quarta-feira, 31 de agosto de 2016

5870. SELVAGEM GRANDE: Estação meteorológica mais a sul em território nacional

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA I.P), na prossecução das suas responsabilidades em meteorologia e clima, ao nível do território nacional e em estreita colaboração com a Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais (SRA), instalou no passado dia 22 de agosto de 2016 uma estação meteorológica automática nas Ilhas Selvagens (Selvagem Grande), equipada com sensores para observação da pressão atmosférica, temperatura e humidade relativa do ar, intensidade e rumo do vento, precipitação, detector de precipitação, radiação solar global, temperatura do ar a 5 cm e temperatura do solo a -5 cm e -10 cm.
Os dados registados de 10 em 10 min são transmitidos, através da rede telefónica, a todas as horas para o Observatório Meteorológico do Funchal e para a sede do IPMA, para difusão Regional, Nacional e Internacional.
Assim, será possível, a partir de agora, acompanhar a evolução do estado do tempo no extremo sul do território português, melhorar a previsão do tempo aos níveis nacional e regional, em particular nas Selvagens, contribuindo para a melhoria da segurança de pessoas e bens, em particular as que desenvolvem actividades nas Ilhas Selvagens, (Vigilantes da Natureza e da Polícia Marítima, assim como de todas as actividades ligadas ao transporte, com destaque para a Marinha e Força Aérea Portuguesa, bem como das actividades piscatórias.
No futuro, a informação meteorológica registada no local poderá ser utilizada em trabalhos de carácter científico e técnico, designadamente no âmbito dos ecossistemas das Ilhas Selvagens e na melhoria do conhecimento do clima actual e da sua evolução.
O radar meteorológico a instalar em Porto Santo, no Pico Espigão, durante o próximo ano de 2017 e os detectores de descargas eléctricas atmosféricas a instalar em Porto Santo, Caniçal, Porto Moniz e Ponta do Pargo (ainda em fase de projecto), complementarão a rede de observação meteorológica no arquipélago da Madeira.
No âmbito deste projecto, agradece-se o apoio logístico da Marinha Portuguesa, Autoridade Marítima Nacional, Polícia Marítima e da PT, pelo apoio técnico e pela disponibilização temporária e graciosa da linha telefónica, enquanto não for dada como terminada toda a fase de testes finais dos equipamentos.
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Fonte: IPMA

