado valor ecológico destas importantes zonas húmidas levou a incluí-las no conjunto denominado "Mancha Húmida", declarada Reserva da Biosfera pela UNESCO. A sobreexploração deste extenso aquífero já provocou a desaparecimento de cerca de 60 por cento da sua reserva dos principais recursos hídricos. Perante este facto, o anunciado transvase da água do rio Tejo para o Guadiana, ao contrário do que dizem as autoridades espanholas, é visto pelas organizações não governamentais como um expediente para "manter uma agricultura insustentável".
A persistir a "sobreexploração ilegal dos recursos hídricos", as suas consequências acabarão por se reflectir num "alarmante défice dos aquíferos sobreexplorados", advertem ainda as associações ambientalistas espanholas. Actualmente são consumidos na região espanhola de Castilha-La Mancha - onde se localiza o Alto Guadiana - cerca de 400 hectómetros cúbicos de água por ano, "só para falar em extracções ilegais de água".
Para as ONG, as medidas propostas pelo Plano Especial do Alto Guadiana não passam de "uma amnistia de facto para os 60.000 poços ilegais", que vão continuar a ser sustentados pelo novo transvase de água desde o AquedutoTejo-Segura até ao Alto Guadiana.
Com a perda de caudal aquífero no Alto Tejo vai também agravar-se a seca no leito deste rio ibérico entre La Sagra e Talavera, que corre o risco de acabar por ficar seco. Os ambientalistas garantem que este projecto pode vir a afectar "negativamente as províncias de Toledo, Guadalajara, Extremadura e, também, Portugal", da mesma forma que poderá contribuir para o "aumento da poluição da água das barragens", que já estão bastante eutrofizadas a jusante da cidade espanhola de Toledo.
Também as águas subterrâneas já estão contaminadas com nitratos, fosfatos e pesticidas procedentes das águas de retorno da agricultura intensiva, e há aquíferos "seriamente afectados" com níveis de nitratos que em alguns pontos do seu percurso já superam os 50 miligramas por litro.
As organizações não governamentais espanholas frisam que "os castelhano-manchegos" são, neste momento, os "maiores consumidores de água de toda a Espanha", com um consumo estimado, em média, de 185 litros por habitante/dia. Na região do Alto Guadiana, 93 por cento daquela água é utilizada na agricultura de regadio intensivo, enquanto na cabeceira do Tejo as contribuições médias naturais foram reduzidas em mais de 50 por cento desde finais dos anos 70 até à actualidade, referindo que a situação no Alto Guadiana é similar.
A associação ambientalista Greenpeace já tinha denunciado, no final de Outubro de 2006, o transvase ilegal de água do Guadiana para o rio Guadalquivir, com um débito que é destinado ao uso exclusivo da empresa Narcea Goldmines.
Carlos Dias
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Fonte: PÚBLICO

1 comentário:

Nuno de Santa Maria disse...

Eu penso que o problema principal não será o transvase em si mas, principalmente, a poluição derivada dos tratamentos quimicos excessivos na agricultura intensiva. É um problema economicista dado o valor exorbitante da renda por hectare. A solução passa pela agricultura biológica que deveria ser subsidiada a bem da saúde de todos nós.