quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

693. Entre a seca e o anticiclone

Se não é pelos incêndios, que agora já têm época, a arrancar oficialmente a 1 de Julho, é pelas inundações que, por enquanto, não têm calendário oficial e começam quando o anti-ciclone de Inverno se forma, o que não é novidade nenhuma no Algarve, desde o Neolítico. Incêndios ou inundações, à época, servidas como catástrofes naturais, caprichos do firmamento, a proporcionarem boas imagens televisivas, óptimas reportagens de populares sem casas, de lojas, estradas e ferrovias inundadas e em colapso.
Nestas alturas, esquecem-se as vozes que, ao longo dos anos, avisam e tornam a avisar, denunciam factos tão óbvios como a desertificação do interior, causa primeira da transformação da floresta num autêntico paiol de materiais incandescentes, quando a seca chega e ela chega ciclicamente, ou a construção que se realiza selvática em leitos de cheias, e essas também cumprem o seu ciclo. De facto, o clima mediterrânico é, e sempre foi, intrinsecamente flutuante. Basta atentar nos muitos estudos de paleo-ecologia que se têm publicado nas duas ou três últimas décadas.
Seria suficiente consultar os registos de temperaturas ou de pluviosidade, que estão aí e se realizam há mais de cem anos. Não há que enganar: a recorrência de estiagens prolongadas, ou secas, ou das chuvadas provocadas pelo anticiclone de Inverno, são imponderáveis aos quais o clima mediterrânico, e portanto o Algarve, sempre esteve sujeito, desde o Neolítico.
O que é difícil de compreender, face a este manancial de conhecimentos, é a insistência no erro, ano após ano, década após década. Admite-se que existam alguns erros cujas consequências, pela sua magnitude, são difíceis de inverter, o que todavia não justifica o afinco em repetir esse tipo de práticas.
O que já é mais difícil de entender são as decisões em situações mais controláveis, porque de menores dimensões. Eis alguns casos concretos:
A baixa de Lagos inunda, quando chove e sobe a maré e ribeira de Bensafrim, desde há séculos. Provavelmente, não se pode “transferir” o centro histórico para outro local, embora se registe, a título de curiosidade, que as descobertas arqueológicas do Monte Molião confirmaram a teoria de a população, à época romana, se ter deslocado, devido ao assoreamento da ribeira de Bensafrim. Aparentemente, o que os Romanos puderam fazer alguns séculos antes de Cristo, não está ao alcance da nossa era tecnológica.
Continuando, já foi mau construir-se a estrada nacional 120, que liga Lagos a Aljezur, numa tal localização, que coloca esta importante via de comunicação, vital para ligar o interior ao litoral, sujeita a inundações mal surge o tal ciclone de Inverno.Totalmente incompreensível é, em pleno século XXI, voltar a insistir no erro e programar a construção do novo edifício dos serviços administrativos da câmara municipal num terreno alagadiço e em leito de cheia. Um ano depois, haverá provavelmente uma bela reportagem televisiva sobre a perda de importante acervo documental ou então o rebentamento do sistema informático, devido a inundações.
Monte Gordo ficou com metade das ruas inundadas e o presidente da autarquia local apressou-se a assinar o contrato programa para a remodelação da rede de saneamento básico, pensada há uns anos para uma aldeia de pescadores de umas 5 mil almas, enquanto hoje o débito das estruturas turísticas deverá corresponder a 100 vezes mais. Corrige-se assim um erro, o de se ter autorizado betão e mais betão, muito dele sobre as dunas, sem cuidar, na altura, para onde iriam os esgotos de milhares de casas de banho que surgiram como cogumelos.
O que dificilmente se poderá compreender é a intenção de enterrar – nas mesmas dunas – o estacionamento que hoje ocupa a marginal de Monte Gordo. Por aqui vai repetir-se a mesma cena televisiva, quando o parque passar de subterrâneo a submarino, para delícia dos telejornais.
Se estas são previsões futuristas, embora no bom caminho para se tornarem tristes realidades, há locais onde se pode apreciar, ao vivo e cores, os resultados desta irreprimivel tendência para repetir erros.
Veja-se o caso de Faro. A baixa inunda, pela mesma razão de Lagos e de outras cidades ribeirinhas. Nada que impedisse a construção, a Sul da Nacional 125, e portanto praticamente dentro da Ria Formosa, de uma zona comercial em que as caves sempre inundaram. O Faro Shopping, entretanto fechado, é um exemplo paradigmático. Curiosamente, na mesma zona, à entrada de Faro, foi construído o Teatro das Figuras, e lá se cumpriu o destino: na primeira época do anti-ciclone, aí está a inundação.
Há, assim, um facto incontornável: a água passa sempre, apesar do betão. Ficam por isso as interrogações: São os engenheiros uns incompetentes, incapazes de prever nos seus cálculos, apesar do manancial de dados, que os sítios alagadiços alagam, em especial no tal clima mediterrânico, de alterações bruscas? Gostam os bombeiros e a protecção civil de andar com água pelo pescoço a fazer salvamentos, e não reparam nas incongruências, quando o seu parecer é vinculativo nas licenças de habitabilidade? Serão os senhores autarcas tão pouco previdentes que arriscam obras de milhões de Euros, nestas circunstâncias?
Seja como for, há quem fique sempre a ganhar: os senhores do betão que constroem mal e em sítios errados, os mesmos a ser chamados para se encarregarem das obras de remodelação, com carácter de urgência, dispensadas de minudências como concursos públicos. Esses ganham a dobrar, a triplicar e etc. Eles e os amigos. A culpa, essa, é sempre da água, nunca do betão.
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Fonte:
Observatório do Algarve (Conceição Branco)

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