5869. Análise preliminar do período 5 a 10 agosto 2016 na Madeira

Na sequência da notícia “Episódio de tempo excepcionalmente quente no Funchal (8 a 10 de Agosto)” do dia 10 de Agosto de 2016, o IPMA tem vindo a aprofundar a análise da situação meteorológica que levou à ocorrência de valores extremos de temperatura e humidade relativa nas vertentes sul da ilha da Madeira.
A acção conjunta de um anticiclone localizado a noroeste da Península Ibérica e de uma depressão centrada em Marrocos influenciaram o estado do tempo no arquipélago da Madeira no período compreendido entre 5 e 10 de Agosto de 2016. Neste evento ocorreu uma advecção de ar quente e seco em todo o arquipélago, tendo-se atingido, aos 1500 m de altitude, valores de temperatura do ar da ordem de 25-26 ºC e de humidade relativa do ar na gama de 10-20 %.
Neste intervalo de 6 dias, nas estações do Areeiro (1590 m) e Bica da Cana (1560 m), foram registados valores máximos de temperatura a 2 m de, respectivamente, 27.2 ºC e 28.1 ºC. Em ambas as estações, os valores mais baixos de humidade relativa a 2 m observados foram da ordem de 10 a 20 %. Devido a uma circulação predominantemente de este/nordeste, nas estações a baixa altitude localizadas na vertente norte da ilha da Madeira, bem como na ilha de Porto Santo, os valores máximos de temperatura a 2 m foram da ordem de 30 ºC e humidade relativa do ar a 2 m na ordem de 40 %.
Nas estações localizadas na vertente sul, a situação foi mais extrema, com valores de humidade relativa do ar a 2 m a atingirem mínimos de 10-20 % e de temperatura máxima do ar a 2 m da ordem de 34-36 ºC, de uma forma generalizada. Em particular, na zona do Funchal foram registados, no dia 9, os valores mais elevados da temperatura do ar a 2 m, com máximos de 38.2 ºC e 37.8 ºC, respectivamente, nas estações do Funchal/Observatório e Funchal/Lido.
Mais relevante será o facto da temperatura horária, na estação do Funchal/Observatório, ter apresentado uma subida de cerca de 7 ºC numa hora (entre as 23 horas locais de dia 4 de agosto e as 00 horas de 5 de agosto), tendo-se observado valores da ordem dos 30 a 32 ºC durante toda a noite de 5 de agosto. Entre o fim da tarde de dia 8 e a manhã de dia 9 a situação foi ainda mais extrema, com registos de temperatura de 30 a 35 ºC.
Estes valores de temperatura e humidade registados na vertente sul da ilha da Madeira não são integralmente justificáveis pelo transporte de ar quente e seco induzido pela larga escala, já que no decurso do fim-de-semana de 6 e 7 de agosto a temperatura máxima nas vertentes sul da ilha da Madeira foi da ordem dos 28 a 31 ºC. Assim sendo, as observações sugerem que fenómenos de escala local terão contribuído de forma relevante para a situação de temperaturas anormalmente elevadas registadas nesta zona.
Em particular, os registos da estações do IPMA na região do Funchal e em altitude sugerem que na madrugada de 5 de agosto e entre as 6 horas locais de dia 8 de agosto e as 5 horas de dia 10 de agosto, terá predominado uma circulação com sentido descendente (da montanha até ao nível médio do mar) nas vertentes sul da ilha, a qual propiciou uma rápido aquecimento do ar e uma descida acentuada da humidade relativa do ar a 2m, fenómeno que é habitualmente designado como efeito de foehn. Esta situação é comprovada pelos registos do IPMA, tendo-se observado, às 6 h de dia 9, temperaturas de cerca de 25 ºC na estação do Pico Alto (1118 m) e de 34 ºC no Funchal/Observatório, com vento de nordeste com cerca de 35 km/h e rajadas da ordem dos 80 km/h. A diferença de 9 ºC entre as estações do Pico Alto e do Funchal é consistente com o aquecimento que uma partícula de ar pode sofrer numa descida de cerca de 1000 metros quando a massa de ar é seca (processo conhecido por compressão adiabática seca).
Face ao carácter local deste episódio, é expectável que os modelos de maior resolução espacial exibam um melhor desempenho de previsão. O IPMA irá continuar a analisar este evento, em particular, as características do escoamento atmosférico na ilha, para permitir descrever em mais detalhe a situação meteorológica.
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Fonte: IPMA

5868. AÇORES (Ilha Terceira): 24.08.2016

Viagem aérea e registos fotográficos da Ilha Terceira
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Estuário do Sado
Nebulosidade
Nebulosidade
Nebulosidade
Vista geral da cidade da Praia da Vitória
Vista geral a partir da Serra do Cume
Angra do Heroísmo
Angra do Heroísmo
 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

5867. Terça-feira, 30 de Agosto (16h00)

Algumas temperaturas às 16h00
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Alvega – 34,5 ºC
Elvas – 34,2 ºC
Portalegre (Cidade) – 34,0 ºC
Reguengos (São Pedro do Corval) – 34,0 ºC
Zebreira – 33,5 ºC
Avis (Benavila) – 33,3 ºC
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Zambujeira – 22,1 ºC
Sagres – 21,2 ºC
Aljezur – 21,1 ºC
Odemira (S. Teotónio) – 21,0 ºC
Foía – 20,1 ºC
Cabo Raso – 19,3 ºC
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Fonte: IPMA

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

5866. Resumo Climatológico – 1ª quinzena de Agosto de 2016

O período de 1 a 15 de Agosto de 2016 em Portugal Continental foi extremamente quente.
A temperatura média do ar, 25.1 °C foi 2.9 °C acima do valor médio mensal; a temperatura máxima foi superior em 4.5 °C e a temperatura mínima, 1.1°C Em particular o período de 5 a 14, caracterizou-se pela persistência de valores muito altos de temperatura máxima do ar (superiores a 31 °C na média do território Portugal continental), sendo de destacar os dias 6, 7 e 8 em que foram registados valores ≥ 43 °C em algumas regiões e a média do país ter ultrapassado os 38 °C nos dias 7 e 8 (dias mais quentes do ano).
No dia 7, foram ultrapassados os anteriores maiores valores da temperatura máxima em Porto/P.R, Porto/ S. Gens, Braga, Leiria e Mora. O maior valor da temperatura mínima do ar, 27.9 °C ocorreu em Lisboa/Geofísico na madrugada do dia 7 e igualou o anterior máximo registado em 2/8/2003.
Entre os dias 5 e 13 de Agosto ocorreu uma onda de calor (duração entre 8 e 9 dias) nas regiões de Lisboa e Setúbal (Torres Vedras/Dois Portos, Lisboa/Geofísico, Santarém/Fonte Boa, Setúbal e Alcácer do Sal), do Norte (Braga), e do Centro (Lousã e Anadia).
Ocorrência de noites tropicais nos dias 7 e 8 de Agosto em cerca de metade do território, que associadas a dias muito quentes ou extremamente quentes (temperatura máxima ≥35 ou 40 °C) contribuiu para uma sensação de desconforto térmico acentuada e prolongada.
Não foi registada precipitação na primeira quinzena do mês de Agosto na rede de estações do IPMA, em Portugal continental, com excepção da manhã do dia 4 de Agosto no litoral da região Norte e na tarde do dia 9 na região de Miranda do Douro.
De acordo com o índice meteorológico de seca PDSI, a 15 de Agosto de 2016, 25% do território, as regiões do Alentejo e Algarve, encontravam-se em situação de seca fraca.
De referir ainda a sequência de valores da temperatura do ar superiores a 30 °C, associados ao elevado número de horas com valores da humidade relativa do ar inferiores a 30% e da velocidade instantânea do vento (rajada) superiores a 30 km/h; em particular nas regiões do Norte e Centro, nos dias 6 a 8 e 10 a 12, os valores da rajada variaram, em geral entre os 40 e os 70 Km/h e os valores da humidade relativa foram mesmo inferiores a 20%.
O índice de risco de incêndio florestal apresentou valores muito elevados no período de 6 a 13 de Agosto, nas regiões do Norte e Centro.
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Fonte: IPMA

5865. RISCOS DE SECAS EM PORTUGAL CONTINENTAL

Verifica-se a ocorrência de um elevado número de secas em Beja, 28, seguido de Évora com 25, Porto com 23 e Lisboa com 21. Alguns episódios de seca destacam-se, não só pela sua duração, mas também pelo número de meses consecutivos em situação de seca severa e extrema.
Em termos de duração há a realçar:
• 1933 –1935 no Porto (26 meses), Lisboa (15 meses) e Beja (28 meses)
• 1943 – 1946 no Porto (38 meses), Lisboa (26 meses), Évora e Beja (29 meses)
• 1953 –1955 no Porto (25 meses), Évora (23 meses) e Beja (24 meses)
• 1973 – 1976 em Lisboa (28 meses) e Évora (18meses)
• 1979 – 1982 em Évora (33 meses)
• 1991 – 1992/3 em Lisboa e Beja (24 meses), Évora(18 meses)
• 1994 – 1995 em Lisboa (22 meses), Évora e Beja (20 meses)
• 2004 – 2006 em Beja, (33 meses), Évora, Lisboa e Porto (16 meses).
Em termos de intensidade (número de meses consecutivos em seca severa ou extrema) são de realçar:
• 12 meses – Beja, 1943-1946 e 1994-95
• 11 meses – Beja, 1994-1995
• 10 meses – Beja e Porto, 2004-2006
• 9 meses – Beja 1980-1981; Lisboa e Évora, 2004-2006

Verifica-se que as situações de seca de 1943-46, 1980--83, 1990-92 e 2004-06, são as que apresentam maior duração, com quase todo o território a apresentar mais de 18 meses em seca, sendo de destacar:
seca de 1943-46: 38 meses em Castelo Branco e no Porto; 30 meses em Portalegre;
seca de 1980-83: 39 meses em Alvega, 36 meses em Sagres, 35 meses em Faro;
seca de 1991-92: 34 meses em Penhas Douradas e Miranda do Douro com 30 meses;
seca de 2004-06: 36 meses em Braga, 35 meses em Amareleja e 33 em Beja.

Considerando apenas duas áreas do território, a Norte e Sul do rio Tejo, verifica-se que:
a) nas situações de seca de 1964-65, 1974-76 e 2004--06 as duas áreas foram de igual forma afectadas;
b) nas situações de seca de 1943-46, 1948-49 e 1990-92 foram mais afectadas as áreas a Norte
do rio Tejo, em particular na de 1943-46 com 72% de área afectada;
c) nas situações de seca de 1980-83, 1994-95 foram particularmente afectadas as áreas a Sul do rio Tejo.

A destacar:
-Seca de 2004-06 foi a de maior extensão territorial (100% do território afectado), seguida pela de 1943-46 (92% do território);
-Seca 2004-06 foi a situação de seca mais intensa (meses consecutivos em seca severa e extrema) em termos de extensão territorial dos últimos 65 anos (100%);
-Maior frequência de situações de secas nos últimos 30 anos (depois de 1976) quando comparado com o período entre 1941-1975.
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5864. PORTUGAL CONTINENTAL: Anomalias na precipitação total anual

Passando agora a análise da precipitação total anual no continente, é possível constatar que, a partir do início dos anos sessenta do século passado, a mesma tem vindo a registar valores cada vez mais baixos, encontrando-se nos do século XXI os valores mais baixos. Cinco dos dez anos mais secos em Portugal Continental registaram-se depois de 2001.
Relacionando a evolução da precipitação total anual com a temperatura média anual, conclui-se que a tendência em Portugal Continental segue dois parâmetros: aumento da temperatura média anual e redução da precipitação total anual. Com esta tendência, os períodos de seca tenderão a ser mais frequentes.
Nota: Tendo em conta o gráfico representado, o ano com maior défice de precipitação foi em 2005. Por curiosidade refira-se que a seca mais longa em Portugal Continental ocorreu no litoral norte (Porto: Março de 1943 a Fevereiro de 1946).
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Fonte da imagem: Pedro_Viterbo

5863. PORTUGAL CONTINENTAL: Relação entre as temperaturas médias de verão e anuais


A comparação entre os gráficos afere uma elevada correlação directa entre o aumento da temperatura média anual em Portugal Continental e o aumento da temperatura média durante o Verão. Assim, à medida que os Verões se vão tornando mais quentes, quase implica um aumento da temperatura média anual, concluindo-se que o registo de Verões cada vez mais quentes tem contribuído para a ocorrência de temperaturas médias anuais cada mais elevadas.

5862. PORTUGAL CONTINENTAL: Julho extremamente quente e muito seco

O mês de Julho de 2016, em Portugal Continental, foi extremamente quente e muito seco. O valor da temperatura máxima foi o mais alto desde 1931 e em relação à temperatura média foi o 2º Julho mais quente. O valor médio da temperatura média do ar foi de 24.33 °C, a que corresponde uma anomalia de + 2.16 °C.
O valor médio da temperatura máxima, 32.19 °C, foi muito superior ao valor normal, com uma anomalia de + 3,47 ºC; o valor médio da temperatura mínima, 16.47 °C, foi superior ao valor médio em + 0,85 ºC, e corresponde ao 8º valor mais alto desde 1931 (maior valor em 1989, 17.54 °C).
Ocorreram neste mês 2 ondas de calor: a primeira no período de 14 a 19 de Julho que abrangeu apenas a região do Vale do Tejo e a segunda no período de 23 a 30 nas regiões do interior Norte e Centro, Vale do Tejo e Alto Alentejo. De referir ainda o número de dias com temperatura máxima superior ou igual a 30 e 35 ºC que foi cerca de 1,5 a 2 vezes o valor da normal 1971-2000.
O valor médio da quantidade de precipitação, 3.1 mm, foi inferior ao valor normal (13,8 mm). Valores da quantidade de precipitação inferiores ao registado neste mês de Julho ocorrem em cerca de 25 % dos anos (desde 1931).
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Fonte: IPMA

5861. Segunda-feira, 22 de Agosto (16h00)

Algumas temperaturas às 16h00
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Lousã (Aeródromo) – 41,1 ºC
Tomar (Valdonas) – 40,9 ºC
Alvega – 39,9 ºC
Pinhão (Santa Bárbara) – 39,4 ºC
Portalegre (Cidade) – 38,8 ºC
Portel (Oriola) – 38,8 ºC
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Sines – 27,8 ºC
Viana do Castelo (Chafé) – 27,5 ºC
Almada (P. Rainha) – 26,6 ºC
Dunas de Mira – 26,1 ºC
Figueira da Foz (Vila Verde) – 23,6 ºC
Cabo Raso – 19,3 ºC
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Fonte: IPMA

terça-feira, 16 de agosto de 2016

5860. IPMA: No olho do furacão (uma manhã com meteorologistas)

"A situação está muito complicada amanhã”. São 10h25 de quarta-feira e para Nuno Moreira isso é uma novidade. O chefe da divisão de Previsão Meteorológica, Vigilância e Serviços Espaciais do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) acaba de entrar na sala e é rapidamente informado sobre o tempo que vai estar esta quinta-feira. As notícias parecem não ser animadoras para o público, mas deixam os meteorologistas entusiasmados.
Portugal vai ser atravessado por um sistema frontal que trará chuva forte até meio da tarde. Segue-se um período de aguaceiros e, mais para o fim do dia, outro sistema frontal atinge o território nacional. Ou seja, mais chuvas fortes.
É isto. E é isto mesmo que, quinze minutos depois, a meteorologista Sandra Correia vai dizer na videoconferência diária que os especialistas do IPMA têm com alguns elementos da Protecção Civil. Nuno Moreira precisa: entre quinta e sábado, no Minho e Douro Litoral, esperam-se 150 milímetros de chuva, um valor relativamente elevado que poderá motivar medidas preventivas da Protecção Civil. Mas isso é lá com eles. No IPMA, a acção escolhida foi para já a emissão de avisos amarelos, que podem tornar-se laranja mais tarde, caso a situação o justifique.
Eram 6h50 quando Paula Leitão notou a chegada do segundo sistema frontal. Olhando para os vários ecrãs de computador espalhados pela secretária, um leigo não veria mais do que um mapa da Península Ibérica coberto de manchas amarelas, laranjas e verdes que se deslocavam de norte para sul. Mas a meteorologista, já com quase onze horas de trabalho às costas, identificou nessas manchas um foco de atenção que até aí não existia. “Como é que eu escrevo isto?”, pergunta, de olhos postos no computador onde tem escritas as previsões do tempo para o dia. “Temos chuva, depois passa a aguaceiros e volta a chuva forte…”
De Deus e da matemática – Para quem está habituado a números, símbolos e mapas, lidar com as palavras pode ser difícil, sobretudo quando não se deve entrar em detalhes excessivos, sob o risco de os textos se tornarem incompreensíveis. “Às vezes percebemos o que vai acontecer, mas não conseguimos explicar. Só com um boneco e uma palestra de dez minutos” isso seria possível, ri-se Paula, que, às 7h20, quando os primeiros raios de sol estão a surgir, decide emitir os avisos amarelos e deixar definitivamente claro que há nuvens a aproximar-se no horizonte.
No instituto desde 1990, Paula Leitão ainda é do tempo em que poucos radares meteorológicos havia, imagens de satélite eram uma miragem e grande parte do trabalho fazia-se à mão. Hoje, na sala das previsões meteorológicas, o que salta logo à vista é um enorme video-wall de nove televisões onde há gráficos, mapas, imagens de satélite e de radar em constante movimento. Em 24 anos muita coisa mudou, os modelos usados melhoraram significativamente e até já é um programa informático que prevê as temperaturas, mas as falhas não se podem evitar.
Não há modelo matemático nenhum que consiga prever a natureza. É preciso fazer aproximações. Modelar a natureza é uma obra para Deus, não é para os matemáticos”, diz a meteorologista.
E, por isso, “há uma boa receptividade, as pessoas acham que fazemos um bom trabalho”, considera Ângela Lourenço, que às 7h50 já está a ouvir de Paula as conclusões do trabalho da noite e prepara-se para assumir o controlo a partir daí. “Há uma tentativa de eficiência: os colegas alertam para os pontos com os quais nos devemos preocupar. Temos de ser selectivos”, diz. Esta quarta-feira, devido às previsões para quinta, que são actualizadas ao longo do dia, o mais crítico era a precipitação, o vento e a agitação marítima.
Está lá? É do tempo? – A sala que o centro operacional de previsão de tempo ocupa fica no segundo andar do edifício-sede do IPMA, no aeroporto de Lisboa. Além da equipa responsável pela meteorologia em Portugal Continental e na Madeira (os Açores têm um departamento próprio), no espaço trabalham também meteorologistas especializados na previsão aeronáutica e observadores – a estes compete interpretar dados recebidos das estações meteorológicas espalhadas pelo país e perceber se estas estão a trabalhar normalmente ou se há anomalias.
A partir das 8h, quando entra o turno do dia, a principal prioridade é preparar a videoconferência com a Protecção Civil, que ocorre todos os dias às 10h40. Depois de o sossego da madrugada ser perturbado momentaneamente enquanto as equipas que saem e entram falam entre si, o silêncio regressa à sala e Sandra Correia lança-se à criação de uma apresentação de PowerPoint. Tem mais ou menos duas horas e meia para preparar um conjunto de cinco ou seis diapositivos. Parece fácil, mas envolve ler e reler mapas, ler e reler observações, ler e reler gráficos. E, por vezes, atender telefones.
Nunca nos podemos esquecer de uma coisa: somos serviço público. Quem nos paga são os portugueses, trabalhamos para os portugueses”, refere Ângela Lourenço, que se encarrega da conversa para não perturbar Sandra. E encarrega-se também de atender o telefone aos jornalistas e outras pessoas que ligam para saber como vai estar o tempo.
Há uns anos, os meteorologistas não recebiam chamadas a perguntar pelo estado do tempo, mas isso mudou e agora é normal o telefone tocar. Ligam jornalistas e produtores de cinema e televisão, mas, para Ângela, “a senhora que quer estender a roupa também tem direito”. E, porque essa senhora poderá não ter acesso à internet, – onde o estado do tempo é permanentemente actualizado –, existe um serviço, que talvez muitos desconheçam, de teletempo. É o 760 786 774, custa sessenta cêntimos mais IVA e, através de um sistema automático, informa quem liga sobre a meteorologia para todo o continente e ilhas. Antigamente, quem telefonava podia escolher sobre que região queria informações, mas os cortes financeiros tornaram o serviço apenas nacional.
O mundo no laboratório, o laboratório no mundo – Em nome da eficiência financeira, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera foi criado, em Março de 2012, pela fusão de uma série de outros institutos públicos das áreas do mar e pescas, geologia marinha e projectos de investigação em transportes marítimos. E também pela inclusão dos serviços do Instituto de Meteorologia, que sempre ocupou as instalações do aeroporto de Lisboa e onde chegaram a trabalhar centenas de pessoas na vigilância meteorológica e sismológica.
“Até relojoeiro havia”, diz Joana Sanches, meteorologista que se ocupou durante a noite das previsões para o estado do mar, enquanto faz a visita guiada ao segundo andar. Chegada ao instituto em 2005, Joana já não conheceu o relojoeiro, que trabalhava para que todos os relógios estivessem sincronizados com os da Organização Meteorológica Mundial, a entidade “extremamente rigorosa” que tem como missão “coordenar todos os países para seguirem os mesmos procedimentos” no que à meteorologia diz respeito.
Com a criação do IPMA, “houve uma grande remodelação” não só nas estruturas da entidade como na própria disposição dos andares e das pessoas, conta Joana. Ao mesmo tempo, lembra Ângela, o número de procedimentos automatizados aumentou “e isso é bom”, mas há muito mais informação para processar – e “o equilíbrio [do número] de pessoas necessário não é fácil de encontrar”.
Quando vai ao baú das memórias dos quase vinte anos que já leva no instituto, Ângela separa os momentos marcantes entre aqueles que afectaram o público e aqueles que só a entusiasmaram enquanto cientista. “Tenho de estar permanentemente a estudar, não só de me actualizar, mas de estudar, de aprender”. Para a sua história pessoal ficam os episódios dos temporais do Outono de 1997 (escassos meses depois de ter começado a trabalhar ali), as ondas de calor e os incêndios de 2003 e 2005 e o temporal da Madeira em 2010.
Todos os episódios com vítimas mortais são os que mais nos marcam. Um dos grandes problemas da meteorologia é que não conseguimos simular em laboratório o fenómeno no seu conjunto, só em partes. Por isso, os fenómenos são o laboratório”, afirma.
Ainda há pouco tempo, uma das situações com que os especialistas do IPMA tiveram de lidar foi a inundação de algumas zonas de Lisboa, por duas ocasiões. “Foi uma situação complicada”, admite Ângela Lourenço, que destaca frequentemente que a missão do instituto é promover a “salvaguarda de vidas e bens”. Neste caso específico, todos foram apanhados de surpresa. “Os fenómenos meteorológicos de escala inferior a dez quilómetros são muito difíceis de captar” antes de ocorrerem, remata.
À espera da chuva – Notar-se-ia na voz de Sandra Correia um certo tom de nervosismo? Seja como for, a videoconferência acabou e a Protecção Civil já sabe que se aproxima mau tempo. Com base nessa informação, esta entidade emite um comunicado de “aviso à população” onde se deixam alguns conselhos para lidar com o tempo adverso.
Agora, compete aos meteorologistas de serviço saber se as previsões se confirmam exactamente como esperam. Para já, esta quinta-feira está a ser, de facto, chuvosa. Se se confirma a gravidade esperada, só as observações o dirão.
10h55. Apagam-se as luzes na sala da videoconferência. No centro operacional de previsão do tempo, é altura de monitorizar o avanço das frentes frias e da nebulosidade. Depois da azáfama da preparação do PowerPoint, a calma parece ter regressado à sala. Sandra regressa aos seus afazeres, Ângela vai ajudá-la. Mas, entre as equipas de previsão meteorológica do IPMA, os tempos mortos não existem. Toca o telefone: uma estação de televisão chegará às 11h30 para saber as últimas. E um novo rebuliço se levanta.
João Pedro Pincha
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Fonte: Observador

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

5859. PROJECTO FRIESA: risco e impacte potencial de frio

O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Instituto Ricardo Jorge) e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), em conjunto com outras entidades, pretendem desenvolver um teste piloto, nos distritos de Lisboa e Porto, que permita prever, diariamente, o risco e impacte potencial de temperaturas extremas baixas na mortalidade da população, durante o inverno de 2015/16. Este teste piloto surge na sequência do projecto FRIESA (FRIo Extremo na SAúde), realizado em parceria pelo IPMA e o Instituto Ricardo Jorge, através do seu Departamento de Epidemiologia, e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.
O projecto FRIESA teve como objectivo principal desenvolver modelos estatísticos para a previsão da mortalidade associada a temperaturas extremas baixas durante o Outono e Inverno, nos distritos de Lisboa e do Porto. Pretendia-se ainda que os modelos desenvolvidos servissem de base para a implementação de um sistema de vigilância, equivalente ao ÍCARO, e monitorização das temperaturas observadas e previstas, predizendo, diariamente, o risco e impacte potencial de temperaturas extremas baixas na mortalidade da população.
Este sistema, uma vez implementado, facultará aos decisores na área da saúde, em especial em Saúde Pública, informação atempada que apoie a preparação e adequação dos níveis e tipos de intervenção em situações de perigosidade associadas ao frio extremo com efeitos na saúde.
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5858. PROJECTO ÍCARO: Impacto das ondas de calor

Apresentação: ÍCARO é um instrumento de observação no âmbito do qual se estuda o efeito de factores climáticos na saúde humana. Trata-se de um projecto nacional que engloba actividades de investigação, vigilância e monitorização, fundamentalmente, do efeito de ondas de calor na mortalidade e morbilidade humanas.
No que se refere à vigilância e monitorização de ondas de calor com potenciais efeitos na saúde humana, sazonalmente, implementa-se o Sistema de Vigilância Ícaro. Este sistema começou a ser desenvolvido em 1999, em parceria com o Instituto de Meteorologia e conta com a participação da Direcção Geral da Saúde e da Autoridade Nacional de Protecção Civil. Desde 2004 faz parte integrante do Plano de Contingência de Ondas de Calor.
Metodologia: O "Sistema de Vigilância ÍCARO" é activado, todos os anos, entre Maio e Setembro emitindo relatórios diários do Índice Alerta Ícaro. É constituído por três componentes:
  1. A previsão dos valores da temperatura máxima a três dias realizada pelo CAPT do IPMA e comunicada ao DEP, todas as manhãs;
  2. A previsão do excesso de óbitos eventualmente associados às temperaturas previstas, se elevadas, realizada pelo DEP, através de modelos estatísticos desenvolvidos para esse fim;
  3. O cálculo dos índice Alerta ÍCARO, que resumem a situação para os três dias seguintes, calculado com base na previsão dos óbitos.
Este conjunto de operações é realizado diariamente. Os valores dos índices Alerta ÍCARO são disponibilizados todos os dias úteis, através da edição do boletim ÍCARO, que é divulgado por via electrónica (e-mail) directamente a um grupo restrito de decisores, profissionais e serviços públicos, ou com relação contratual com o Ministério da Saúde, que têm responsabilidade na decisão e prestação de cuidados, de nível populacional ou individual, à população presente em Portugal. Sempre que as previsões da temperatura e o valor do Índice Alerta Ícaro o aconselharem, é transmitida uma recomendação de alerta de onda de calor a estas entidades.
As situações de alerta, as medidas de contingência e a respectiva informação à população são disponibilizadas à população pela DGS e as ARS de acordo com o estabelecido no Plano de Contingência para Temperaturas Extremas Adversas – Módulo Calor.
Contactos: Susana Pereira da Silva, (+351) 217 526 488, susana.pereira@insa.min-saude.pt / icaro@insa.min-saude.pt, Morada: Av. Padre Cruz. 1649-016 Lisboa
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